quarta-feira, 1 de junho de 2016

# uga-uga



Não entendo de muitas coisas, muitas.

Uma delas, e a qual tem me causado uma certa angústia, é esse negócio chamado “emoticons”.

Talvez por não ser muito ligado às redes sociais, às conversas instantâneas on-line e à similaridades do gênero que pretendem condensar (e condenar) o mundo a algumas onomatopeias ou a sinais positivos da vitrine humana (v. aqui), posso não captar a mensagem dos símbolos que pretendem legendar as conversas.

Mas realmente me constrange ver o que, para mim, significa um retrocesso às cavernas.

Saramago, pouco antes de morrer, já disse isso, ao se deparar com o hábito pós-moderno da comunicação (v. aqui), e realmente parece que regredimos a ponto de, daqui a pouco, voltar a nos comunicar por “grunhidos”.

O gosto, ora, é imenso por essa nova modalidade de arte rupestre: são “carinhas com sorriso” para dizer, por exemplo, obrigado, são “palmas estaladas” para falar, simplesmente, parabéns, são “polegares para baixo” para falar não gostei... parece-me, pois, a bancarrota da comunicação escrita.

Com qual fim? Com qual propósito?

Joga-se tudo, comodamente, no lombo do tempo ou da dinâmica de mundo, como se isso resumisse alguma coisa.

A propósito, e vou além, parece-me um prenúncio da falência do diálogo – o que merece outra brevíssima digressão.

Dia desses dois bons amigos comentavam a loucura do “twitter” e seus pistoleiros mastodontes à caça de homo sapiens (v. aqui).

A mim, meio curumim nisso, me parece que boa parte desta mais nova ágora pós-moderna funciona mezzo como um palanque para tipos celenterados que buscam ali seus 140 caracteres de fama, mezzo como um divã para verdadeiras anêmonas despejarem seus recalques e frustrações, tudo sempre sob uma lógica funcional ausente de racionalidade e de crítica, sem corpo e sem eco, finada em si, numa tola ilusão de que podem alcançar os seus destinatários.

Em ambos os casos, mero reflexo disentérico de uma gente capenga, de quengas incapazes de construir ideias e, principalmente, de aceitar a conversa, a dialética, de querer ouvir, de saber falar e de ousar pensar, unidimensionalmente movida pelo instinto narciso de posar ou covarde de ofender.

Portanto, se não está a gritar debilmente, esta massa está despejando palavras sem pés, sem mãos, sem cabeça, sem tronco, sem nada, simplesmente pelo "prazer" de comentar, retrucar, dar pitacos sobre o que não parou segundos para refletir, num arraial de frases feitas e burras que apenas revelam para o mundo quem são (seus valores) e o que representam (seus fetiches).

Claro que não pretendo qualquer ruptura no avanço tecnológico que tão bem faz na dose certa das nossas necessidades – inclusive para aquelas que ainda nem criamos... –, como também não imagino que todo bate-papo informal deva exigir teses, ritos e uma pomposidade medieval.

Contudo, o abuso no uso dos meios virtuais e o repúdio à falta de inteligência e de decência no trato com tantos involuntários interlocutores devem merecer máxima atenção.

E, por vezes, o recuo neste campo de jogo e o pujante silêncio diante dos indesejados ataques de ratos e rampeiras que se escondem no anonimato formal ou material da internet sejam as melhores soluções.

Afinal, estricnina e antirrábica só funcionam, por ora, no mundo real.