terça-feira, 2 de maio de 2017

# pela luz dos olhos deles



Se tantos tentam ser o pai que queriam ter tido, no espelho dos meus filhos tento ser um pouco daquele que tive.

E se por missão paterna este é o meu modelo, a própria paternidade me faz ver também um outro modelo.

O modelo do amor pleno, do amor incondicional, do amor maternal.

Pois é, ser pai me faz regredir para poder ver a minha mãe.

É na mãe dos meus filhos que consigo transpor a minha própria mãe, e agora poder ver, com os olhos que esta terra há de comer, tudo o que tive na minha vidinha infante.

Sinceramente, não tinha a noção do tanto de amor que cabe na criação de um pequeno ser – neste meu cotidiano, passa um filme do fim dos anos 70 cujo enredo é o amor maior do mundo a mim tributado.

Agora, de perto, já não mais duvido que quase dê para pegar no tanto de sentimentos que se materializa nesta relação de mãe e filho – e, sejamos francos, da mãe para o filho.

Ora, bem miúdos parece que retribuímos tudo instintivamente, meios selvagens, numa ideia primitiva de desejos felinos (ou primatas) de saciar nossas orgânicas vontades.

E, já crescidos, lembramos que não conseguimos lembrar tudo o que, plena e insistentemente, as nossas mães faziam por nós naquela época da plena dependência.

Eis, pois, o mais incrível: as mães tem plena ciência de que toda aquela oferta não lhes garante nada, sequer a gratidão futura que se costuma ter da memória em concreto, afinal, o que passa nos primeiros trinta meses de vida fica apenas guardado num subconsciente semântico qualquer – e, convenhamos, talvez só isso explique o que de nós, filhos, virá pela frente...

Hoje, vendo o tamanho e a intensidade da atenção, da abnegação, do zelo, do carinho, do desvelo e do amor que a mãe do Benjamin e do Santiago dedica a eles faz provocar em mim um sentimento de infinda dívida.

Vendo o que hoje vejo em minha casa, em cada fim de dia, em cada fim de semana (e até o fim do mundo), fico mais do que nunca com a certeza de que serei um eterno devedor de minha mãe em seu amor total, sem medida e sem condições.

Amor de uma época da qual jamais me lembrarei.

Mas que, se não carregava na viva memória e se achava mesmo que não via, agora posso ver e mensurar o quanto de amor sob o qual vivia.

E pela luz dos olhos dos meus filhos sei, enfim, o que não sabia com meus tão poucos anos.

Neste reflexo, estou a amar um amor de já quarenta anos.


terça-feira, 25 de abril de 2017

# vitrines e espelhos: a vertigem hipersocial



A cada dia se nota a opulenta evolução dos hábitos e do comportamento humano, demasiadamente humano.

Em cada detalhe, em cada gesto, em cada canto, em cada esquina virtual, mais e mais pessoas parecem insistir em não entender o espírito da coisa – como aqui destacamos sobre uma das ágoras pós-modernas, o twitter, o qual é por muitos usado, infelizmente, ou como palanque de tipos celenterados que antes rastejavam pelos porões urbanos e que agora buscam ali seus 140 caracteres de fama, ou como um divã onde ácaros e anêmonas despejam seus recalques e frustrações.

E como piora, se degrada e não tem fim o poço da falta de razão com que se apresentam, à toa, atochadas numa casca de noz que representa um universo da falta de noção.

Ou, pior ainda, da sobra de vaidade, de auto-estima, de "auto-emesia".

Neste terremoto civilizacional das tais redes sociais, um contingente incrível que se tatua online para tentar tatear a própria realidade – e até estes dias, acreditem, a onda era o selfie after sex.

E assim avoluma, avulta, vaza e entope cada carótida das teias nervosas da rede uma imensa gente com os seus auto-retratos, seus pós-retratos ou os retratos autônomos das suas vidas que vivem de descartes, do que se tem que fazer ou ter e do que está out ou in, conforme as bancas de revista e as coca-colas da vida anunciam e dita a "modernidade líquida" de Bauman.

O "nada" adquire poderes sobrenaturais: o ar respirado, a comida engolida, o visto dos olhos, tudo se motiva para entrar na esfera do público, para o público, pelo público -- e até os pêlos tornam-se públicos.

