quarta-feira, 29 de abril de 2015

# centro cívico na democracia

 
 
Esta nossa “democracia” provoca coisas absolutamente incompressíveis.
 
Veja-se o caso deste Beto Richa.
 
Que história e que trajetória profissional, pública, política ou social ele tem para merecer o cargo que ocupa? Alguém lembra da sua atuação como parlamentar? E na Prefeitura de Curitiba, o que fez além de gastar milhões e milhões em narcisistas campanhas publicitárias, surfando na ultrapassada onda lernista de cidade-modelo? E o que falar do seu primeiro não-mandato de governador?
 
Ora, reeleito às custas de muita grana, de muito “apoio” de deputados em seus redutos eleitorais interioranos – afinal, foi por causa de verbas e cargos que a maioria dos canalhas do PMDB no Parlamento, cheia de votos no interior do Estado, apoiou e reelegeu Beto – e de muita alienação da massa conservadora curitibana, o sujeito a cada dia que passa consolida-se como um traste político e um infame administrador.
 
Dentre outras coisa, Beto Richa lembra muito aquela célebre personagem das crônicas de Nélson Rodrigues, a "Grã-Fina das Narinas de Cadáver", que, em pleno estádio, costumava olhar para o seu nobre acompanhante da hora e perguntar, sem titubear: “Hein, quem é a bola?”.
 
Ainda, parte da ópera bufa da reeleição reside na sua casca de bom-moço, de modos etiquetáveis, de limpinho-aromatizado-com-polo-de-jacaré-e-gel e de politicamente correto, cuja figura ainda se sustenta em relativa escala Paraná (e Curitiba, claro) adentro – mas que, evidentemente, não deveria ultrapassar os limites do Graciosa Country Clube ou do Iate Clube de Caiobá.
 
Depois, as “ideias” (sic) e a “gestão” (sic) de Beto escancara os efeitos ultranocivos das ladainhas neoliberais e de xoques de jestão propagadas pela turma demo-tucana, tudo e sempre em nome da mão divinal do mercado, do não-Estado e do vale-tudo nas relações público-privadas.
 
Resultado: quebrou o Paraná.
 
Mas isso tudo ainda não era suficiente.
 
E agora Beto e a sua equipe de pulhas, picaretas e piás de prédio deram para surrar e quebrar centenas de professores e servidores públicos, num dos episódios mais repugnantes que o Centro Cívico da capital paranaense presenciou.

Cenas de guerra, de um massacre absurdo promovido por um governo sem pés e, muito menos cabeças -- por sinal, registre-se: o "secretário" de Educação de Beto Richa era um agente do mercado historicamente envolvido nas privatizações das empresas de telecom...
 
Bem, jamais se esperou alguma coisa desta gente, mas confesso que se poderia esperar qualquer coisa, menos o que foi visto hoje.

Beto Richa, assim, se já podia ser considerado o pior governador que o Paraná já teve, depois desta quarta-feira também será lembrado como um dos mais indignos da nossa história.
 
A propósito, já pensaram o que se mostraria e falaria, Brasil afora, se o governo paranaense fosse do PT ou de alguém pouco afeito às colunas sociais?


 

# minha segunda casaca


Há muito tempo estou para escrever sobre eles.

Talvez desde quando virei a casaca, nos idos de 2002/2003.

Acompanhando religiosamente o meu Atlético na Baixada, vez por outra usava um boné preto do meu time de basquete, o Boston Celtics, que desde a adolescência acompanhava e torcia, ainda fruto do que o espetacular branquelo Larry Bird fazia pelas quadras nos anos 80 e eu, iniciante, tentava imitar.

Entretanto, certa feita, estava no estádio com um primo que, lá pelas tantas me lança: “Pô, está ridículo você com este boné deste time verde... não dá pra usar... isso lembra muito os Ervilhas...”.

Na hora não dei importância.

Mas, chegando em casa, ao abrir a minha gaveta para guardar o boné que usara, eis que lá vi, com outros olhos, um mar de outros tantos, em cores verde, verde-e-branco, preto-e-verde...

