quinta-feira, 30 de junho de 2016

# nascentes e poentes


A distância provoca-nos sempre a refletir.

E se é comum lamentarmos que não estamos vendo as nossas crianças crescerem, máximo lamento acomete também para quando não estamos vendo os nossos pais envelhecerem.

Pode ser profundo isso, pode ser uma filosofia de araque ou pode ser apenas reflexo da incompatibilidade da relação espaço-tempo a que me submeto.

Como a física proíbe a presença real de corpos materialmente distantes, não notamos que o tempo para as nossas crianças e para os nossos pais incumbe-se de transformá-los em novos corpos, crescidos e recolhidos, agigantados e enrugados, numa dinâmica natural que desobedece a ordem que tanto gostaríamos.

E por não querermos ver este tempo passar, inconscientemente nos escondemos dos seus marcadores, dos seus símbolos, dos seus sinais.

Porém, à surdina, eles fazem questão de chegar, como se quisessem nos fazer ouvir o uivo pungente dos seus incansáveis passos.

E, de repente, a vasculhar por um armário à procura de um livro esquecido, vejo-me na mão com uma ampulheta e brinco de ver o tempo.

Cuco, de pulso, de parede, da torre, da igreja, em todos esses você pode até conseguir despistar o avanço a galope dos segundos e esquecer.

Entretanto, do escorrimento arenal da ampulheta não se escapa, cuja marca da passagem do tempo é de clara e destemida tirania.

Ali, sem filtros, é a vida que corre, que escorre, implacável e intransigente como uma onda sísmica do mar.

Por isso, ao olhar para as fotos expostas sobre a bancada do escritório, hei de confessar: para não ver este tempo correr, recolheria toda a areia do mundo.

Com ela, montaria um nababesco e indefectível castelo onde viveríamos para sempre – e onde seríamos as múmias mais felizes da Terra.

Porém, se com as nossas crianças o curso é promitente, repleto de expectativas, com múltiplos sabores e num retilíneo movimento para o alto e para avante, com nossos pais é tudo mais cru e mais cruel, pois a progressão geométrica da velocidade da parábola em queda livre é cruciante.

Pois é, as nossas crianças vêm, os nossos pais vão... é o vir e o ir, desoladamente inconjugáveis, como aqui e aqui esboçamos.

E me pergunto: afinal, quantas vidas serão precisas para viver tudo o que necessitamos viver com algumas pessoas que tanto amamos, antes delas crescerem e antes delas se despedirem?

Não sei, mas posto que me fio na ideia de uma só, estilhaço-me na realidade.

É que receio estar passando tudo rápido demais – e o controle remoto não é meu.



quarta-feira, 22 de junho de 2016

# toucinho



Cadê o lucro todo que estava ali? O gato comeu.

Cadê o gato? Foi pro mato das Bahamas.

Cadê o mato? Os advogados queimaram.

Cadê os advogados? No uísque on the rocks afundaram.

Cadê a uísque? Os laranjas beberam.

Cadê os laranjas? Foram pra cadeia.

Cadê a cadeia? Tá cheia de preto e pobre.

Cadê os pretos e pobres? Os ricos vêm chupando.

Cadê o ricos? Foram à busca de outro trambique.

Por onde é o caminho do trambique?

É por aqui... por aqui... por aqui...

[cócegas]

É, pois, a velha e velhaca lógica deste sistema: privatiza-se o lucro nas franjas do Estado,
socializa-se a quebra nas barbas da sociedade.

Neoliberalismo na veia, à moda da casa.

E o pulso, ainda pulsa.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

# ítalo e o jacaré



Ítalo decide morrer.

Mas Ítalo não era a adulta Veronika cheia de inquietações filosóficas do livro de Paulo Coelho que virou filme.

Era, sim, um piá de dez anos, que jamais lera um livro, que teve uma vida igual ao filme de terror de milhões de crianças negras e pobres de um Brasil real cujo trágico desfecho é quase sempre óbvio e infeliz (v. aqui e aqui).

