sexta-feira, 25 de setembro de 2015

# aspas (xlix)



Na qualidade de maior homem vivo, ao lado de Fidel, o monumental Francisco não titubeia e, em território estadunidense, diz sobre si e a nossa igreja (v. aqui):

"Se eu sou um socialista, Jesus também era. Eu sigo nossa igreja, essa é a nossa doutrina."



quinta-feira, 24 de setembro de 2015

# ódio



Temo exagerar no argumento e prejudicar a causa, como precavia Hegel; entretanto, vamos em frente, pois a pertinência escancara-se.

A tese de Adolf Hitler -- ratificada pelas teorias que sempre trataram da psiquê humana -- era muito simples: nada une tanto um grupo díspar de seguidores do que o "ódio".

E assim o líder nazista construiu uma grande máquina na qual essa emoção negativa para tratar das subclasses funcionava com rara eficácia.

Por aqui, a negação do outro lado -- cujo teor fez surgiu, pós-Holocausto, a ideia da "banalização do mal" (v. aqui) -- também é alimentada, diuturnamente, por tvs, jornais, revistas, sites, rádios e para-choques de caminhão que mostram o pobre e o nordestino como seres inferiores, incapazes de terem seus próprios juízos.

A negação, partida de uma gente incapaz de pensar pelo lado esquerdo do peito e de sentir pelo lado humano do cérebro, funda-se no fetiche da meritocracia, digna daqueles bem-nascidos, ou na cantilena de que a sua consciência é a única ciente, a única com a ciência de avaliar o bem e o mal e de decidir os destinos do país.

Veem, pelos olhos platinados da tv, que o destino é ser "contra-tudo-isso-que-está aí".

Só esquecem de ver, com os olhos que a terra há de comer, que o destino deles não é o destino de outras dezenas de milhões de brasileiros mal classificados e que sempre foram ultrajados pelas classes usurpadoras do Estado.

Os lancinantes discursos do Führer estimularam a paixão do ódio, tal qual os editoriais da grande mídia perante seu público-alvo.

E grande parte da nossa classe média -- medusicamente cooptada pelas teses reacionárias da elite -- comprou esta ideia, sorvendo o veneno produzido amiúde por todos os cantos midiáticos.

Ora, o que sempre se percebeu no Brasil é a vontade de um Estado que tenha um só lado, que estanque a massa na miséria analfabeta e que pare de tentar ser de todos e para todos.

Essa é a nossa vontade secular, o desejo felino da nossa elite empedernida, tão desgostosa da ações populares e populistas e que na nossa história recente levou a matar Getúlio e a derrubar Jango para dar golpes.

Desta vez, quem escancara a divisão do país, o recalque social e a falta de espírito cívico, nacional e democrático das nossas elites são os governos Lula e Dilma.

E não ao contrário, como bem ilustrou Leonardo Boff (v. aqui).

Afinal, é o contrário da democracia, da soberania e da desigualdade que sustenta as bases programáticas desenhadas pela direita e que dá asas aos seus príncipes.

Não à toa, o ódio por trás da contínua depreciação de um grupo político -- que, infelizmente, tem cometido dezenas de erros -- e da incessante desconstrução da Política tem por fim a retomada do status quo, a despolitização da vida pública, a apolitização do cidadão e o recrudescimento das "mãos visíveis" que algemam o Estado social.

É o rancor pelo potencial fim de um exército de mão-de-obra barata, explorada e fruto dos processos de colonização escravocrata e de urbanização favelizada.

Na contramão do mundo, a cegueira faz uma grande parte do Brasil ser conduzida pelos cabrestos interesses de quem na história sempre fez desta terra uma terra de poucos, agora sob os auspícios de um neoliberalismo que sabe à naftalina.

Mas é uma cegueira branca, como aquela de Saramago (v. aqui e aqui).

Hoje, a fúria que baba do canto da fala ensaia o retrocesso, o regresso e o resgate de programas econômicos funestos e de políticas públicas nauseabundas, tudo temperado com repressão e depressão.

A nau que pode voltar a nos conduzir, não sejamos tolos, tem um porto certo.