A exposição é gratuita, é ordinária, é vazia e é cheia de uma futilidade que assombra, em versões digitais e sociais da mais rasteira lenda narcisista. 

Ora, intriga-me saber o quê e como se enxergam estas pessoas, que no mais simples, cotidiano e mesmo íntimo ato da vida fazem máxima questão de, num quase ato de extrema-unção, colocarem-se à mostra para o fim abençoado da plateia.

Uma vitrine humana, desnecessária e sem sentido, como aqui já falamos, numa época em que a moda era outra passarela.

Vê-se espelhos pra cá, poses pra cá, pratos acolá, abraços com micos, emas e estátuas vivas, tudo é visto, selado, registrado, carimbado e explicitamente disposto se quiser voar para a boca e olhos de todos, para consumo mundial, vinte e quatro horas no ar.

É a vida à la carte, a vida em pedaços, a vida fatiada e servida nas suas melhores partes, num banquete enfetichezado.

Eis a máxima: “o que não está postado no mundo da redes sociais não está no mundo”, prega esta gente com os seus luxuriantes frames, quadros e quadrantes, na profunda patologia do barulho e da irrelevância do tudo.

Ou, como diria o filósofo Guy Debord e a sua "sociedade do espetáculo", o hiperreal é onde está a verdade.

E isso tudo aliena, enfastia, engana e finge-se natural, fruto de uma geração que se empanturra com uma curtição alheia, acrítica, aviltada, atabalhoada, sem pé e nem cabeça, sofrida, sôfrega, quase sonâmbula, típica de quem anda está perdido na caverna platônica.

Não sei, talvez ela esteja afundada após mergulhar na entorpecida imagem refletida na lagoa.


Ou, então, no vácuo da psyché pobre e vazia que faz cada um "ser" somente naquele ato ou naquele objeto fotografado e espalhado para o mundo.


Para assim seguirmos, etiquetados e diariamente prontos para o consumo, num processo de idiotização que faz corar qualquer iluminista do séc. XVIII.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

# que só tem o sol que a todos cobre



Por que ainda vivemos em um país com índices de desordem relativamente baixos?

Por que não vemos diuturnamente arrastões, avalanches, tsunamis de violência pelas praias e praças das pólis, eminentes sobreviventes dos espaços públicos das nossas cidades?

O olhar e olfato comuns, sob o senso midiático, faz acreditar que estamos sob o diário domínio do medo, num caos e com a bandidagem aos borbotões, intrépida e incessantemente às nossas portas e em nossas ruas.

E isso, porém, é uma meia-verdade.

É claro que não estamos no Canadá, na Escandinávia ou em Cuba, sítios onde a violência revela índices mínimos, mas isso aqui era para ser bem diferente, era para ser uma Síria em todos os lugares e a todo tempo.

Afinal, arromba a retina a brutal e catastrófica desigualdade no Brasil, uma distância medida a anos-luz entre nossos dois mundos, entre as nossas duas cidades-realidades.

Duas sentenças resumem bem este estado de coisas e nos permitem refletir os porquês: primeiro, com Noam Chomsky, quando diz que "a grande maioria da população não sabe o que está acontecendo e sequer sabe que não sabe"; depois, com Leonardo Boff, ao recentemente dizer que "se os pobres soubessem o que estão preparando para eles, não teríamos ruas suficientes para tanta luta". 

De um lado, ricos, brancos e encastelados em uma vida fidalga que vagueia por um consumo hedonista e que se desbunda na busca da maximização da boa vivência, com seus umbigos como centro de tudo.

Do outro, um contingente de pobres e pretos emputecidos com o cotidiano dantesco que margeia a miséria e que faz suar sangue em busca da mínima sobrevivência, umbilicalmente ligados ao nada periférico.

No primeiro Brasil, a nobreza goza um padrão de vida superior ao daquela parte de um planeta em que o padrão é todos terem, a gozar de uma vida cheia, com mais ou menos exageros – esta nossa elite é a máxima elite de países ricos.