Sim, porque tem crianças que nascem num outro Brasil, num Brasil de faz-de-conta, num Brasil-arco-íris, num Brasil-castelo, num Brasil-resort, num Brasil como a redoma exclusiva que de colosso e gigante só tem a cegueira de seus internos, tão branca como aquela da extraordinária fábula de Saramago.

Vocês já pararam para imaginar o que é uma criança de dez anos sentada no banco de motorista, ao volante de um carro cujos pedais mal são alcançados pelos seus pés?

E agora conseguem imaginar a mesma cena, mas com o detalhe de que ela estava a fugir da polícia, roubando um carro após invadir um condomínio no bairro do Morumbi (SP) ao lado de um colega da mesma idade?

Como desfecho, a polícia atira-lhe na cabeça: Ítalo era um cabrito marcado para morrer.

Em paralelo, numa realidade particular, Benjamin e Santiago tiveram o destino divino de nascer naquele tal castelo, de ter pais que não dependem do crime – crime de preto ou de branco – para viver, de ter roupas novas no armário e iogurte de morango na geladeira, de ter cama e banho diários, de ter gibis e desenhos animados educativos e, em especial, de ter tempo e amor dedicados às suas criações.

Portanto, lá e cá, são como duas linhas de vida que nem no infinito se cruzarão.

Ora, nascer no Brasil e em qualquer rincão do planeta em que a desigualdade é avassaladoramente mortal – ponha-se os EUA nessa conta – ainda é um manifesto “destino”, roleta que aos montes fabrica produtos e mais produtos de gerações eternamente alijadas de oportunidades e de futuro.

E quem desamarrará isso, dando liberdade para que os Ítalos soltem-se das cordas malditas que os asfixiam eternamente na miséria, flertando com o nada bandido e viajando no pêndulo que vai do vazio da fome ao cheiro da cola?

E quem transplantará esta vida seca de sempre, soterrada nos escombros de um não-lar, amálgama do amargo de um pais em ruínas?

A sociedade, minha gente.

Eu, você, ele, todos nós que ativamente compomos este amontoado de indivíduos e que formamos o Estado, mas que dele não queremos participar, e nem para ele votamos com a consciência desligada do umbigo, e nem sobre ele (e sobre o nosso papel) refletimos e pensamos – pelo contrário, continuamos a propagar pelos cantos das ruas e da internet frase-feitas de uma ideia reacionária, higienista, fascista e tão excludente de mundo.

E, vamos lá, por que em regra isso não acontece na Escandinávia, no Canadá, em Cuba, em lugares onde a desigualdade é muito menor e o Estado maximamente presente e atuante nas questões sociais?

Elementar, meus caros.

Neste ambiente de tudo ou nada tropical, de uma gente que só tem o sol que a todos cobre (v. aqui), um único projeto na nossa história imaginou transformar a realidade institucional: os CIEPs, as escolas em tempo integral dos gênios Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, diuturnamente boicotadas pelas elites brasileiras, dotadas de um narcisismo primitivo que sempre enxergou o problema no outro.

Não era, e nunca teremos, a solução mágica para tornar isso aqui outra terra.

Porém, toda a restruturação do processo pedagógico-educacional e a progressiva redistribuição da renda nacional – e a "política", no final das contas – são as chaves para que um dia possamos responder: o que motivaria Ítalo a não fazer o que fez?

Enfim, o episódio deste menino é mais um nítido retrato desta "banalidade do mal" na veia, ao vivo, a cores (v. aqui), e que revela a pequenez da nossa gente.

Sim, dá-me profundo lamento saber que uma criança morta por uma bala na testa não tem o mesmo pesar social daquela que foi arrastada, dias atrás, por um jacaré num lago da Disneilândia.

Convenientemente, talvez.