E neste norte a bússola é o ódio.

De um ódio que quer mover montanhas.



(publicado em agosto de 2014) 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

# alta fidelidade

 
 
Acabo de assistir, aqui, a mais um capítulo do ódio e da loucura que caracterizam a direita sem-noção no Brasil, absolutamente doente no que pensa, fala e faz.
 
E por isso relembro de um texto recente, aqui publicado, sobre um dos cinco maiores brasileiros vivos.

Êta, vida.


# alta fidelidade

Sou uma pessoas de listas.

De fazer listas, para tudo, com tudo.

Contudo, sempre atualizando, sempre remexendo, sempre cutucando para me convencer de que nelas não há engano.

Mas, de uns tempos pra cá, uma delas está a me perturbar muito.

É aquela que faço dos cinco maiores brasileiros vivos – o gênero é a praxe da língua –, na qual figuram, desde a morte do nosso genial Oscar, apenas Lula, Boff, Chico e Pelé.

E diante dela, sem o nosso arquiteto do pensamento, relutava em fechá-la.

Entretanto, tem um pessoa que toda vez que vejo, que ouço ou que sei o que anda aprontando, me convence mais: João Pedro Stédile, cérebro do maior movimento social do planeta – o MST – e um dos líderes globais da "Via Campesina", orgulha o nosso país.

Aqui e aqui, as suas mais recentes missões, uma delas na Academia de Ciências do Vaticano, ambas a convite do Papa Francisco, para falar sobre a reinvenção da terra e os trabalhos dos sem-terra, inclusive nas áreas da educação e da agricultura, sempre desenvolvidas para o alcance de todos.

Nestas audiências com o Papa, as lições e ideias de Stédile -- e, também, de Leonardo Boff  --serviram, inclusive, como base racional para a última e revolucionária encíclica papal, a Laudato Sí (v. aqui).

Ainda, aqui apenas uma dentre as tantas ameaças de morte que este grande líder nacional tem sofrido -- e não percam, no vídeo, um já clássico discurso que recentemente fez contra a direita, trazendo à memória a clássica adjetivação de Evita Perón para os oligarcas argentinos; e aqui, uma resposta ao que a elite racista e a direita acéfala tem insistentemente tentado dele falar, ainda mais quando, junto do MST, se aproxima dos governos progressistas latino-americanos.

E, por fim, aqui e aqui você pode saber o que grandiosa e verdadeiramente faz o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, sob a liderança histórica de Stédile.

Ele, em suma, é um gigante sujeito.

Mas a grande mídia, é claro, prefere indevidamente associá-lo a um idiota qualquer que em algum tosco protesto queimou certos pés de rabanete no interior de um sítio bacana do rincão paulista.

Stédile, desconfio, em breve deverá fechar a minha lista. 
 

Amplidão, nação, sertão sem fim
 
 
 
 

# uma bússola


Não acredito que haverá esta fantasia de "golpe".

A tática do intenso uso do termo, vagando onipresente no discurso panfletário da oposição e da mídia, serve como mera retórica de disputa de poder e de projeto político -- embora, convenhamos, enquanto dura tem colado, acuando Governo, mercado e população. 

Ademais, esta sopa que mistura abestalhados, alienados, a patota do Facebook e a turma dos country clubs não vai conseguir, na base do grito histérico, derrubar a democracia do maior país da América Latina e da sexta maior economia do planeta, tudo em pleno século XXI.

Até porque, como bem disse Ciro Gomes (v. aqui) e Flávio Dino (v. aqui), trata-se de um bando de frouxos e coxinhas.

Mas isso, atenção, isso nada tem a ver com o fato de que uma ampla parcela da população desgosta do que se passa neste Governo.

Governo que, sejamos francos, ainda não se deu conta de que ganhou as eleições, e porque e por quem foi eleito vencedor.

Agora desagradando "gregos", que não veem a devida gestão progressista ser realizada, e "troianos", que babam um moralismo oco, é natural um índice de desaprovação tão elevado.

Índice de desaprovação de Governo, que nada tem a ver com índice de aprovação de "impítiman" ou coisa que o valha, afinal, cada um no seu quadrado lógico e ideológico.