Enfim, era mesmo muito verde para alguém com o sangue rubro-negro se permitir usar.

E pensei: isto não está legal.

E como nem o próprio Bird já não era Boston – afinal, senão quando jogador, ele sempre foi Indiana, e de Indiana --, vi que deveria mudar.

Foi quando me apresentaram Gregg Popovich, Tim Duncan, Manu Ginobili, Tony Parker e o jogo do San Antonio Spurs.

E desde então mudei-me para as cores preto-e-cinza do time texano.

E desde então o que tenho visto é um deslumbramento para quem gosta e entende o basquetebol.

E hoje posso afirmar, sem mais dúvidas, que o San Antonio daquele técnico (Pop) e daquele que constitui o trio mais vencedor da história da NBA (Tim, Manu e Tony) é  ou foi  o maior time de basquete de todos os tempos.

Com uma média de 36 anos e na fase final das suas carreiras, o trio – hoje junto do ótimo Kawhy Leonard, no alto dos seus 23 anos…, e de Green, Diaw, Mills, Splitter e Belinelli – continua a jogar um basquete de encher os olhos, de por vezes comover os mais atentos e de mostrar que a maioria dos adversários não passa de um bando que enterra.

Ora, nesta onda toda de triunfos midiáticos, individualismos exibicionistas e vale-tudo mercantil, também na NBA temos muito clara a divisão de mundos.

De um lado a turma do playstation, do shopping center, do sea world, dos jogadores-margarina, tudo meio de plástico como se fabricado em alguma clínica estética de Coral Gables.

Do outro, espécies de boinas verdes, de legionários, que jogam basquete, que jogam e pensam, que abusam da estratégia, da técnica e da tática, sem piromania, sem pirotecnia e sem onda, quase soviético mas globalmente made in USA, comme il faut

Sem firulas, sem flashs, sem fan zones, eles afundam os modos dos garotos de circo vendidos pela mídia como frutos da tese única do jogo e do comportamento -- sim, porque o jeito e a forma do San Antonio não é vendável, pois secos de apelos e lantejoulas tão queridos pelo showbusiness da sociedade de consumo.

Ora, nos dias de hoje, o que os Spurs insistem em fazer, em todos os seus fundamentos, regras e lógicas, é “basquetebol”, o resto é streetball

Os Spurs jogam o jogo socializante, pensado, treinado e estratégico – e não um repetitivo, forçado, afortunado e individualizado mano-a-mano de méritos questionáveis.

Os Spurs põem em prática o melhor da globalização, que é reunir grandes valores mundo afora obedecendo-se às suas origens. E por isso nele se vê estadunidenses, franceses, argentino, brasileiro, australiano, neozelandês e italiano oferecendo o melhor do que dispõem, sem desprezar as suas idiossincrasias nativas, mas também sem permitir rebeldias gratuitas contra o sistema de jogo desenvolvido pelo timoneiro Popovich.

Os Spurs resgatam o espírito do bola ao cesto: o coletivismo belo e coreográfico, desenhado como pinturas renascentistas, modelado em movimentos clássicos de um nove milímetros magistral e talhado à mão.

E reproduzem ao máximo a velha escola do legítimo basquetebol.

O jogo que acaba de terminar, o quinto dos playoffs contra o bom lado B de Los Angeles, foi apenas mais uma prova disso tudo.

E uma das últimas provas, afinal, muito provavelmente estes estejam sendo os últimos jogos desta turma, o trio se desmanchando e o fim de uma era.

Agora, enfim, o Boston que me perdoe, mas aquele verde de outrora hoje amadureceu e está bem melhor.

E já me sinto San Antonio Spurs desde criancinha.

Só acho, claro, que ainda lhe falta um certo vermelho…




terça-feira, 28 de abril de 2015

# que ser sou eu?

 
 
O que é a vida?
 
Abujamra se foi, e com ele se vai uma das poucas pessoas que estavam na televisão para refletir e fazer pensar.
 
Não falarei do que fez com Eurípedes, Shakeapeare e Brecht nos teatros do Brasil afora.
 