Afinal, neste Brasil, o jacaré somos nós.



quarta-feira, 15 de junho de 2016

# licor de jenipapo



Sucupira é aqui, meus senhores.

Sucupira é hoje o Brasil, e que me desculpe o novelista Dias Gomes com seu "plágio" mal acabado.

Ou, ao que parece, dela querem dele fazer.

Afinal, dia após dia o nosso país produz um universo dramatúrgico sem igual, com pessoas cujas atitudes são absolutamente surreais, a fazer valer a eterna frase de que a realidade é mesmo insuperável -- como, talvez de modo inigualável na nossa História, naquele funesto domingo de abril, que há de ser sempre lembrado (v. aqui).

Bem, deixemos de lado os "entretantos" para partir aos "finalmentes".

Vejam este vídeo, aqui, sobre a Câmara Municipal de Campinas -- atenção, não se está a falar de alguma ilhota de algum afluente da margem direita do Rio Amazonas, mas da segunda maior cidade de São Paulo -- e notem a suprema semelhança dos ínclitos vereadores com o folclórico Odorico Paraguaçu.

Vejam isso aqui, sobre o direito de ser idiota em público, a rechear uma manifestação equina e bovina de um bando (ou cavalaria, ou manada, ou cáfila, ou qualquer outra coletividade irracional), e percebam a íntima identidade das suas ações com o jeitão das Irmãs Cajazeiras, dentre outras figuras de Sucupira. 

Vejam, aqui, mais um dos tantos episódios de doidice, de alienação e de estupidez avistados pelas arborizadas ruas brasileiras, os quais revelam uma gente cujo nível faria engasgar o esquisito Dirceu Borboleta, o sóbrio Nezinho do Jegue e o alucinado Zelão das Asas.

Leiam isso aqui, sobre as fofocas não fofocadas por pseudo-ouvintes que não ouviram uma inventada conversa e, a partir dela, todo o novelo interpretativo (e lunático) que metafisicamente se constrói.

Leiam aqui, sobre um jeito pouco (demasiadamente pouco) humano -- eu diria, no mínimo, abominável -- de contestar e reprovar um homem público, mas que não foi levado em consideração no momento do seu próprio velório.

Leiam aqui, sobre como um picareta, perante o complacente Poder Judiciário, desdiz uma delação para de novo delatar, criando a jabuticabal "delação da desdelação", cujo modus operandi insiste em merecer o apoio do magistrado de plantão.

E mais, e mais, e mais... pois sobre toda a epopeia golpista de dinossauros, mercenários e amarelinhos,  avolumam-se notícias num ritmo delirante e que escancaram o mofo que insistem em borrifar sobre o estado brasileiro e o escracho geral de um rocambolesco enredo.

Afinal, o inferno é o limite para serem vistos "tipos" -- vejam-se os personagens deste circo, como, p. ex., aquela advogada, a esotérica Janaína -- e promovidos "atos" sempre tão surpreendentes, como se produzidos às custas inversas daquele bem-amado licor de jenipapo, agora desencadeador dos espíritos mais moralizantes (e reacionários) da sociedade.

Mas, antes de se chegar até lá, faz-se a hora de se construir não um cemitério para o afundamento dantesco -- como assim queria o velho Odorico --, mas um "hospício" no qual se consiga embutir toda esta gente que se cancera pelas orlas brasileiras.

Serão essas pessoas, pois, as nossas salsichas.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

# hecatombe



A necropsia do futebol brasileiro, depois da reveladora noite de hoje – um outro sete a um –, é absolutamente urgente e imprescindível.

E nem entrarei no mérito do jogo que nos eliminou na primeira fase da Copa América: um primeiro tempo muito bom da seleção brasileira, um ilegal gol peruano etc.

Como aqui já dissemos – e aqui sucumbimos, num périplo pelas cinzas de Copacabana –, o velho e rude esporte bretão por nós praticado tem se mostrado, há tempos, inválido, esquálido, pálido, pouco promissor e nada alvissareiro.