Da parte de lá, da massa limpinha e cheirosa que rumina um abecedário maternal imberbe na fúria e no ódio de classe (v. aqui), esta onda toda é meio esquizofrênica.

Ora, o que a versão 2015 deste Governo faz é (quase) exatamente o que faria um (des)governo deles, de legítima cepa demo-tucana, invariavelmente alicerçado em juros altos, privatizações, superávit e arrocho, fórmulas prontas e malogradas da cartilha neoliberal que destrói a Europa e por aí vai empilhando ruínas.

Da parte de cá, da massa que confiou em mais quatro anos do projeto Lula e Dilma, em mais quatro anos de transformação social, a frustração é sincera e o sentimento é de que este Governo amarela (ou inicia um mimetismo com o azul-e-amarelo da maior sigla oposicionista).

Afinal, sem nem tempo de mais ou menos começar o segundo mandato de Dilma, e salve-se as mesmas ações e políticas que já estão consolidadas na era pós-Lula, o PT parece a ressurreição lúgubre do seu hoje alter-ego, o PSDB.

Nesta toada, o vermelho tanto desbota e se apequena que aquela onda popular responsável pela vitória petista já nem mais consegue enxergá-lo, a morrer na praia.

Ora, as políticas e a gestão de centro-esquerda ficaram nas promessas da campanha de 2014 e, agora, ficam cada vez mais parecidas com os ideais e as ideias que melhor representam as forças reacionárias e da direita.

Arrocho não é política de ajuste econômico.

Não tributar e não controlar o grande capital não é política fiscal.

Descuidar da indústria nacional, das relações de trabalho e da gestão das empresas públicas não são políticas de desenvolvimento.

Não promover reforma agrária, reforma urbana, reforma habitacional e reforma tributária não são políticas sociais.

Flertar com o desmonte da Petrobras e a panaceia dos recursos naturais não são políticas estratégicas.

Permitir a consolidação deste modelo de agências reguladoras não são políticas de Estado (a não ser de um pseudo-Estado regulador ou de um Estado pseudo-regulador, como resumiu o Prof. Avelãs Nunes).

Manter-se refém de grupos midiáticos e cristalizar os latifúndios da comunicação não são políticas que fomentam a democracia e a liberdade de expressão. 

Portanto, abstraia-se do grande projeto "Pátria Educadora" e o que se tem em transformação e o que se tem feito para fugir do receituário (e obituário) da direita?

Ora, não se enfrenta o capital vadio -- bancos, especuladores e oligopólios -- sem ações e políticas construtivistas, que enfrentem destinos e libertem os brasileiros do jugo conservador arquitetado pelo pensamento refratário às mudanças estruturais.

Ora, não se enfrenta a sanha mercantil dos cartéis e dos grandes grupos econômicos sem um Estado forte e com serviços públicos de qualidade, que sirvam de real alternativa (ou solução) aos caros e péssimos serviços privados e privatizados e como chave para reorganizar um novo ciclo de desenvolvimento.

Ora, não se enfrenta um ranço feudal, patriarcal e conservador sem alternativas, sem experimentalismo, sem imaginação e sem transformação institucional, radical, capaz de empoderar técnica  e politicamente a massa e de redesenhar as relações público-privadas.

Ora, não se enfrentam quinhentos anos de periferia, de plutocracia e de preconceitos sem um grande projeto nacional que abrace o passado, dê asas para o presente e concretize um novo futuro para a nossa gente.

E esta gravíssima omissão do Governo, capitaneado pelo maior partido político do país que há doze anos está no poder, não pode mais ser admitida.

O que não significa, contudo, o réquiem do PT.

Afinal, o que acabou é este modelo de desenvolvimento, outrora exitoso, com base em commodities e consumo, em planos sôfregos para o chão e cômodos para o teto.

O que acabou é este jogo político ímprobo e infértil de barganhas e conchavos espúrios que afoga fingindo afagar.

O que acabou é o tempo de se cozinhar em banho-maria toda a vitalidade brasileira que exige chama e pressa.