No segundo, a malta estropia-se sob uma ordem social semelhante àquela dos parturidos nos bolsões onde o vazio impera e cujos padrões de desprezo e descaso são, sem exagero, simplesmente trágicos – esta nossa gente é aquela gente das regiões mais miseráveis do planeta.

Repita-se: neste nosso Brasil uma desigualdade tão atroz e abismal deveria produzir catarses diárias, inconsequentes e revolucionárias, ataques incondicionais e diuturnos.

O Brasil, ora pois, seria digno de sofrer sob trevas e escuridão infindáveis (v. aqui).

Afinal, não falamos de nações africanas ou mesmo dos estados pobres latino-americanos.

Falamos da sétima maior economia do mundo na qual pulula uma diferença social avassaladora, uma disparidade econômica ultrajante e uma dessemelhança humana quase pecaminosa.

Em suma, falamos de polos positivo e negativo, de dignidade e indignidade, de tudo e nada convivendo juntos, lado a lado, com poucos choques, com poucos sentimentos e com pouca mescla.

E mesmo assim o Brasil (ainda) não se vê em frangalhos, não se mostra em pulsante guerra e não revela um ódio bélico – a não ser o de "classe" – incapaz de aceitar este nosso tradicional estado de coisas.

Bem se sabe que há espaços urbanos onde, tal qual na órbita do grande capital, vigem códigos de conduta e ética de convivência alternativos, sob o império da legalidade à la carte, à mercê de regras e instituições paralelas.

Mas, mesmo assim, fora destes outros mundos, no "centro" não se nota a descortinação do Direito.

Não se vê a ameaça constante por parte dos excluídos sobre os superincluídos, não se vê a multiplicação de Robins Hoods do bem e do mal – como aqui lembramos – e não se verifica a atuação costumeira de rebeldes sociais em busca do brioche nosso de cada dia.

E por quê? Por que esta bomba-relógio insiste em não explodir? Qual o freio inibitório desta gente toda?

O argumento "policialesco" não se justifica por si só; ora, a própria rational choice seria capaz de responder que, no caso brasileiro, o custo de oportunidade para perverter à ordem e ingressar na criminalidade é muito baixo.

Primeiro, pelo risco de ser pego, processado e preso ser pequeno; segundo, pela ineficácia do sistema, mesmo se levando em consideração que ladrões de galinha preta têm penas muito mais certas que ladrões de colarinho branco; e, terceiro, pelo próprio tempo na prisão que, se porventura houver, não mitiga tanto a assim a sua liberdade – afinal, de qual liberdade está a se falar?

Depois, o argumento "religioso", pela fé divina no comportamento honesto que leva à salvação, creio que também não explica.

Ora, seria algo muito metafísico para suportar toda a carência real de tantos milhões de cidadãos sem nada e absolutamente entregues à própria sorte nascitura as igrejas neopentecostais, inclusive, têm um importantíssimo papel nisso tudo, enxergando e dando voz aos milhões de mudos que se invisibilizam na sociedade.

O "familiar"? Talvez, mas, não sejamos ingênuos: como os pais, os filhos e e todos os espíritos de outros exemplos intramuros haveriam de ser páreos para tudo o que se vê ao redor de luxo e luxúria?

A grande massa não pode entender e não vê na educação, no trabalho e na vida obreira dos seus pares fontes para o futuro, muito provavelmente incapazes de tirá-la do chão de miséria, de assegurá-la as mais básicas necessidades e de atender ao consumismo platinado que tanto incita o desejo felino de ter para ser.

O "pessoal", o "histórico-antropológico", o ethos assente em proposições como a cordialidade, o adoçamento, o conservadorismo e outras raízes? Bem, eles até ajudam a esclarecer algumas coisas à margem da questão da não selvageria, contudo de modo bastante reticente.

O "psíquico", do comportamento humano retraído e passivo extraído da relação entre dominantes e dominados, cujos laços Alain Morice caracterizou como a "motivação subjetiva da dominação"? Sim, até contribuem, mas em seus mais diversos matizes não funciona como conclusiva resposta ao fato.

O "Estado Democrático de Direito", a "Carta Magna", os "códigos", as "consolidações" e os "comitês" de marchas, sindicatos e circos? Um pouco, um pouco, quase nada.

