quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

# sueño



Não durmo mais,
  na verdade, desdurmo todos os dias desvividos.

 Não sonho mais,
 na realidade, desisti de sonhar
para continuar sonâmbulo de uma rotina nauseante.

E no meu calabouço calo a boca e ouço o grito que alhures agoniza.
  
Não, não escuto mais 
  e agora engulo o choro intranquilo que sempre fora meu.

Ora, já não me sinto,
 apenas afundo plúmbico em baldes de absintho,
torrando a pele que doura anestesiada e enferrujada à beira-mar.

Enquanto borbulho o ar rarefeito de naftalina que me impregna.

Não respiro,
 mas transpiro a dor da saudade da idade antiga desabitada.

 E fujo, 
 sujo na teia matreira do destino que algema a liberdade de barro
num sopro envenenado que tira a última costela.

E a vida.
  
Não acordo mais  
 e desacordo.

 Enforco-me nas tripas desembuchadas
 de um corpo cansado
que descaminha trôpego sobre o cadafalso da existência.
  
Do sangue embutido que vendo, 
o vermelho é das minhas lágrimas.



# despenhadeiro



Não ando devagar, nem ando.

Como um calango rastejo-me na milonga do tango que me enfada na melancolia.

E paro, e rolo, e caio.

descambo ao fundo do colo a gemer em cólicas toda a dor do mundo.

E chego, e de olhos esbugalhados para o nada resto inerte pela estaca que afunda em meu peito.

E choro, e grito as cordas de uma voz mocha em vão.

Sem ar, clamo às brânquias mutantes que surgem.

Ingratas, em núpcias com meu fim fingem inexistir.

Já não faço bolhas, nem faço nada.

De graça, rogo a fotossíntese do verde que nunca quero ver.

Não há sol, nem chuva.

E nas brumas sobre as espumas que me cobrem noto que emboloro.

No corpo cansado, suspiro.


# gregoriano


Baratas brancas atracam
pelas frestas largas
da sanca aberta em meu siso.

Em sibemol insisto
na ópera em que enceno degluti-las
a erguer ao cabo um corcovado em gesso glacê.

Apenas sonho.

Agora as mantenho na estufa
onde assam e acabam feito pó da solidão
atônitas na dança bamba pela arcada de cáries vivas
que brotam e sugam a carne mofa da pele.

Não, apenas sonho.

Resisto.

E bochecho o chorume da peste.

Engulo.

E cá em mim gotas da metamorfose já presa do destino
 como uma desgraça canina amorfa no celeiro cruel
sobre o qual gravitam as lantejoulas pueris do passado
vesgas artífices da construção movediça da minha realidade.

Estava acordado.



# aperreado



Não há mais espaço.

Onde deves saltar deste voo cego que tripulaste?

 Ah, cosmonauta querido, 
por que tomaste o desrrumo da estrela-guia perdida?

 Toma, lambuza-se do colírio que pinga e vinga o olhar que tudo enubla.

Vê, reflete aquele martírio que ginga sobre a caatinga do semiárido que te perturba.

 E expurga, xinga a mandinga barata ofertada no terreiro fementido da esquina.

 Como mártir da restinga gringa que míngua sob a tua vida arlequínea.

  Ora, não há mais horizonte.

 Onde deves largar-te do bote à deriva que embarcaste?

 Ah, náufrago infausto, 
por que insististe no mergulho nas longes latitudes deste triângulo cáustico?



# defumado


Sou o nada.

Soa triste
se não sonhasse
diferente de tudo
o que não sou.

Sobra da xepa
que resta da feira,
só me desbasto.

Sobram-me sisos,
faltam-me risos
na segunda assada
de cada dia.

Não gargalho,
e no meu galho
sofro e golfo
o cotidiano acre
que não trago.

Tranco-me
na gaveta abafada
da pasteurizada voz alheia.

Ensurdo-me
na retórica bovina babada
da cegueira vizinha.

Lá e cá
calo incerto
das pegadas que faço
ao meu presépio.

E nada vejo.
A minha estrela
é um buraco negro.

Decadente,
sou guiado para dentro do meu labirinto.




# valete


pastiche triste de uma obra,
prisma enviesado sob um trapézio quadrúpede tingido em piche de priscas eras

primavera ao longe,
de bandeira em fungo enrola-se sob um sol tardio

penumbra,
a te fazer tumba num alvorecer que sabe a anis defumado

a nau deriva,
mergulha no pélago da ilusão

passageiro,
de um destino mal calculado

das minhas múltiplas divisões,
não há mais réstia do homem que me fizera

sombra apagada,
anátema em tilte agudo

sinal da voz fanha da barganha que apostei,
e perdi



# aspas (xlviii)


“Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”
José Saramago, em "Ensaio sobre a cegueira".