O risco, entretanto, é não se querer enxergar isso.

E assim acabar com uma grande parcela da paciência de 60 milhões de eleitores que em outubro continuaram querendo um Brasil remando pra frente.

Pra frente e à esquerda.

Eis, aqui, o norte que o PT parece ter perdido, deixando à deriva os sonhos de meio Brasil.

É a hora, enfim, daquela estrela servir novamente de guia.

Antes, antes que tudo enuble -- e seja tarde.




terça-feira, 15 de setembro de 2015

# quem volta?



Ainda não assisti, mas as críticas ao filme "Que Horas Ela Volta?" são excelentes, desde aquelas nativas até aquelas de fora, que passam a conhecer um ranço ainda quente da nossa recente história escravocrata e a ainda atual relação casa-grande e senzala da sociedade brasileira.

Claro que a versão esquizofrênica dada pela grande mídia é mero faz de conta, uma análise alienada da realidade e, pior, avessa ao que o filme propõe.

Afinal, nas palavras da Diretora, a obra "trata das regras de convivência sociais no âmbito doméstico. Essas regras separatistas, nós sabemos, não são faladas, mas estão aí. Quando eu criei a Jéssica [a filha da empregada doméstica que visita a mãe em São Paulo para prestar vestibular] tão segura de si, não estava pensando em política, mas em fugir de um clichê dramatúrgico da coitadinha da filha da empregada. Mas, quando o filme ficou pronto, todos reconheceram que ele estava falando de um Brasil pós-Lula. E eu concordei. Uma personagem como a Jéssica não seria verossímil antes de seu Governo. Acho que, entre erros e acertos, houve uma melhora da autoestima do povo brasileiro. E a PEC das empregadas, sem dúvida, tem a ver com o final do filme. Acho que foi um grande passo para tirar o estigma do escravagismo e tornar a empregada doméstica uma profissional como qualquer outra.'" (v. aqui)
 
Portanto, não se trata de um conto de fadas cor-de-rosa, típico das novelas platinadas que invadem os lares brasileiros -- é, justamente, ao contrário.

E isso me lembrou de um recente fato que aqui trouxemos.

Tratava de uma matéria do "O Globo", de março deste ano, sobre uma empresa que presta serviços de consultoria para o "uso" de empregadas domésticas, criando um curso para melhor domesticar as serviçais dos brancos lares (v. aqui).

Sim, é mais uma espécie deste negócio horrendo chamado "coaching", no caso pret-à-porter aos desejos felinos da "patroas".

Na reportagem, outra amostra de ser vivo que bem tipifica o perfil daqueles que "são contra tudo isso que está aí" (v. aqui e aqui) e que perambula nas ruas com a sua cara-de-pau pintada e a irretocável fantasia de "brasileiro".

Eis a entrevista:
 
----- Por que você criou este curso?
Porque eu passei um ano e meio trabalhando em casa e quase enlouqueci com as empregadas.

----- Como assim?
Senti que elas perderam a noção do limite. Teve uma que eu pedi para chegar às 7h30 e botar a mesa do café. Ela disse para mim:  ‘Eu não! Imagina se vou botar mesa de café para madame!’. Essa falta de limite foi muito lembrada também na pesquisa que fiz.
 
----- O Brasil é um do únicos países do mundo em que ainda é comum ter uma empregada doméstica sempre por perto para te servir, que dorme num quartinho dos fundos…
Sim, tenho uma amiga que mora fora e fica chocada com isso. Mas é muito cultural, né? As condições no Brasil não favorecem a vida sem as empregadas, no exterior você vê mil eletrodomésticos que facilitam a vida, comidas pré-prontas. Aqui não tem muito isso. 
 
----- Quais as falhas mais comuns citadas na pesquisa?
Alguns exemplos: empregada que pendura o pano de prato no ombro; a que fala muito ao celular e depois diz que não deu tempo de passar toda a roupa; a que se recusa a usar touca e uniforme; e as que ficam falando das tragédias do bairro onde moram. Muitas têm vergonha de usar uniforme de doméstica na rua. Eu não entendo isso. É um símbolo de status. As empregadas de novela usam. A roupa mostra que ela tem um emprego bacana, que a patroa se preocupa com o seu visual.
 