Enfim, chego a uma primeira (e óbvia) conclusão de que tudo se esclarece na reunião de todas estas teses, num blend de tons, talantes e tinos que há séculos nos forma.

Mas, senão menos sui generis (e genérica), a ideia pode simplesmente residir na tese já anunciada no Gênesis, naquele longínquo sexto dia: "e criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou".

E com isso temos visto tudo quanto tinha feito.

E com isso tem nos parecido que, apesar de tudo e de todos, é muito bom.

Seria esta, portanto, a explicação?


A centelha da vida



quarta-feira, 1 de março de 2017

# trem-fantasma



E atrás do trio elétrico só não vai quem não pode pagar.

Mais uma vez o Brasil avaliza, tacitamente, um desserviço à sua gente.

A triste realidade que pouco encanta nos quentes trópicos da adorada Bahia finalmente clama e já não mais se desengana por um revigorado programa: o lampejante e autofágico fim de um modelo, um modelo até então assente nos versos de Caetano que dizia "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu".

Concomitante a todos os efeitos do (ultra)capital no (hiper)consumo que assolam a sociedade e se consolidam na "constituição cultural", em Salvador -- e urbi et orbi? -- tem-se privatizado o carnaval, a deixar que apenas uma ínfima minoria permita-se pagar, entrar e, como se pisasse em chão de esmeraldas, ir atrás de um trio elétrico, enquanto a massa fica, perifericamente, na agonia espremida e distante, d´além corda, vendo do milimétrico e abafado lado de lá a vitrine passar.

De um passado que buscou justamente oferecer ao povo quatro dias de festa e então propiciar à senzala momentos de "alegria, alegria" tal qual àqueles gozados nos salões da casa-grande, o cotidiano traz um festival de preceitos privatistas e elitistas: sim, o fim veio a galope e, enfim, parece ter transformado a máxima festa do povo em um vil mercadoria, bem ao gosto da turma bem-cheirosa conservadora.

Hoje, pode-se notar que se pratica na capital baiana um outro gênero da segregação, um apartheid social, que faz o carnaval, se visto a olhos puros, parecer um baile aristocrata, com a nobreza bem definida, alva, cuidada e protegida ao centro e os serviçais carcomendo-se pelos lados, pelo cantos e pelos subterrâneos das ruas.

Com vestimentas e cordas, escolhe-se o "bom" e o "mau", separam-se "gregos" e "troianos", segrega-se o "sangue azul" do "sangue quente", divide-se o "branco" do "preto', aponta-se erradamente o "joio" do "trigo".

Com "abadás" -- vestes para identificar o bem e o mal -- e "cordeiros" -- seres humanos que são pagos, com trocados, para juntos segurarem as "cordas" que envolvem e separam os eleitos do resto) -- pretende-se expor toda uma população que inventou, criou, fez e se apaixona à barbárie de ruas e ruelas congestionadas e inescapáveis e à selvageria de fazê-la disputar a tapas os centímetros quadrados do espaço público, uma vez que tudo (percurso) e todos (segurança) ficam reservados à fidalguia intracordas, com benesses, bar e banheiro exclusivos.

Com preços exorbitantes e convites vip, retorna-se ao tempo de suseranos e vassalos, de corte e plebe, de homens e de ratos, pois, em prol da burguesia sulino-paulista ou do mass media, alija-se o povo daquelas suas terras, das suas ruas e da sua festa.

E quem ganha com isso?

Os homens de black-tie, as "pessoas muito importantes", empresários, políticos e, não se esqueça, os músicos, os quais jogam banana e cospem os seus chicletes na cara do povo, uma vez que hipocritamente tergiversam a esfoliação praticada por aquele show business, outrora um simples "carnaval de rua".

Com urgência, antes de uma possível catástrofe urbana ou de um motim popular já saturada ou intransigentes diante da indecorosa realidade, os órgãos e as empresas estaduais precisam se movimentar.

Devem, pois, reassumir as rédeas delegadas ao mercado e promover a sequiosa regulação e reorganização dessa grande festa, pois, diante da imperiosidade e da inalienabilidade do espaço e do interesse públicos, deve-se rechaçar a usurpação e a capitalização que, infelizmente, hoje caracteriza a maior folia da terra.

