terça-feira, 2 de maio de 2017

# pela luz dos olhos deles



Se tantos tentam ser o pai que queriam ter tido, no espelho dos meus filhos tento ser um pouco daquele que tive.

E se por missão paterna este é o meu modelo, a própria paternidade me faz ver também um outro modelo.

O modelo do amor pleno, do amor incondicional, do amor maternal.

Pois é, ser pai me faz regredir para poder ver a minha mãe.

É na mãe dos meus filhos que consigo transpor a minha própria mãe, e agora poder ver, com os olhos que esta terra há de comer, tudo o que tive na minha vidinha infante.

Sinceramente, não tinha a noção do tanto de amor que cabe na criação de um pequeno ser – neste meu cotidiano, passa um filme do fim dos anos 70 cujo enredo é o amor maior do mundo a mim tributado.

Agora, de perto, já não mais duvido que quase dê para pegar no tanto de sentimentos que se materializa nesta relação de mãe e filho – e, sejamos francos, da mãe para o filho.

Ora, bem miúdos parece que retribuímos tudo instintivamente, meios selvagens, numa ideia primitiva de desejos felinos (ou primatas) de saciar nossas orgânicas vontades.

E, já crescidos, lembramos que não conseguimos lembrar tudo o que, plena e insistentemente, as nossas mães faziam por nós naquela época da plena dependência.

Eis, pois, o mais incrível: as mães tem plena ciência de que toda aquela oferta não lhes garante nada, sequer a gratidão futura que se costuma ter da memória em concreto, afinal, o que passa nos primeiros trinta meses de vida fica apenas guardado num subconsciente semântico qualquer – e, convenhamos, talvez só isso explique o que de nós, filhos, virá pela frente...

Hoje, vendo o tamanho e a intensidade da atenção, da abnegação, do zelo, do carinho, do desvelo e do amor que a mãe do Benjamin e do Santiago dedica a eles faz provocar em mim um sentimento de infinda dívida.

Vendo o que hoje vejo em minha casa, em cada fim de dia, em cada fim de semana (e até o fim do mundo), fico mais do que nunca com a certeza de que serei um eterno devedor de minha mãe em seu amor total, sem medida e sem condições.

Amor de uma época da qual jamais me lembrarei.

Mas que, se não carregava na viva memória e se achava mesmo que não via, agora posso ver e mensurar o quanto de amor sob o qual vivia.

E pela luz dos olhos dos meus filhos sei, enfim, o que não sabia com meus tão poucos anos.

Neste reflexo, estou a amar um amor de já quarenta anos.