Uma gente sem noção e que não (se) enxerga.
 
 
 
 

sábado, 12 de setembro de 2015

# habeas corpus: o fim de um tabu



Não há mais qualquer justificativa razoável para que se continue a criminalizar e proibir substâncias como, agora, a maconha.

Deixá-las às sombras e à escuridão, rotineiramente fabricadas, trazidas e montada pelos esgotos das cidades, habitualmente distribuída e comercializada por ratos, corvos e bandidos, e invariavelmente consumida a doses industriais em todas as festas, campings e circos da Oropa, França & Bahia, é de uma insensatez sem tamanho.

Os estudos, as pesquisas, os dados, os dossiês, os astros, as bulas, os espelhos, os evangelhos, os orixás, tudo aponta para a irracionalidade da sua proibição.

Como aquiaqui, aqui e aqui já enfatizamos, há muita base e respaldo científico (interdisciplinar e multinacional) para afirmar que, jamais desprezando os seus múltiplos malefícios, a maconha não pode receber um tratamento diferente daquele dispensado às outras maiores "drogas sociais" (álcool e cigarro), ainda mais prejudiciais e viciogênicas – eis aqui, um documentário definitivo deste tema.

Ora, não são poucos os estudos científicos das Ciências Sociais que concluem: a criminalidade nos nossos morros e periferias exsurgem, em sua quase unanimidade, pela cotidiana guerra a envolver "chefões", a "polícia" e a "comunidade", a revelar o fascínio e a submissão que esta tem diante dos primeiros  haja vista as recompensas e a pressão que recebem , eis, pois, a difícil equação e estéril solução para que a segunda (ou, diga-se, o "Estado") não se subjugue à corrupção dos primeiros e não se desfaleça diante do medo da segunda.

Ora, não são poucos os estudos científicos da Economia que concluem: um mercado fechado, com oferta escassa e demanda latente, com o mais absoluto dos entraves mercantis a "proibição" na sua comercialização , traz como consequências lógicas a supervalorização do produto, a superacumulação de lucros, a superestruturação de negócios paralelos (e, claro, ilegais) e a superexploração da mão-de-obra empregada (leia-se, aqui, a disputada empregabilidade em setores ilícitos e imorais).

Ora, não são poucos os estudos científicos da Medicina que concluem: a maconha é muito menos maléfica  porquanto causa menos dependência e afeta com muito menos dano o nosso organismo  do que o cigarro (aquele com nicotina e uma centena de componentes químicos) e o álcool (aquele responsável por um número avassalador de mortes, em especial no trânsito); e mais, atestam o seu uso terapêutico para diversas doenças, maiormente àquelas relacionadas ao sistema nervoso.
 
Ora, não são poucos os estudos da Psicologia que concluem: não há relação absoluta entre o uso da maconha e o uso subsequente, p. ex., da cocaína ou do crack, vez que uma ínfima parte dos usuários da erva são seduzidos e caminham para a dependência de drogas pesadas  ou seja, é falsa a "lógica" de ser uma droga de passagem; ademais, os estudos mostram que o acesso e a relação do jovem com o "proibido" estimula o contato com o mundo da criminalidade e da perversão, vez que não há meios sociais de obtê-la senão pelos meios obscuros e (mais) perigosos.

Ora, não são poucos os estudos do Direito que concluem: o direito fundamental à intimidade e à privacidade e a autodeterminação do indivíduo são espaços imune à interferência estatal  desde que não ofenda patrimônio jurídico alheio , o qual deve abdicar-se da imposição de padrões e de moralismos que não violam valores sócio-jurídicos; ademais, há flagrante ofensa ao princípio da proporcionalidade (adequação e necessidade) e, ainda, flagrante ilegitimidade na proibição da maconha, nos moldes de hoje, a partir do instante em que a sua ofensividade atine, concretamente, apenas à saúde do próprio indivíduo, não havendo lesividade a bem jurídico de terceiro.