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

# levedo


Oh, úmida alma

Sinto-me velho

Alquebrado dos pés à cabeça,
ouço os suspiros agonizantes da mitocôndria que grelho

Moo-me reprimido

Alimentado das vísceras,
tenho o gosto final da vida que liquidifico

Já não me mereço

Afugentado da alma,
sou eunuco da fé cambaleante que terço

Mas avisto a terra

E arrendatário do coração,
socorro-me na miragem míope das bolhas de luz que a esperança descerram

Oh, úmida alma

Eis que no apodrecimento tem-se a fermentação,
assim sossegou o ajudante de guarda-livros lisboeta



# desfloreio


Apequenado no jardim das minhas memórias 
insisto em cavar meus sonhos. 

À pá, 
cavouco e cavouco a terra do passado 
como um fiel jardineiro a catar as raízes do que ali outrora crescia. 

Em vão,
em seco 
lágrimas agora umedecem
a vida pálida deste mudo fruto
reduzido ao quadrado de uma natureza morta. 

Rasa,
e como destino, 
sepulto no chão batido deste meu mundo 
as ilusões que pintara em garranchos a óleo e fel. 

Resta-me o buraco. 
Resta-me a realidade, sem cores e sem porvir.



# crepúsculo


O assoalho tem um branco meio mórbido como se num cadavérico cinza que precede o preto.

O teto à testa atesta a laje do precipício sem parapeito.

O brilho oleoso abafa os natimortos caracóis que por fora já emboloram sob o casco pesado do fardo carregado.

Rugas e verrugas camuflam a serra torta e talhada que no espelho do leito do rio são desveladas.

Na imagem tento decifrar o feio que sem culpa me devora ao bel-sabor do tempo ou do unguento béchamel.

E nesse insosso reflexo desencesto da memória a glória escondida da altiva existência passada.

Eis soçobrar pedaços como lascas puídas do desfecho doído e sem cor.

À sombra de mim, 
hoje tento juntar os cacos que somem no breu.



# talho


broca puída
a perfurar intestinos delgados
por onde pasto e rumino os sonhos del hombre
muerto, na câmara fria de um destino sem luz
inação pela cauda que chicota em estilingues homicidas


vida abatida
sob mochos doloridos como suspiros mal acabados de um ente en vitro
sou despejado na esteira rolante de onde nunca saí
vem, baixa o cutelo que mira o córtex
sinapses somem pelo sangue jorrado como chuva de serpentinas entrudas


corpo moído
em pedaços dependuro-me à vitrine do meu açougue
em ganchos onde a realidade é de uma carne pálida
às moscas, já não valho o que peso
e no silêncio sou descartado como matéria vencida



# náufrago


Atiro-me pedras
porque teimo tanto errar

Engulo-as

E na rede do meu luar
as vomito com os sapos que também não cansam de me judiar

Agora concentrado nesta verve velha
vejo as válvulas já vacilarem num comovente descanso

E a dinâmica do espantalho inveja-me
em face ao corcovado que me prende ao tapete borrado desta sala 
amarrado alado aos ácaros que me sufocam na eterna meia-noite de uma rotina em vão

Eis que por detrás daquela janela
do alto deste arranha-céu
flerto com o cheiro da liberdade que não tenho

Asas fritas em óleo ranço,
apenas roo o osso ao sebo das minhas sobras

E num balde gasto
guardo a carcaça fria para o mesmo dia de amanhã





#alfeire


Perco-me no bordel das letras

Finjo virgem na construção vadia a que submeto as minhas parábolas

Vis, vãs e as veias abertas a uma realidade explícita

Indigna, indecente e as ideias cobertas por um véu irrealista


Cerco-me no meretrício das palavras

Tinjo a mijo na realização baldia a que prometo as minhas bulas

Anis, anãs e as teias repletas de uma crueldade desdita

Ágona, inclemente e as memórias insertas sob o fel narcisista


Emporcalho-me no lupanar das minhas agruras



terça-feira, 19 de dezembro de 2017

# tábula


Raspo, aqueço, esqueço,
esfrego diuturnamente
a pet em litros
encontrado ao baldio.

E nada.

Cheiro, asso, amasso,
dechavo ao avesso
aquela coca choca
tropeçada na noite.

E nada.

Um gênio! Uma sereia! Uma fada!

E nada.

Cadê o artrópode cheio de asas
a soltar fogo pelas ventas
para arrancar com seus dentes e tridentes
meus desejos ingênuos?

Como suplico se aflito imerso
neste pinico nada vejo
senão o marrom glacê
a boiar imenso
e meio amarelo?

Fujo com meus sonhos
pelo ralo onde calo e estalo
na inglória certeza
de chegar ao mar
e parar livre da queda.

A navegar sem rumo,
com uma obscura bússola na bainha,
chego ao meu subterrâneo
aconselhando-me como um grilo errante
catando cigarras que cantem a farra
sabática das cinzas de um domingo qualquer.

Ao pé da minha orelha,
ouço a minha voz cigana
que clama pelo meu desengano.