A cantilena do futebol-mágico de outrora, sedimentado no inconsciente do imaginário coletivo produziu um sentimento que, de novo exemplarmente, tem nos impedido de reconhecer a necessidade de viver a pragmática realidade e de sobreviver ao nosso ego, cujo impulso parece incapaz de admitir a nossa inferioridade e, assim, inverter a nova ordem do futebol.

E por isso, e do modo ainda mais sinistro, outra humilhação histórica da seleção canarinho agora exige reflexão, mudança e avanço – e tudo imediatamente.

Se aquele julho de 2014 não bastou, e era isso que agora precisávamos para enxergar que no espelho o reflexo já não é belo, está aí, tudo feito e escancarado, sem a ilusão de vitórias circunstanciais e das conquistas de conveniência.

Hoje, falta-nos quase tudo, e vê-se claros problemas em tudo.

É emocional, é tático, é técnico, é estratégico, é organizacional, é de jeito. 

O jeitinho dos nossos treinadores é obsoleto, caricato e facilmente se desmancha no ar quando se requer a mínima rearrumação e a mais urgente reforma em campo.

A organização estratégica da nossa seleção é imoral e ordinária, típica de uma administração fechada e de fachada, mafiosa e mafiona.

A técnica e a tática do nosso futebol são reiteradamente desprezadas – tudo fica iludidamente resumido à viuvez da arte e do espírito brasileiro de se jogar futebol, na esperança eterna de que nossos poucos gênios possam salvar a pátria e que tudo o mais é coisa das ciências e de chatos tabuleiros.

E, por fim, o aspecto psicológico de nossos jogadores é alçado à quintessência, como causa e solução de todos os males, à espera da sacrossanta auto-ajuda de decoradores da alma, como se o futebol fosse o resultado aleatório de eventos comandados pelo destino e pelo coração.

Para bem além, a grande crise é estrutural, de base, de planejamento.

A decisão inicial é fácil, simples e inodora: exploda-se esta CBF – bandida e maligna – e se enterre, como lixo atômico, os seus restos.

E que só nos sobrem os restos mortais do nosso futebol.

Restos que, após os sucessivos vexames, sejam o humo da nossa potencial transformação.

Fora e dentro do campo.

Para que, assim, até 2018 salvemos não só a seleção.

Mas o futebol brasileiro, hoje de saudosa memória.



sábado, 11 de junho de 2016

# atleticanas (II)



Acostumado ao clima da sua terra, o Atlético alcançou neste noite uma das mais improváveis vitórias da temporada.

E, atenção, não bastasse o que se via naquele primeiro tempo tétrico contra o São Paulo – no qual perder por um gol foi lucro –, tinha no lombo um amargo tabu: há 33 anos não vencia naquela casa adversária.

A última vez?

No histórico Brasileirão de 83, vitória simples, gol de Assis – ele, ao lado do seu inseparável Washington, os meus primeiros ídolos rubro-negros (v. aqui).

Mas a neblina que baixava, o minuano que soprava e as estalactites que brotavam naquele pálido gramado do Morumbi pareciam anunciar o fim da longeva sina.

Inspirado nos cantos embotados de cimento e lágrima que recheia a selva de pedra são-paulina, a baliza atleticana era um concreto armado intransponível, parecia um corpo fechado como se preparado não no cruzamento da Ipiranga com a Av. São João, mas numa encruzilhada remota do bairro do Umbará.

Faltava, apenas, cutucar a onça tricolor, indo para o jogo, aceitando a bola e desrespeitando a lógica futebolística que ali insistia ser posta em cheque.

E aí veio a intervenção de vestiário de Paulo Autuori, que corrigiu os (seus) erros e trocou os zeros escalados de início – rodízio sem elenco é certeza de vexame, ora pois – por algo que pareceu duas dúzias: Walter e Nikão, titulares poupados que mudaram o jogo.