Mas, sim, do que realizava no seu excepcional programa "Provocações", que circulava pelas tv públicas brasileiras há quinze anos.
 
Sem espaço na grande mídia – motivo de orgulho – e sem paciência para redes sociais – outro orgulho –, este seu programa de entrevistas era, como o próprio intelectual se referia, longe de ser uma janela para o mundo, mas apenas “um periscópio sobre o oceano do social”.
 
Intrigante, angustiado, poético, cético e utópico ao mesmo tempo, o eterno Ravengar – infelizmente só assim foi apresentado ao grande público – era um dos melhores provocadores.
 
Filósofo de formação (e alma), não permitia frase-feitas em seu talk-show, não consentia com a ciranda falsa de quem quer holofotes e não se rendia ao bom-mocismo do politicamente correto.
 
Ao mesmo tempo, contudo, nunca expunha ou perquiria por simples agitação ou vaidade pessoal, do pior daqueles tipos que querem a polêmica por si, burra e rasa, ou que pensam ter o rei na barriga enquanto nem sequer ainda sabem quem eram si próprios.
 
Quem à sua frente sentava, sabia que não se estava ali de brincadeira. E por isso a conversa fluía séria e trágica, cômica e lúdica, direta e verdadeira, sem purpurina ou máscaras.
 
No início, suas entrevistas se encerravam com a oportunidade aos entrevistados “enforcarem-se nas cordas da liberdade”, deixando-lhes dizer o que bem entendessem sobre qualquer coisa, fixando-se numa câmera alternativa.
 
Ultimamente, mudou.
 
E passou a encerrar o programa com uma pergunta bastante simples ao entrevistado: “O que é a vida?”.
 
A pessoa titubeava, às vezes pensava um pouco, mas respondia, meio com chavões, meio sem sentido, meio até certa de si.
 
E ele tornava a perguntar, pausadamente: “O que é... a vida?”
 
A pessoa, confusa, respondia mais ou menos, meio diferente de antes, meio em dúvida.
 
E ele, de novo, ainda mais pausado e ainda mais impactante: “O que... é... a... vida?”.
 
A pessoa, se sagaz fosse, percebia então onde ele finalmente queria chegar.
 
E praticamente se calava, recebendo do provocador um grande abraço.
 
Salve, Abujamra!
 
 
 
 

terça-feira, 14 de abril de 2015

# quando a alma não se apequena



Com a confirmação do nome do Prof. Dr. Luiz Edson Fachin para o STF -- a quarta baita indicação seguida deste Governo Dilma, depois de Mangabeira Unger (Min. Assuntos Estratégicos), Jessé Souza (IPEA) e Renato Janine (Min. Educação) --, reproduzo um texto publicado em março de 2014 (v. aqui) que ilustra um pouco este grande homem e jurista paranaense.

# quando a alma não se apequena

Há momentos na vida em que se aprende como nunca.

São lições de gratidão, de dedicação, de amizade, de humildade e de sabedoria que em nós se perenizam.
 
E esta noite de terça-feira -- convidado para estar na "Academia Brasileira de Letras Jurídicas", em sessão solene para a posse do paranaense Prof. Luiz Edson Fachin como mais novo "acadêmico" (cadeira nº 10, de Rui Barbosa) e para as condecorações de membro honorário ao português Prof. António Avelãs Nunes -- foi um desses momentos, tamanha a grandeza dos discursos por ambos proferidos na cerimônia.
 
Prof. Avelãs, da Universidade de Coimbra, é uma das maiores vozes de uma outra Europa,  esvaziada do pensamento crítico, social e humano. É um dos maiores juristas portugueses, intelecto eminente da Economia Política e um trilhar político-científico que faz invejar a sua nacionalidade (e me honrar com sua amizade).
 
Prof. Fachin, da Universidade Federal do Paraná, é um dos grandes orgulhos do meu Estado, árido de expoentes nacionais. É um dos maiores juristas pátrios, mente brilhante do novo Direito Civil e uma trajetória acadêmico-intelectual que faz galhardear a conterraneidade (e que tive o prazer de conhecer).
 
