quarta-feira, 31 de agosto de 2016

# calvário (e o amanhã)



Um dia de humilhação, uma dia de suprema vergonha nacional.

Seremos, de novo, uma republiqueta de bananas, enxergada pelo mundo como um paraguayzão com vista para o mar.

Uma terra na qual se atropela o povo, e se passa por cima do interesse nacional, e se perverte a "ordem", e se destrói o "progresso", sempre em nome das mesmas vontades que há quinhentos anos por aqui reinam.

Desta ópera bufa, o resumo é muito, muito simples: sabidamente cansada de perder eleições, a elite brasileira conjura-se numa aliança nojenta para acabar com a democracia -- e, pelas frias mãos do PSDB, se preparar para em 2017 dar o golpe do golpe.

Repita-se: neste momento em que notórios canalhas se tornarão oficialmente golpistas, será trocado um governo por outro completamente oposto sem passar pelo voto da população.

Não há legitimidade, não há justiça, não há verdade, não há lógica.

O grupo que usurpa o Poder é o grupo do programa "Ponte para o Futuro", na realidade um túnel para o passado, com a fixação de sórdidos tetos para investimentos públicos, para programas sociais, para direitos trabalhistas, para saúde, para educação etc., de modo a retalhar todas as franjas de um mínimo (e tímido) Estado Social a duras penas erigido e que promoveu ações fundamentais para as classes populares (pobres e miseráveis) e as regiões periféricas (nortistas e nordestinos) do Brasil.

Bem, daqui a não muito tempo a História fará um registro implacável deste nosso período e deste funesto 31 de agosto de 2016.

Poucos, porém, conseguem ou querem se dar conta disso.

Iludidos pelo presente que as lentes da mídia lhes grudam e pelos umbigos que os movem, a grande maioria não se vê no espelho do futuro.

Na verdade, ela nem mesmo enxerga um palmo à frente dos seus empinados narizes.

E por isso é incapaz de imaginar que, em mais ou menos tempo, estará numa sala de estar, com os filhos ou netos sentados ao sofá, e terá que explicar o que foi este atroz e lamentável momento do Brasil.

E o que ele fez, e o que ele falou, e o que ele escreveu sobre isso.

E quem apoiou, e quem defendeu, e por quem brigou.

E como se calou, e como se prostrou, e como se equilibrou no pútrido muro das lamentações que apenas ratificavam a ruptura da ordem democrática brasileira.

Nesta sala do futuro, cara a cara com a verdade da História, é claro que não confessará ao seus herdeiros o que (não) fez.

É claro que contará historinhas da carochinha tendo por pano de fundo a liquidez da ética, da moral e dos bons costumes.

Mentirá, embora nem o nariz empinado e nem o drama de uma consciência vulgar, guardados sob o botox da mediocridade, crescerão.

E fingirá, com a maior caradura do mundo, que não foi um daqueles que suportaram o golpe no Brasil, mas apenas um dos milhões que era "contra-tudo-isso-que-aí-está".

Ao contrário, passará a mão na cabeça do futuro e dirá, com safadeza ímpar: “Foi um tempo triste aquele, meu filho. É melhor esquecer...”.

E lhe dará as costas, certamente constrangido, seguindo com o rabo preso entre as suas pernas.

Assim como sempre deu as costas para o Brasil.

Afinal, esta turma das orlas e dos castelos acha-se vivendo em outro lugar.

E acredita que o Brasil que retroagirá até afundar no abismo sócio-econômico não é o Brasil deles.

Mas se enganam, ouso crer.

Desta vez, diferente de outrora, o povo deverá arrastar esta gente junto para as trevas e para o caos construídos por um governo ilegítimo, sujo e tão perecível quanto um pote de coalhada caseira.

E, com este fim, das nossas trincheiras não esmoreceremos contra otários, hipócritas e canalhas que participaram, direta ou indiretamente, desta farsa.

Encararemos um a um, dia a dia, passo a passo, canto a canto.

Pois se a democracia era um mero detalhe, a paz social também passa a ser.

Neste dia de luto, marchemos altivos na luta e na resistência popular.

E recomecemos a formar os nossos batalhões, para o sublime orgulho de em pouco tempo vingar este golpe.