Ora, não são poucos os estudos da Ciência Política que concluem: a questão não é de segurança pública, mas, sim, matéria de políticas sociais ligadas à saúde e à educação. Combater a droga, na forma de guerra civil, canabalizada  e malfadada, é não-política, inútil e, pior, contraproducente, que não mitiga um claro poder paralelo havido nas periferias, desestabilizando o Estado.
 
Ora, a História mostra que não apenas os padrões comportamentais da sociedade levam para o reconhecimento de costumes morais ou não, legais ou não, mas, principalmente, os interesses das classes dominantes do Estado, que veem ser mais ou menos interessante admitir ou não certas condutas e certos fatos; logo, e por isso, as bebidas alcóolicas e o cigarro (aquele com nicotina, benzeno, fósforo, naftalina, amônia etc.) são  e quase sempre foram  permitidas em boa parte do mundo, enquanto a maconha é criminalizada e vista como algo satânico.

A questão, pois, parece se sustentar em contas mal feitas acerca dos custos públicos da medida – e de um erro crasso na solução desta public choice, que trata o problema da maconha como questão de polícia e segurança pública, e não de saúde pública; ou, então, em aspectos metafísicos, meio dogmáticos, meio carola, tese reducionista de uma turma puritana que acha o baseado simplesmente uma coisa do capeta.

E é, se continuar a ser monopólio do crime organizado, a causar milhares de mortes todos os anos e a custar milhões em aparato e corrupção policialescos.

Mas acredito no bom senso e no progresso da Política e do Direito, com a revisão e a transformação de ideias e ideais.

 
Por exemplo, a liberação controlada, selada, carimbada, registrada e fiscalizada do cultivo e distribuição da maconha, como se experimenta no Uruguai – e de modo ainda mais rigoroso do que acontece com fármacos, destilados e tabaco – é uma amostra do que é óbvio: a guerra contra o narcotráfico é uma estupidez.
 
E a descriminalização do seu consumo pessoal que hoje o STF parece decidir caminha no mesmo sentido: a fórmula da repressão, meus caros, está com os dias contados.
 
 
Na Suprema Corte, um dos xis do problema.



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

# a derrubada de uma torre



Hoje ainda se fala muito da derrubada das torres gêmeas.

Entretanto, o que talvez mais se deva lamentar é aquele 11 de setembro de 1973, quando foi derrubada uma outra (e muito maior) "torre".

Nesta data, a direita chilena, em conluio com o Governo dos EUA e o apoio das ditaduras  sul-americanas, deu o Golpe e acabou com a democracia no Chile.

E esta tropa toda invadiu o Palácio de La Moneda, assassinou o presidente eleito Salvador Allende e acabou com um dos mais democraticamente revolucionários mandatos populares já existentes no mundo, no qual se desenvolvia um outro modelo, assente numa imaginação institucional alternativa, com raízes socialistas de Estado e de gestão pública e que repensava, para transformar, as relações de capital e de trabalho.

Em suma, o Chile, pelas mãos de Allende e o imaginário coletivo do povo, edificava um socialismo fundado em paz, democracia, pluralismo e liberdade, como assim descreveu Darcy Ribeiro, em carta publicada após o massacre golpista (v. aqui).

À sombra da mangueira imortal já nos pronunciamos sobre o fato, um dos mais tristes e lastimosos para todos aqueles que creem numa outra sociedade: justa, livre, igualitária e fraterna (v. aqui e aqui).

Ouçam, aqui, o último e arrepiante pronunciamento de Allende -- percebam a voz, a  serena, forte e inabalável voz de um dos maiores líderes latino-americanos --, feito ao vivo à "Rádio Magallanes" da capital Santiago, concomitante aos bombardeios e minutos antes da invasão como desfecho do golpe.

É, simplesmente, um dos maiores discursos da História.


A derrubada de uma Torre, tijolo a tijolo num desenho trágico.




quarta-feira, 9 de setembro de 2015

# pelas barbas do profeta



Eis, hoje, outro claro sinal de que estamos mesmo num fim de feira.

Não, não... Não sejamos cruéis com os feirantes.