Mas não são estes atributos o que mais importa, como aqui já se poderia confirmar.
 
Títulos, prêmios, cátedras, livros, tudo fica à margem de quem são, do que fazem e de como fazem.
 
Sim, porque estes dois senhores, mais do que singulares pensadores do Direito, são grandes homens, plurais e que idealizam o coletivo.
 
Hoje, vendo-lhes nas suas narrativas apaixonadas  daquelas que vêm da pura alma do bem-fazer e do bem-viver e de quem têm a ética como prumo e horizonte , recrudesce o nosso sentimento de que a vida é simples e vale simplesmente por isso.
 
Não por acaso, ao trazerem da memória o valor familiar e, principalmente, o papel dos respectivos pais em suas histórias e em suas formações, as palavras vieram esculpidas em lágrimas, absolutamente sinceras, caídas com o orgulho de quem ali chegou de pé e pelas meritórias mãos do afago materno e do suor paterno.
 
Vê-los se declararem às ciências humanas, à humanidade e à família foi daquelas provas de que é no navegar destes homens que o mundo deve merecer seguir.
 
Um navegar simples, cuja bússola é o amor.



 

# a arte de conviver sem se curvar



O reencontro entre Cuba e EUA, afora reforçar o fato de que o Papa Francisco -- arquiteto moral da reunião -- caminha para ser o mais importante líder religioso da história moderna, revela que "diplomacia" pode muito bem conviver com "soberania".

Cuba, com a medida, dá sinceras mostras de que quer -- porque precisa -- avançar e se adaptar à realidade do mundo 3.0, aos poucos reconhecendo que os cinquenta anos que se passaram desde a revolução tiveram, nesta dinâmica global, o efeito de uma "era", cujo presente mostra um passado insustentável diante do cotidiano real e das necessidades virtuais dos seus mais ou menos jovens, que não querem só comida, diversão e arte (v. aqui).

A Ilha, pois, sabe que para sustentar o seu modelo de Estado precisa adequar-se à tese do revolucionário chinês Deng Xiaoping, na retomada pós-Mao: "não importa a cor do gato, desde que cace o rato". Todavia, diante da sua história de audácia, resistência e bravura, Cuba certamente não haverá de se curvar a ponto de anular os seus tão caros valores nacionais e humanos.

Os Estados Unidos -- ou seriam apenas os democratas? --, muitos anos depois de convenientemente aceitarem China e Vietnan, já não veem mais sentido em continuar a desrespeitar Cuba e a sua autodeterminação popular, já não veem mais a mínima lógica em inventar uma cortina que separa os maus barbudos e os bons yankees e já não veem mais como agradar a imensa população hispânica que preenche os seus Estados fora de Miami.

Além disso, já veem os bons dividendos mercantis que o vizinho caribenho poderá lhe trazer. 

Mas, o motivo dos motivos, temem que os russos novamente cheguem primeiro, haja vista a intermitente "guerra fria" entre Tio Sam e Tio Putin e que hoje perigosamente se reaviva.

Em suma, uniram o externamente agradável ao internamente útil.

Entretanto, devem agora finalmente reconhecer a excrescência que é manter o abusivo e indecente embargo econômico -- um "ato de guerra", confessou a ONU --, que vai para muito além da mera vedação ao comércio bilateral -- algo que, sinceramente, até não se contestaria --, na qual se excetua apenas uma pequena lista de itens agrícolas e farmacêuticos.

O problema do negócio é que, como se vê aqui e aqui, o embargo alcança indiretamente o mundo inteiro que comercializa com Cuba.

Ou seja, para os EUA a regra real desse embargo é: "se você fizer negócios com Cuba, não fará mais comigo".

Sim, funciona tipo birra de colégio.

Porém, a jurássica mídia, claro, não deixa ninguém refletir o assunto -- e, muito menos, pensar sobre alternativas institucionais, sobre como se constroem sistemas de saúde e educação com um PIB ridículo (v. aqui e aqui), sobre como se obtêm índices de violência em níveis escandinavos  e, claro, sobre o grande estrago que faz o tal embargo.

