quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

# maestros, cavalos, deuses e hinchas



Quando o Clube Atlético Paranaense entrar em campo hoje, na nova velha Baixada, pela Copa Libertadores da América, recomeçará outra batalha das guerras que representam disputar o maior campeonato de futebol do planeta.

Sim, meus amigos, a saga por esta Taça soergue-se como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.


É aqui, pela nuestra América, onde o futebol é jogado na sua essência, na sua pureza, onde maestros, corvos, deuses e hinchas desfilam juntos em epopéias dantescas.

Aqui é o "Inferno", meus senhores.

Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras sul-americanas. 

Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas.

São, sim, jogadores.

São heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do Céu.

Ora, não me venham com as lantejoulas das arenas alemãs climatizadas.

Nem as pompas dos gramados de pastagem de vacas holandesas.

Nem as purpurinas dos uniformes demi-sec franceses.

Nem a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas.

Nem o brilho comportamental da perfumada massa torcedora austríaca e seus canecos de vidro encervejados.

E nem toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonista.

Não, meus amigos, não. 

Este nosso jogo é incapaz de ter a beleza pornográfica de todos aqueles espetáculos europeus, de ter a fleuma civilizatória do bom selvagem do velho mundo e de ter o bolo bilionário de tantos euros.

Ela tem, diria Vinícius e batucaria Baden, "qualquer coisa" além da beleza. 

Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa, afinal, nesta Copa tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta. 

E mais.

Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor machucado, transborda em uma alegria sublime, sui generis, incompatível a qualquer outra de padrão europeu. 

Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelos mais depauperados amores, rasga-se e morde-se pelo mais irraciocinado dos amores.


E se chora, e se grita, e se late, e se morre, e se arrebenta a veia para que tudo acabe em um deleite que não se entope, que não se explica.

Porque não tentem convencer chilenos, uruguaios ou argentinos do contrário, pois todos sabem que as suas cores representam uma paixão, paixão que cada um sabe de cor, feitas apenas para serem amadas e para ao final sofrerem de um eterno amor. 

Como aqui, com o coração rubro-negro que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infinitos noventa minutos. 

Senhores, a Copa Libertadores da América é assim: feita de paixão, feita de sangue, suor, cuspes e lágrimas, como em nenhum outro canto desportivo da Terra se vê ou se tem.

De hoje até o seu fim, nada mais importa neste reino de Bolívar, Artigas San Martín.

E nada mais nos restará, até sabermos qual clube será coroado, sob as bênçãos divinais, o maior da vez. 

Saravá!