E tampouco com os palhaços, os porcos e as putas  por isso, também não tratemos de circo, lama ou zonas.

E tratemos de dar o certo nome aos bois.

Não, não, com os bois também é sacanagem.

Enfim, sejamos pragmáticos: que diabo é isso de, depois de tudo, ainda se dar o mínimo crédito aos tais "operadores do mercado", comumente exemplares no papel de Caronte, e às tais "agências de risco", típicas sucursais do inferno?

Ora, esta malta toda, por trás das suas "agências", a toda hora vem ao mercado (?) para dizer que está tudo ruim, que o cenário é péssimo, que o futuro é de trevas e que irá reduzir a qualificação técnica (o chamado "grau de investimento") do nosso país, afinal, "há piora sistemática dos indicadores de política fiscal", professam.

Sim, são os portadores das vozes celestiais que, ao som de harpas (ou, das profundezas do Malebolge,  sob o toque do tridente ao chão), sentenciam: "abaixamos o grau de investimento deste país".

Este bando discursa com seus ares sérios, doutorais e proféticos, como se o oráculo do terceiro milênio – e, por óbvias razões político-eleitorais e recônditos desejos financeiros, se dá valor a isso, a esse engodo. 

Nesta roda-viva perversa, o vadio capital financeiro divulga as suas teses como verdade, as suas práticas como boas e as suas vontades como técnicas – veja aqui, a propósito, no que se transforma todo este tecnicismo.


Ao cabo, a grande mídia propaga estes ensinamentos com sinal divino e a caravana passa.

tchurma, claro, prostra-se diante das sábias ideias noticiadas, ouvidas como um mantra e provocadoras dos mais plurais orgasmos.

Senhores, meus caros senhores, estas agências e estes bancos, com seus técnicos de araque (e de mercado), não têm nenhuma credibilidade, não têm qualquer reputação e nem qualquer esteio e envergadura morais para nada, em especial depois da crise de 2008.

Entes privados que, só servindo a interesses privados, falando e fazendo apenas o que convém a si e aos seus privados clientes, foram co-responsáveis pelo colapso econômico global que quebrou pessoas e países "Inside Job", documentário premiadíssimo, revela e explica tudo (v. aqui).

Ora, são elas – e os seus agentes – que deveriam ser rebaixadas e fulminadas.

São elas que deveriam ser extintas, condenadas à injeção letal pelas tantas mortes causadas mundo afora – ou, como as bruxas de outrora, queimadas em praça pública.

Como é que se pode acreditar e se dar o mínimo valor a este pessoal que, anos e anos a fio, bancou com notas máximas (e fantasiosas) tantas entidades públicas e privadas que construíram pacotes de vento (créditos subprime) para vender no mercado na forma de "derivativos", um dos mais obscuros objetos do mundo, provocando o (desejado) caos?

Lembremos: em agosto de 2008, pouco antes do caos, estas mesmas agências e bancos de agora – a Standart & Poors (S&P), a Moddy´s e o Goldman Sachs – atribuíram ao Banco Lehman Brothers  sim, ele mesmo, que seis meses depois celebrou a maior falência da história dos bancos, levando meio mundo consigo, como um tsunami  um "triplo A" (AAA), a nota máxima de credibilidade.

E, agora (e sempre), elas ressurgem para sorrateiramente especular e dizer – com qual credibilidade? – que aumentou o endividamento da economia, que alteraram os paradigmas contábil-financeiros brasileiros, que mudou o nosso status de player internacional e que pioraram os tais "indicadores"... e, mais, ousam propor para o comando da Petrobras um dos seus pares e um virtual rebaixamento da economia brasileira.

Ora, em que diferem os canalhas que ocupavam as diretorias da maior empresa brasileira dos lobos bandidos que regem a roleta do mercado financeiro (v. aqui)?

Nada, meus amigos, nada.

Afinal, acreditem... 

Esta gente, por meio da arquitetura financeira diabólica que participa do estelionato coletivo que arrebenta o mundo, exala enxofre.


 Sexo, mentiras e videotape



(publicado originalmente em maio de 2014)