terça-feira, 25 de abril de 2017

# vitrines e espelhos: a vertigem hipersocial



A cada dia se nota a opulenta evolução dos hábitos e do comportamento humano, demasiadamente humano.

Em cada detalhe, em cada gesto, em cada canto, em cada esquina virtual, mais e mais pessoas parecem insistir em não entender o espírito da coisa – como aqui destacamos sobre uma das ágoras pós-modernas, o twitter, o qual é por muitos usado, infelizmente, ou como palanque de tipos celenterados que antes rastejavam pelos porões urbanos e que agora buscam ali seus 140 caracteres de fama, ou como um divã onde ácaros e anêmonas despejam seus recalques e frustrações.

E como piora, se degrada e não tem fim o poço da falta de razão com que se apresentam, à toa, atochadas numa casca de noz que representa um universo da falta de noção.

Ou, pior ainda, da sobra de vaidade, de auto-estima, de "auto-emesia".

Neste terremoto civilizacional das tais redes sociais, um contingente incrível que se tatua online para tentar tatear a própria realidade – e até estes dias, acreditem, a onda era o selfie after sex.

E assim avoluma, avulta, vaza e entope cada carótida das teias nervosas da rede uma imensa gente com os seus auto-retratos, seus pós-retratos ou os retratos autônomos das suas vidas que vivem de descartes, do que se tem que fazer ou ter e do que está out ou in, conforme as bancas de revista e as coca-colas da vida anunciam e dita a "modernidade líquida" de Bauman.

O "nada" adquire poderes sobrenaturais: o ar respirado, a comida engolida, o visto dos olhos, tudo se motiva para entrar na esfera do público, para o público, pelo público -- e até os pêlos tornam-se públicos.

A exposição é gratuita, é ordinária, é vazia e é cheia de uma futilidade que assombra, em versões digitais e sociais da mais rasteira lenda narcisista. 

Ora, intriga-me saber o quê e como se enxergam estas pessoas, que no mais simples, cotidiano e mesmo íntimo ato da vida fazem máxima questão de, num quase ato de extrema-unção, colocarem-se à mostra para o fim abençoado da plateia.

Uma vitrine humana, desnecessária e sem sentido, como aqui já falamos, numa época em que a moda era outra passarela.

Vê-se espelhos pra cá, poses pra cá, pratos acolá, abraços com micos, emas e estátuas vivas, tudo é visto, selado, registrado, carimbado e explicitamente disposto se quiser voar para a boca e olhos de todos, para consumo mundial, vinte e quatro horas no ar.

É a vida à la carte, a vida em pedaços, a vida fatiada e servida nas suas melhores partes, num banquete enfetichezado.

Eis a máxima: “o que não está postado no mundo da redes sociais não está no mundo”, prega esta gente com os seus luxuriantes frames, quadros e quadrantes, na profunda patologia do barulho e da irrelevância do tudo.

Ou, como diria o filósofo Guy Debord e a sua "sociedade do espetáculo", o hiperreal é onde está a verdade.

E isso tudo aliena, enfastia, engana e finge-se natural, fruto de uma geração que se empanturra com uma curtição alheia, acrítica, aviltada, atabalhoada, sem pé e nem cabeça, sofrida, sôfrega, quase sonâmbula, típica de quem anda está perdido na caverna platônica.

Não sei, talvez ela esteja afundada após mergulhar na entorpecida imagem refletida na lagoa.


Ou, então, no vácuo da psyché pobre e vazia que faz cada um "ser" somente naquele ato ou naquele objeto fotografado e espalhado para o mundo.


Para assim seguirmos, etiquetados e diariamente prontos para o consumo, num processo de idiotização que faz corar qualquer iluminista do séc. XVIII.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

# que só tem o sol que a todos cobre



Por que ainda vivemos em um país com índices de desordem relativamente baixos?

Por que não vemos diuturnamente arrastões, avalanches, tsunamis de violência pelas praias e praças das pólis, eminentes sobreviventes dos espaços públicos das nossas cidades?

O olhar e olfato comuns, sob o senso midiático, faz acreditar que estamos sob o diário domínio do medo, num caos e com a bandidagem aos borbotões, intrépida e incessantemente às nossas portas e em nossas ruas.

E isso, porém, é uma meia-verdade.

É claro que não estamos no Canadá, na Escandinávia ou em Cuba, sítios onde a violência revela índices mínimos, mas isso aqui era para ser bem diferente, era para ser uma Síria em todos os lugares e a todo tempo.

Afinal, arromba a retina a brutal e catastrófica desigualdade no Brasil, uma distância medida a anos-luz entre nossos dois mundos, entre as nossas duas cidades-realidades.

Duas sentenças resumem bem este estado de coisas e nos permitem refletir os porquês: primeiro, com Noam Chomsky, quando diz que "a grande maioria da população não sabe o que está acontecendo e sequer sabe que não sabe"; depois, com Leonardo Boff, ao recentemente dizer que "se os pobres soubessem o que estão preparando para eles, não teríamos ruas suficientes para tanta luta". 

De um lado, ricos, brancos e encastelados em uma vida fidalga que vagueia por um consumo hedonista e que se desbunda na busca da maximização da boa vivência, com seus umbigos como centro de tudo.