Em Salvador, ao invés de trios elétricos, o que se forma é um horrendo trem-fantasma.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

# "meritocracia"



Em pauta, a ideia da "meritocracia".

Brevemente, ela nasce como fundamento legal-racional da autoridade com Max Weber, ao analisar a transição das organizações tradicionais, cuja autoridade era baseada na tradição ou no carisma, para as modernas organizações burocráticas.

Mas não é sobre este prisma que se avançará.

Por isso, preliminarmente, uma premissa maior, sabida pelo mundo mineral: somente se pode discutir meritocracia a sério quando houver oportunidades iguais para todos -- e com ressalvas.

Afinal, antes dos "méritos" de cada um há valores (e há políticas) a serem construídas pela sociedade.

Fora disso, a meritocracia é mera retórica, tão séria e honesta no que toca ao mérito quanto um regime monárquico ou a hereditariedade econômica ou política.

Depois, ceteris paribus, qualquer sistema puramente sustentado na meritocracia vai se retroalimentando para produzir a "desigualdade", para criar círculos viciosos de uma racionalidade  formal,  para deformar a sociedade e para arranhar o desenvolvimento humano, desprezando a justiça social.

Ora, é natural que a trajetória de cada um -- e as suas histórias pessoais de ascensão social fruto da superação incondicional -- faça parte da construção do seu sistema de crenças e valores.

Todavia, enxergar o seu "caso" particular como a regra para a sociedade sem se atentar para o "ponto de partida" -- o tal do berço material e imaterial -- de cada um, é, no mínimo, um reducionismo inconsequente.

O problema é que grande parte da classe média brasileira tem neste fetiche da meritocracia -- novamente desmontado aqui -- a grande razão da sua característica conservadora ou reacionária.

Um grande exemplo disso é o comportamento classista dos médicos, em especial diante do ótimo programa "Mais Médicos", como aqui muito bem se analisou.

Longe de preocupações sanitárias e de pensar na saúde pública nos rincões do Brasil, o grande mote da investida atroz e felina dos médicos estava, simplesmente, na defesa da classe, na defesa do "mérito" de ser médico.

Afinal, pensam eles, passar no vestibular mais concorrido do Brasil, fazer o curso mais longo, um dos mais difíceis, mais exigentes e mais caros do país -- seja o ônus público ou privado --, é um feito cuja formação celebra o mérito; logo, não se poderia aceitar que qualquer um que não demonstre ter os mesmos "méritos" possa desfrutar das mesmas prerrogativas que os profissionais formados aqui, no caso, especialmente, os cubanos (em tempo: diante do desespero pela falta de médicos para tratar do vírus ebola na África, adivinhem qual o único país a colaborar efetivamente com a OMS e o "Médico Sem Fronteiras"? V. aqui).

Ora, eis o traço fenótipo que enigmatiza o reacionarismo da classe média nativa: a meritocracia está na base de sua ideologia conservadora.

Assim, também, grande parte da classe média é contra a política, pois em uma sociedade séria a racionalidade utilitária, a técnica cartesiana e a força motriz, e nunca a "política", são as únicas bases de todas as decisões públicas.


É contra um governante que não tenha saído de berço esplêndido e que não tenha tido a educação formal e tradicional, já que não há mérito em chegar no topo sem ter assim estudado.

É contra pagar tributos, uma vez que o dinheiro dela não pode ser apropriado por um Estado que o usa a serviço dele e dos outros.

É contra as bolsas-famílias, porque não há "mérito" (e nem estímulo) em ganhar dinheiro sem trabalhar, como aqui já descrevemos.

E é contra o sistema de cotas, na medida em que as condições étnica ou social não podem ser critérios de mérito.

Tudo, portanto, uma questão de "mérito", cujo ideia, geralmente, não subsiste e é absorvida na sua escassez ontológica quando nos referimos aos ricos -- nos quais há o "patrimonialismo hereditário" e, inclusive, a consecução de seus interesses por meio da latente captura do Estado, a quem finge contestar -- ou aos pobres -- nos quais qualquer potencial mérito individual, em máxima regra, sucumbe às suas secas condições de vida e ao vazio institucional, não lhe valendo a tese do mérito, sob pena de se enxergar, ainda mais, como um nada fracassado.