Com eles, e mais o fôlego etíope de Deivid e o pulmão biônico de Otávio, o Atlético passou a ser frio e calculista, virando o placar.

Uma vitória inesperada, de um time que ainda espera se encontrar.

Uma vitória, enfim, de quem conhece como ninguém o futebol on the rocks.



# romantismo de calendário



Das tantas esquisitices sedimentados pelo mundo, vasto mundo, este negócio de "dia dos namorados" – como, na mesma onda, "dia" das mães, dos pais, da vó, do irmão etc. – é um dos mais estapafúrdios.

Não fosse o contagioso apelo mercantil – que insiste em se espraiar por tudo que é canto e circunstância da vida –, qual seria a razão de se fixar um "dia" para isso?

Depois dos anos dourados da nossa adolescência, os sujeitos precisam se esforçar muito, inclusive entre si, para entender e extrair algum valor disso.

E, atenção, não se está a falar de valorizar mais ou menos o negócio (!), mas, simplesmente, de desconhecê-lo, desconjurá-lo, excomungá-lo – caso fosse abusar do vernáculo diria que a coisa não se discute no "plano da validade", mas no da "existência".

Trata-se, pois, de um engodo, sem noção e reflexão, e de uma ciranda, nauseante e impúbere, sob a qual milhares de casais medusicamente rodam e se fartam, hoje ainda no alucinógeno ritmo das redes sociais.

Ou algum sentido há em mover mundos e atravessar fundos para lotar lugares ao lado de outros tantos mil pombinhos erguendo desumanos (ou demasiadamente humanos) brindes?

Ora, o amor, a paixão, a alegria, o carinho, a devoção, o tesão, a comunhão e a entrega total à vida amada festejam-se diuturnamente, no dia a dia, numa segunda-feira, num dezembro, num castelo, num sofá, num samba, num circo, no seco, no frio, na chuva, nos porres, na gripe, na cama, na praia, na varanda, na gangorra, na fila do cinema, num banquete na cozinha, num pico da neblina, num lavar-de-louças, no caminho da areia de uma praia deserta, em qualquer canto de qualquer momento, ao natural, simples, espontaneamente, comme il faut.

Tudo, pois, longe, muito longe, da regra de hábitos tabelados para uma data criada do nada e para o nada – ou para o tudo fetichizado da moda comercial e vulgar.

O que, portanto, faz o gesto plastificado, pasteurizado, pleonástico. 

E torna o momento vazio e como água em estado gasoso: incolor, inodoro e insípido

E soa, enfim, como um mugido de testemunha de presépio, na busca frenética de se cumprir à risca a agenda e os ritos contados pela narrativa das vitrines e dos vizinhos. 

Tudo bem cronometrado, datado, selado, registrado e carimbado – se quiser voar por entre as curtições mais ou menos virtuais.

Como bem-me-quer o costume, é claro.



sexta-feira, 10 de junho de 2016

# a boca no trombone



Abelardo Barbosa cunhou a célebre frase: "quem não se comunica, se trumbica".

E o Governo Federal – tal qual todo governo, de qualquer instância, que insiste em enfrentar os alemães e seus canhões e as grandes questões nacionais – parece que só agora quis enxergar o tamanho deste problema e como isso funciona.

Nesta noite, a ótima entrevista do jornalista Luis Nassif, na TV Brasil, foi apenas outra amostra disso (v. aqui).

É verdade que neste nosso sideral espaço virtual já se falou aos montes sobre isso (v. aqui, aqui, aqui...); entretanto, nunca é demais voltar ao tema. 

Bem, andiamo.

Ainda pior do que não (saber) se comunicar, é insistir com o autoflagelo e a falta de esforço – aquela não proposital, é claro – que murcha as ideias e frustra as intenções.