Do outro, um contingente de pobres e pretos emputecidos com o cotidiano dantesco que margeia a miséria e que faz suar sangue em busca da mínima sobrevivência, umbilicalmente ligados ao nada periférico.

No primeiro Brasil, a nobreza goza um padrão de vida superior ao daquela parte de um planeta em que o padrão é todos terem, a gozar de uma vida cheia, com mais ou menos exageros – esta nossa elite é a máxima elite de países ricos.

No segundo, a malta estropia-se sob uma ordem social semelhante àquela dos parturidos nos bolsões onde o vazio impera e cujos padrões de desprezo e descaso são, sem exagero, simplesmente trágicos – esta nossa gente é aquela gente das regiões mais miseráveis do planeta.

Repita-se: neste nosso Brasil uma desigualdade tão atroz e abismal deveria produzir catarses diárias, inconsequentes e revolucionárias, ataques incondicionais e diuturnos.

O Brasil, ora pois, seria digno de sofrer sob trevas e escuridão infindáveis (v. aqui).

Afinal, não falamos de nações africanas ou mesmo dos estados pobres latino-americanos.

Falamos da sétima maior economia do mundo na qual pulula uma diferença social avassaladora, uma disparidade econômica ultrajante e uma dessemelhança humana quase pecaminosa.

Em suma, falamos de polos positivo e negativo, de dignidade e indignidade, de tudo e nada convivendo juntos, lado a lado, com poucos choques, com poucos sentimentos e com pouca mescla.

E mesmo assim o Brasil (ainda) não se vê em frangalhos, não se mostra em pulsante guerra e não revela um ódio bélico – a não ser o de "classe" – incapaz de aceitar este nosso tradicional estado de coisas.

Bem se sabe que há espaços urbanos onde, tal qual na órbita do grande capital, vigem códigos de conduta e ética de convivência alternativos, sob o império da legalidade à la carte, à mercê de regras e instituições paralelas.

Mas, mesmo assim, fora destes outros mundos, no "centro" não se nota a descortinação do Direito.

Não se vê a ameaça constante por parte dos excluídos sobre os superincluídos, não se vê a multiplicação de Robins Hoods do bem e do mal – como aqui lembramos – e não se verifica a atuação costumeira de rebeldes sociais em busca do brioche nosso de cada dia.

E por quê? Por que esta bomba-relógio insiste em não explodir? Qual o freio inibitório desta gente toda?

O argumento "policialesco" não se justifica por si só; ora, a própria rational choice seria capaz de responder que, no caso brasileiro, o custo de oportunidade para perverter à ordem e ingressar na criminalidade é muito baixo.

Primeiro, pelo risco de ser pego, processado e preso ser pequeno; segundo, pela ineficácia do sistema, mesmo se levando em consideração que ladrões de galinha preta têm penas muito mais certas que ladrões de colarinho branco; e, terceiro, pelo próprio tempo na prisão que, se porventura houver, não mitiga tanto a assim a sua liberdade – afinal, de qual liberdade está a se falar?

Depois, o argumento "religioso", pela fé divina no comportamento honesto que leva à salvação, creio que também não explica.

Ora, seria algo muito metafísico para suportar toda a carência real de tantos milhões de cidadãos sem nada e absolutamente entregues à própria sorte nascitura as igrejas neopentecostais, inclusive, têm um importantíssimo papel nisso tudo, enxergando e dando voz aos milhões de mudos que se invisibilizam na sociedade.

O "familiar"? Talvez, mas, não sejamos ingênuos: como os pais, os filhos e e todos os espíritos de outros exemplos intramuros haveriam de ser páreos para tudo o que se vê ao redor de luxo e luxúria?

A grande massa não pode entender e não vê na educação, no trabalho e na vida obreira dos seus pares fontes para o futuro, muito provavelmente incapazes de tirá-la do chão de miséria, de assegurá-la as mais básicas necessidades e de atender ao consumismo platinado que tanto incita o desejo felino de ter para ser.

O "pessoal", o "histórico-antropológico", o ethos assente em proposições como a cordialidade, o adoçamento, o conservadorismo e outras raízes? Bem, eles até ajudam a esclarecer algumas coisas à margem da questão da não selvageria, contudo de modo bastante reticente.

O "psíquico", do comportamento humano retraído e passivo extraído da relação entre dominantes e dominados, cujos laços Alain Morice caracterizou como a "motivação subjetiva da dominação"? Sim, até contribuem, mas em seus mais diversos matizes não funciona como conclusiva resposta ao fato.

O "Estado Democrático de Direito", a "Carta Magna", os "códigos", as "consolidações" e os "comitês" de marchas, sindicatos e circos? Um pouco, um pouco, quase nada.

Enfim, chego a uma primeira (e óbvia) conclusão de que tudo se esclarece na reunião de todas estas teses, num blend de tons, talantes e tinos que há séculos nos forma.

Mas, senão menos sui generis (e genérica), a ideia pode simplesmente residir na tese já anunciada no Gênesis, naquele longínquo sexto dia: "e criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou".

E com isso temos visto tudo quanto tinha feito.

E com isso tem nos parecido que, apesar de tudo e de todos, é muito bom.

Seria esta, portanto, a explicação?


A centelha da vida