Todavia, condenar a classe média por pensar assim seria injusto, não obstante o justo seria eles compreenderam o "sentido da coisa".

Injusto porque a classe média brasileira motiva-se historicamente na sua percepção de que o Estado, senão um estorvo ou o bode na sala, nunca lhe foi "parceiro".


Ela, pois, se vê constituída exclusivamente sob os seus próprios méritos, e é na ideia de um ethos meritocrático que pensa deixar a herança aristocrática que nunca teve.

Mas, agora, é justo também cobrar-lhes o entendimento real disso tudo e a falácia do argumento, cristalizador do sujeito moral burguês tão bem descrito por Charles Taylor sob a ideia do "self pontual".

Ora, como o mérito sustenta-se em "valências" pessoais (dedicação, cultura, inteligência, habilidade...), ele serve apenas para apreciações meramente individuais, jamais para valorar a ordem social.

Assim, ele serve como princípio formativo individual, como juízo de conduta pessoal, jamais como diretriz ético-principiológica de uma sociedade, sob pena de enviesar-se pelas veredas do cruel e do intolerante.

E do reacionário.

Afinal, o vale-tudo da pérfida tese da meritocracia torna o ambiente social insustentável, pois permite atentar contra os valores sociais universais em proveito do acaso.

E o ocaso é da sociedade, ultradimensionando o êxito e estigmatizando o fracasso pessoais, como se tratasse de uma lógica do sistema a conjugação de ação e reação e como refazer o futuro dependesse da certeza de uma receita de bolo, atribuindo-se exclusivamente à pessoa e às suas valências as responsabilidades pelo seus destino.

Ora, infelizmente, a regra do destino numa sociedade tão desigual -- em termos de mobilidade social, inclusive -- e sob um Estado ainda tão ausente como o nosso está traçado nas estrelas.


E tal atroz perspectiva não pode ser miniaturizada pela seita cética da meritocracia, inclusive pelo fato de o nosso Estado ainda carecer de alternativas institucionais que modifiquem esta conjuntura social congênita.

Assim, nela institui-se a desigualdade com fundamento racional e legítimo, confirmando o arquétipo perverso que dá a ela uma falsa aparência de naturalidade.


Porém, pela sua lógica, a meritocracia calibra-se naquilo que tem "desempenho", independentemente de valores ou fins -- tem, pois, fim em si mesma.

Enfim, crer na meritocracia como "eureka social" esvazia o espaço público, murcha a arquitetura social das ordens coletivas e, principalmente, rejeita a atividade política e ignora a atuação do Estado, como aqui se professora.

Imaginar uma sociedade guiada tão-somente pela técnica, pelo desempenho e pela racionalidade do pretenso "merecimento", portanto, desmonta e frustra qualquer edificação de uma ordem democrática, plural e justa.

Uma pena é a classe média não querer atentar para isso.


  

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

# marcha avante, terra à vista



Há ainda quem pense – talvez por pouco pensar – que o capitalismo é apenas um sistema econômico.

Não, não... vai muito além, é claro.

O filósofo alemão Walter Benjamin dizia ser quase uma seita religiosa, com seus dogmas e seus mantras, a agir de modo onisciente e divinal. 

Já Max Weber dizia ser uma construção com base em tudo, tudo, inclusive uma "ética" própria.

Depois, e em suma, Das Kapital, em toda a sua profunda complexidade e amplitude, não surgiu por acaso, por rancor ou por mera estilística.

Mas a questão não está no reticente linchamento e na vazia crítica ao sistema vigente, com resultados estéreis, insolúveis, de pouca imaginação e nula concretude.

É preciso pensar, portanto, no pós-capitalismo como algo sério, absolutamente necessário na sua factibilidade e razoável na sua realidade. 

É preciso pensar em uma construção ainda indefinida, ainda sem nome, ainda carente de desenvolvimento, mas assente em novas instituições e estruturas organizacionais, razão pela qual não se pretende retroceder às ideias que efetivamente não deram certo, como, fundamentalmente, algumas das (poucas) implementadas pelo modelo soviético, in memoriam.