Não voltemos, porém, ao lamento cândido e inocente que anseia por "justiça" nos meios de comunicação, por uma grande mídia "imparcial e independente", por informações "isentas de interesses privados" e por uma imprensa cujas notícias são os fatos e não as opiniões.

Certos de que isso, como diria o alegórico Pe. Quevedo, "no ecziste" – afinal, meus caros, é um negócio indevidamente regido pelo "mercado" , coloquemos a mão na massa para implementar formas de mitigar os efeitos daninhos desta erva que corrompe a mente e o ideário da população e que mina o bom governo.

Não se fala aqui de se fazer propaganda ou promover hagiolatria, fala-se simplesmente em "informação".

Ora, encaremos a realidade: nada, nada ou quase nada do que o Governo fazia chegava aos olhos e ouvidos da massa.

Tudo, tudo ou quase tudo que se faz em termos de políticas públicas, de ações governamentais e de avanços, de alcances e de alvissareiro não chegava massificado em nossas casas.

Pelo contrário, a alvorada que diariamente surgia era vestida de sordidez, era maquiada de um turvo preto e se fixava como sinistro espantalho, sempre a anunciar o caos e a massacrar fatos, dados, nomes e notícias.

E o Governo, de verdade e concreto, se calava e se afastava cada vez mais da nossa gente. 

E, enfim, não se adonava da própria voz.

É claro que muita – muita! – gente vê e sente na pele o braço estatal de apoio, de amparo, de ajuda e de fomento.

E para estes milhões a farsa midiática é desnuda e os surtos da imprensa são em vão.

Mas para toda uma outra multidão, o silêncio e a ineficácia comunicativa do Estado sempre foram constrangedores e nefastos.

E suicidas.

E homicidas.

O Governo do PT, pródigo em cometer erros inconcebíveis em diversos planos, também insistia em conformar um Ministério das Comunicações doce e manso, cordial como o homem brasileiro descrito nas "Raízes do Brasil"; a SECOM, por sua vez, esvaziava-se no seu fim e se anulava nos seus meios; e a EBC trabalhava mal, muito mal, com uma NBR e uma TV Brasil fracas, chatas e brochantes  salvo raras aparições em idéias excepcionais que confirmam a regra – que faziam por merecer a microscópica audiência que sempre tiveram.

Em suma, meus raros leitores, isto que temos na estrutura de comunicações nunca bastou para levar o balanço, as obras e as políticas de Governo aos brasileiros, e para libertar ambos das amarras canalhas dos donos da informação.

No plano interno já se sabe que isso só tem conserto com o fechamento das torneiras que sustentam e fomentam os grandes grupos do país – lembre-se que são torradas fortunas em publicidade masoquista que, ao cabo, só engordam o bando – e, elementar meus caros, uma Ley de Medios, ampla, intensa e irrestrita (v. aqui).

E não se venha com a ladainha de "censura" ou coisas do gênero;trata-se, sim, de medida que radicaliza a democracia e a república, nos estritos termos do Capítulo V, Título VIII, da nossa Constituição.

E fora, como fazer para levar esse nosso mundo ao resto do globo, opondo-se à avalanche reacionária e colonialista dos gigantes conglomerados de mídia que insistem nas deslavadas mentiras de um pensamento único e unilateral?

No âmbito dos BRICS, China e Rússia montaram poderosos meios de difusão de informações: a agência de notícias Xinhua é um grande exemplo de competência e efetividade (v. aqui), a televisão estatal chinesa (CCTV) exibe programas em diversas línguas com material de notória qualidade – e até em espanhol (v. aqui) – e a Rússia já tem uma TV em língua inglesa que, vejam só, contrata ilustres âncoras e jornalistas mundo afora (v. aqui).

Pois bem, e o Brasil?

Continua trancafiado na Globo, nos jornalões, nos grupos regionais (e internacionais) de mídia e na cabeça conservadora da elite "formadora" de opinião.