Na real, está mídia apenas dá a sua imutável e jocosa versão para insistir na caricatura do negócio, de modo a bem entreter o seu público e os seus interesses, que como chapeuzinhos azuis gritam pelas estradas afora do Brasil coisas como "Vá pra Cuba!" ou pedem socorro diante de uma invasão "bolivariana".

Enfim, em que pese a questão principal não ter sido resolvida -- a manutenção do embargo econômico, repita-se --, já se pode dizer que a Política venceu.

E as economias nacionais -- e, evidentemente, a economia mais fraca -- poderão aos poucos lograr os frutos deste arranjo.

Com os avanços que a abertura econômica e a livre comercialização global proporcionarão, o Estado cubano vai se permitir atualizar-se no tempo e no espaço, o que não significa abrir mãos de valores e de ideias (v. aqui).

Afinal, valores e ideias baseadas na dignidade humana e na igualdade social devem ser "atemporais" e "universais".

E, ao menos nisso, Cuba ainda é uma viva fonte de lições.



 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

# coisas di vomitar

 

Eis que se nota a chegada deste negócio horrendo chamado "Comida di Buteco" (v. aqui, nos mínimos detalhes).

No império do consumo, é angustiante ver o quanto o sistema (capitalismo) se reinventa para criar o "nada", a provocar um consumo vazio em que muito se vende e muito se lucra à custa da idiotização de tudo e de todos, descaracterizando-se lugares e tradições e travestindo tudo no tom pastel da pasteurização geral.
 
E nela, uma arrogância que por tantos cantos do cotidiano provoca-nos as mais coceguentas urticárias.
 
E, veja-se, não me refiro a um ou outro caso em que fosse até natural encontrar vestígios e raspas de soberba comportamental, como na Academia e nas Artes, onde, afinal, erudição e eructação costumam não se confundir.

Falemos, pois, do ambiente, do dia a dia, do jeito da massa bem-cheirosa -- cujos atributos em regra encolhem-se no menor bolso graxo da roupa de grife -- se comportar.

Daquelas situações em que o arrogante é um alienado, um débil social, um daqueles que acha feio o que não é espelho ou que acha insustentável a presença do ser que não seja um ser dos seus.

Outrora já lembramos do que acontece na relação dessas pessoas com vinhos e cervejas (v. aqui), com seus hálitos e hábitos (v. aqui) e com os tratamentos que se dão (v. aqui).

Agora tratemos deste mesmo público, que roda pelas mais infaustas rodas, e a sua relação com a comida.

Sim, se não bastasse a pantafaçuda sopa de espumas, torres, gotas, granulados, desenhos e combinações minúsculas de troços mais ou menos óbvios que ostentam em pratos fotogênicos para a compartilhada fotogenia da rede...

E se não bastasse o inclassificável tripúdio sobre a gourmetização e a glamourização do mundo animal, vegetal, líquido, gasoso e mineral, a etiquetar tudo que se ingere com purpurinas e lantejoulas que muito bem euforizavam os índios nos escambos com os nossos descobridores...

E, ainda, se não bastasse as fortunas depositadas nos caixas de refeitórios doze estrelas, a fim de justificar a gulosa luxúria como uma legítima ação da ordem agostiniana do livre arbítrio...

Eis que os últimos arrotos, imberbes num misto de petulância com sabujice de dar dó, estão no sopro de "reinventar" os tira-gostos de bar, na forma deste concurso encampado pela vênus platinada, e, também, a velha comida de rua, que doravante chamam -- percebam o ar descolado -- "food truck".

Impávidos e colossos, empinam os narizes imperiais para comentar, pelas colunas de jornais ou por seus espaços nas redes sociais, que a onda agora é valorizar esta tal "gastronomia".

Modernos, chiques e na última moda, socorrem-se à avalanche de falsas autoridades que surgem para firmar e ratificar a boa-venturança desta cozinha e desta atitude, só digna dos bons trópicos.

Arrogam-se, agora, como bandeirantes dos bares e das ruas.