É preciso pensar para não se poder admitir esta miserabilização política, econômica e social, a restar o esvaziamento institucional à mercê do regime vigente – o capitalismo –, como se a sua dinâmica, o seu processo e as suas propostas fossem intocáveis, indiscutíveis e, como ousou escrever um certo autor, estivessem assentes no fato de que esta ordem representa "o fim da história".

Na borda que protege este perverso núcleo do espírito capitalista, o Direito, por exemplo, arromba a retina com tantos dos seus mecanismos a serviço desta ordem: pacta sunt servanda, propriedade privada, tributação regressiva, criminalização do inimigo, teoria da empresa, enfim, inúmeros ranços político-sociais que não devem mais servir como incondicionais institutos deste nosso necessário novo sistema.

Mas como se esperar a mobilização política diante do próprio cenário político hoje desenhado? Como se prospectar mudança na imaginação social com o poder midiático tão avesso aos interesses nacionais?

Se a culpa pelas más notícias não é apenas do carteiro e se a culpa dos eleitos ultrapassa o déficit cívico-cultural dos representados, como incentivar à revisão de conceitos e a reconstrução de estruturas e instituições?

A verdade, entretanto, nem sempre baliza-se na ideia de, simples e inocentemente, ser "contra-tudo-isso-que-está-aí" – ou sim, a depender da demanda e do ponto de vista, e da vontade e dos reais interesses.

Que nossos orgasmos intelectuais, portanto, possam ajudar a responder isso.

E contribuir para uma nova página e para uma melhor roupagem da nossa democracia, sem maquiaduras e sem máscaras.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

# maestros, cavalos, deuses e hinchas



Quando o Clube Atlético Paranaense entrar em campo hoje, na nova velha Baixada, pela Copa Libertadores da América, recomeçará outra batalha das guerras que representam disputar o maior campeonato de futebol do planeta.

Sim, meus amigos, a saga por esta Taça soergue-se como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.


É aqui, pela nuestra América, onde o futebol é jogado na sua essência, na sua pureza, onde maestros, corvos, deuses e hinchas desfilam juntos em epopéias dantescas.

Aqui é o "Inferno", meus senhores.

Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras sul-americanas. 

Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas.

São, sim, jogadores.

São heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do Céu.

Ora, não me venham com as lantejoulas das arenas alemãs climatizadas.

Nem as pompas dos gramados de pastagem de vacas holandesas.

Nem as purpurinas dos uniformes demi-sec franceses.

Nem a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas.

Nem o brilho comportamental da perfumada massa torcedora austríaca e seus canecos de vidro encervejados.

E nem toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonista.

Não, meus amigos, não. 

Este nosso jogo é incapaz de ter a beleza pornográfica de todos aqueles espetáculos europeus, de ter a fleuma civilizatória do bom selvagem do velho mundo e de ter o bolo bilionário de tantos euros.

Ela tem, diria Vinícius e batucaria Baden, "qualquer coisa" além da beleza. 

Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa, afinal, nesta Copa tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta. 

E mais.

Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor machucado, transborda em uma alegria sublime, sui generis, incompatível a qualquer outra de padrão europeu. 

Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelos mais depauperados amores, rasga-se e morde-se pelo mais irraciocinado dos amores.


E se chora, e se grita, e se late, e se morre, e se arrebenta a veia para que tudo acabe em um deleite que não se entope, que não se explica.

Porque não tentem convencer chilenos, uruguaios ou argentinos do contrário, pois todos sabem que as suas cores representam uma paixão, paixão que cada um sabe de cor, feitas apenas para serem amadas e para ao final sofrerem de um eterno amor. 

Como aqui, com o coração rubro-negro que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infinitos noventa minutos. 

Senhores, a Copa Libertadores da América é assim: feita de paixão, feita de sangue, suor, cuspes e lágrimas, como em nenhum outro canto desportivo da Terra se vê ou se tem.

De hoje até o seu fim, nada mais importa neste reino de Bolívar, Artigas San Martín.

E nada mais nos restará, até sabermos qual clube será coroado, sob as bênçãos divinais, o maior da vez. 

Saravá!