Em suma, Dilma, Lula e todo governo popular e de centro-esquerda tinha que ir à TV -- como aqui se ensina.

Toda semana, em horário nobre, 10 ou 15 minutos dizendo o quê e como faz.

Tintim por tintim, nos mínimos detalhes, de modo claro, corajoso e contagiante.

E explicando, deixando claro as responsabilidades e atribuições de um Congresso que insistia em boicotar e chantagear a todo instante.

Metia o Poder Legislativo na vitrine, para que toda a população veja e saiba o que faz.

E acabava com a falsidade dos discursos e a dissimulada ação de parlamentares que sempre chegavam maquiadas aos holofotes da grande mídia.

E por que não expor o Judiciário, o nosso irresponsável (a quem responde?) e irreparável (por que nunca erra?) poder? Diz, fala das grandes ações que o Estado perdeu e das grandes decisões que os tribunais superiores tomaram.

Isso tudo é pressionar ou mitigar a independência destes dois poderes?

Não, isso é transparência, na TV, na veia, de verdade, para todos verem, ouvirem e refletirem.

E também a sobrevivência prática e moral da nossa democracia.




quinta-feira, 9 de junho de 2016

# anos incríveis



Reconheço que desconheço o repertório de Joe Cocker, britânico do blues e do rock´n roll que há pouco tempo morreu.

Mas uma música eu bem conheço -- e ela me é suficiente para dizer que conhecia Joe Cocker.

"With a Little Help from Friends", a canção que explodiu o domingo mais hippie da história, para mim -- que lá esteve apenas em sonhos e viagens surreais -- sempre foi mais do que a grande canção daquele terceiro dia em Woodstock.

Afinal, ela é a eterna música que abre o segundo maior seriado de todos os tempos (depois, claro, deste aqui...).

Falo de "Anos Incríveis", que chegou nas telas da TV brasileira logo no início dos anos 90.

Ele tratava das angústias, das dores, das dúvidas, das desilusões, das conquistas, das paixões, das alegrias e, principalmente, da família e dos amigos de um guri de quase 13 anos -- idade essa que, com o andar das temporadas, ia aumentando, assim como ia envelhecendo quem assistia.

Kevin -- o guri -- e a sua trupe viviam no agitado EUA do final dos anos 60, época em que o mundo entrava numa roda lisérgica de cultura e contracultura, liberdade e repressão, sexo e canhões, drogas, paz, torturas e amor.

Eu -- um guri -- vivia com minha trupe numa outra realidade de tempo e espaço, mas num mesmo momento em que tudo começava a acontecer, a ter forma, a ter cheiro, a ter gostos e desgostos.

A vida, pois, já começava a não ser tão doce.

Kevin e eu, tolos como sói acontecer para mancebos naquela fase, víamos tudo com os olhos de pirraça -- em matéria de olhar as coisas éramos, pois, quase como Capitus e os seus "olhos de ressaca".

Movíamos sob a contestação intransigente da vida em casa e a discussão absoluta com pais e irmãos.

O pai deixava de ser o máximo herói para se ter os superamigos do colégio; a mãe, tinha seu amor roubado pela certeza absoluta da eterna paixão pela menina da sala do lado; e as irmãs, figuras marginalizadas de uma intratabilidade que se pensava óbvia.

Eram assim as certezas de quem saía para o mundo e que tinha no lar uma montanha-russa de amor e ódio, de respeito e revolta, de ninho e túmulo.

E na série da TV quem estava ali era eu, e não Kevin, na ilusão de que a semelhança dos casos e dos diálogos com a própria realidade era exclusividade minha, algo bem típico de quem nesta idade crê que o mundo gira em torno de si, como aqui já lembramos.

Neste fim de noite revendo alguns dos episódios, miro-me na nostalgia exemplar daquele meu tempo.