Melhor que ficassem em seus clubes privés ou com seus restaurantes estrelados.

Afinal, eles se merecem.



 

sábado, 4 de abril de 2015

# sábado de aleluia


A missa da Vigília Pascal é o centro e o grande “sacramento” da vida cristã.

Batismo e Eucaristia – centros desta liturgia – tornam presentes e atuais os acontecimentos celebrados, comunicando-os a vida nova do Senhor Ressuscitado.

E dos ritos da vida, acompanhar a cada ano esta Santa celebração consiste em um dos momentos mais significativos e de mais profundo simbolismo para nós cristãos. 

Nesta noite, somos iluminados e atingidos pela luz de Cristo ressuscitado (“Liturgia da Luz”), fazemos memória das ações maravilhosas de Deus na história (“Liturgia da Palavra”), renovamos nossa consagração batismal (“Liturgia da Água”) e, por fim, celebramos a Santa Páscoa (“Liturgia Eucarística”). 

A Igreja escura, o altar vazio, os fiéis em silêncio, as velas todas apagadas em respeito ao Senhor morto... e logo se inicia a Santa Missa, e depois das primeiras antífonas, o primeiro momento inspirador da noite: um breve lucernário, em que se acende o Círio Pascal e, com o seu fogo, as velas carregadas por cada um de nós, sinalizando o renascimento de Jesus Cristo.

Depois, vem a Igreja a meditar nas maravilhas que o Senhor, desde o princípio dos tempos, realizou em favor do seu povo confiante na sua palavra e na sua promessa, até o momento em que é convidada para a mesa que o Senhor, com a sua morte e ressurreição, preparou para nós, fruto de todo o seu caminho de entrega e misericórdia.

E já no Evangelho da ressurreição de Jesus Cristo, devemos atenção à Galileia, o lugar da primeira chamada e onde tudo começara – Partam para a Galileia. Lá Me verão” (Mt 28, 10). 

Afinal, como anunciou o Papa Francisco na sua Homilia da Missa de hoje, "é preciso voltar à Galileia, para ver Jesus ressuscitado e para se tornar testemunha da sua ressurreição".

Ora, voltar à Galileia significa reler tudo a partir da cruz e da vitória: a pregação, os milagres, a nova comunidade, os entusiasmos e as deserções, até a traição. Reler tudo, a partir deste supremo ato de amor à vida e à nós, a partir do fim, que é um renovado início. 

Não é voltar atrás, não é nostalgia. É voltar ao genuíno ato de amor, para receber o fogo que Jesus acendeu no mundo e levá-lo a todos até aos confins da Terra: horizonte do Ressuscitado, horizonte da Igreja, horizonte de cada um de nós no desejo intenso de encontro – portanto, ponhamo-nos a caminho! 

Sim, "partir para a Galileia” significa uma coisa estupenda, significa redescobrirmos a nossa fé como fonte viva e a nossa esperança cristã como fonte a ser vivida. Significa, antes de tudo, retornar lá, àquele ponto onde a Graça de Deus tocou a todos no início do caminho. 

E em cada um de nós também há uma “Galileia”, mais existencial: a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo, que nos chama para O seguir e participar na sua missão – neste sentido, voltar à Galileia significa guardar no coração a memória viva desta chamada, quando Jesus pede-nos para recuperar a sua lembrança e os seus ensinamentos.

Hoje, nesta noite, podemos nos interrogar: qual seria a nossa Galileia? Onde está? Lembramo-nos dela? Sabemos como seguir a caminhada?

E, se não sabemos ou se andamos por estradas que nos fizeram esquecer, peçamos ao Senhor que nos ajude a redescobri-la. 

Por fim, neste bendito Sábado de Aleluia, lembremos de descer ao Santo sepulcro a fim de trazer tudo o que lá está para uma nova vida, de modo a nos salvar e a nos transformar no mais fundo de nossas almas. 

Ressuscitemos na Páscoa como pessoas salvas e libertas, com a coragem cristã de refletir sobre os nossos próprios sepulcros e de sepultar tudo o que nos distancia da vida e da verdade.