Ao pé da minha cruz,
sussurro em pigarros
o fim da vida rouca
que me dessalga nu e sem colete.

E sem nadar. 

Afogo-me
embebido nas trevas da desilusão sempiterna.


# passado



Não possuo nada,
nada posso.

E no fundo do poço a desgraça me enlaça, 
e emputrefaço.

Diante do amanhã que me esquece,
o silencio reticente da minha sombra
padece na agonia de quem jaz.

Suplico em vão,
para sucumbir sob um blues macambúzio
na catacumba que outrora projetei.

Antes mumificado,
sou apenas o faro avaro do que seria.

Um odor, olor,
a dor e o horror transparentes.

E na marreta dos meus sonhos cromáticos
desconcerto perspectivas para guardá-las em potes refratários da realidade.

Eis, pois, o meu norte,
magnetizado com as sete mil cores da ilusão.

A assim ando,
em arcos que no finito se cruzam e se fecham,
até toda a sorte de liberdade frustrar.

E assim não gravito,
preso ao peso da existência que na corcova nascente carrego.

Não, não há horizonte no que faço,
nem promessa naquilo que crio.

Eis q´na infertilidade do meu grito,
estou prenho na roda-gigante do passado.



# encaixotado


Não caibo
no meu desgosto
que sabe a fel.

Desabo
no meu agosto
em que chove sal.

Não trago
no meu posto
o que chamam sol.

Enfado
no meu encosto
que afunda a nau.

Não agrado
meu rosto
que queima em cal.

Atônito,
monossílabo-me.



# ventríloquo


Não uso sapatos.

São eles quem me usam
e me levam ao seu destino.

Mas os calos são meus.


Não uso a cabeça.

Ela é quem me usa,
dirigindo-me sob suas idiossincrasias.

Mas a vertigem é minha.


Não uso as mãos.

São elas quem me usam
e me escrevem no seu balé linguístico.

Mas as bolhas são minhas.


Não uso fraldas,
não uso poncho
e não uso esquadros.


No meu viver
o compasso não me pertence.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

# cacos


se dentro em seu coração faz dor

ao som do vento fúnebre pariu

entre as cordas da ânsia ao fastio

o medo de uma trilha em bolor


se insiste no pigarro assombrado o clamor

a angústia das sobras de uma noite em cio

flerta a miragem em nuvem de um silêncio hostil

com o ópio desse rio o embalou






Ousei querer tudo do que não sou.

Estou entregue, nos cascos a vagar sem criar um passado, sem lembrar do futuro.

Juro o brio ausente para virar a esquina: não terei saída

Caindo, andante lento tropeço na vertigem narcisa da ilustração refletida.

Traída caricatura, que sem luz do bueiro socorro grito em vão.

Ao chão de súbito rabisco a fuga movediça, ilusão de liberdade.

Alcaide preso no subterrâneo da existência, a boiar aguardo o despejo.

E o desejo pelo ralo que me parta






frio
acalanto cinza de abraços distantes


saudade
branco vazio à fôrma vazante


solidão
quebranto amargo na morada imigrante


suplício
lamento oco como tragédia errante


fim
encanto tardio de vida diletante






Pouco a pouco na finitude definho

E na vida espalhada ao acaso, ocaso


Louco, na rinha ingrata caminho

E nas feridas baratas em casa, o sarcasmo


Oco, no vazio asfalto minha alma

E em cinza rumino o afeto das memórias, em mora


Rouco em rouco engasgo no silêncio das palmas

E nas ruinas o incerto esplendor da história






Rebaixo a nuca ao beijo frio da morte

Cangaceiro eunuco, queixo teso em mata seca sob o assobio da navalha

Tempo brusco, me escondo e em concha vislumbro o fio do destino ao longe

E embrulho o nunca como pavio e dádiva do amanhã

Pois se na bainha funda empunho a vertigem que pariu meus pesadelos

É do suspiro de adeus que escuto a miragem de um cantil de vida






minha semente plantei no quinta onde nasci e à varanda despetalar via o tempo e as folhas caíam e pelo alto a esperança flutuava em vermelho tijolo como se fosse o chão firme pleno terreno de ilusões e de cipó à lua me atirava como mímico primata a debater ossos à procura de som e de luz e de alguém para me tirar da selva árida de uma nostalgia sem fim






Fui uma vida de quases.

Ou quase.

Vida intransitiva para um complemento ácido.

Hoje caído.

Corroído pela finitude da existência.

Tornei-me reticências de causas e ideias.

Chego no buraco onde busco respostas.

E encontro no gancho da interrogação a saída à força do garrancho que me tornei.






Se contente a ranhura do tempo apaga

Agrura clemente em campo que amarga

Vê prudente a cura num santo à descarga

Juras ausentes que o vento afaga



Se inerte à queda no descaminho padece

Resta o flerte desatino tivesse

E na fresta que antecede o vaticínio da prece

Perde e versa o destino como quem adoece