E para tantas coisas -- inclusive aquelas da montanha-russa do convívio caseiro --, as lembranças são espetaculares, de momentos incríveis de uma época que se poderiam bem repetir por sei lá quantas vezes.

Agora, se por nada trocaria todo aquele tempo em que sempre tive o pai herói, a mãe guardiã e as minhas irmãs como as eternas parceiras desta vida.

Também por nada trocaria esta realidade ao lado da mulher amada e dos meus filhos.

Lá e cá, todos anos incríveis.






quarta-feira, 8 de junho de 2016

# bento carneiro



Em que mundo vivem estes magistrados (v. aqui) e estes membros do Ministério Público (v.  aqui)?

Não ouso imaginar o que passa pela cabeça da maioria dessa gente.

Duvido, porém, que aguentem encarar o espelho e o travesseiro, numa imagem distorcida e histriônica que não devem render bons sonhos.

Afinal, são servidores públicos que fazem concurso para entrar em carreiras que pagam 20 ou 25 mil reais por mês e, de repetente, não mais que de repente, veem os seus contra-cheques de meses e mais meses recheados com 50, 100, 200 e até 300 mil reais mensais (v. aquiaqui).

E, ainda pior do que agir como se nada estivesse acontecendo, não querem que isso seja noticiado, com manifesto receio de que a verdade e o sol queimem a pele vampira de quem suga o pescoço do erário (v. aqui).

Ora, como verdadeiras castas hindus, divertem-se com os kinder-ovos mensais numa realidade cármica e carnal que só mesmo o Brasil-sil-sil pode lhes proporcionar (v. aqui).

E acham isso natural, moral, legal.

E assim ficam engordando às custas do orçamento público, crentes que a árvore que dá dinheiro lhes pertence, como se um pé de feijão fincado no exclusivo quintal do feudo mais ou menos hereditário que creem ter.

Nada, nada, nada justifica isso.

Podem enfeitar o pavão como quiserem, podem abusar da exegese administrativa, podem esgarçar a hermenêutica regulamentar, podem consultar astros, bulas, dogmas e evangelhos: nada soará menos do que o inadmissível, o escracho, o abjeto.

Podem colocar aditivos, donativos, atrasados, auxílios, empecilhos, brindes, diárias, canários, funções, cumulações, bônus, ônus, saldos, caldos, elfos, incrementos, excrementos... o diabo!

Não há conta séria que lhes permitam – num obsequioso silêncio ou numa pura e seca ladainha – aceitar receber o que se revelou receberem.

Sublinhe-se: não são agentes do mercado, não são seres vivos dos negócios sem fronteiras que, sob o espírito e a ética do capitalismo golfam o direito de entupir o culchão de dinheiro como e da maneira que seus estômagos e suas consciências bem queiram.

Não, não, não são.

De novo, o que imaginam esses indivíduos? Quem pensam que são?

Não são pássaros, não são aviões, não comem gilete, não são homens-fluido, não têm molas e nem se multiplicam em doze capazes de fazer o impossível pelo interesse público.

Pelo contrário, até.

Despidos das fantasias da toga e da autoridade constitucional, a quatro paredes, o que será que pensam sobre ética e justiça, sobre desigualdade e república, sobre sociedade e democracia?

Qual, pois, é a visão de Brasil-sil-sil que eles têm?

Uma raça, enfim, que na maioria confortável numa não-indignação não dignifica o suor a ferro e sangue do miserável brasileiro.

O qual por aí continua, macambúzio, vendo "dotôres" e suas sinhás como totem ou tabu da sombria fábula nativa.



sexta-feira, 3 de junho de 2016

# e o auditório sabe como o elefante se suicida?



Bem, na "Noite dos Mascarados", Chico canta que depois do carnaval tudo volta ao normal.

Porém, neste tempo de cinzas em que vivemos, não se tem tanta certeza de que nem mesmo o amanhã será outro dia.

Ao menos no que tange ao controle do mercado por meio destas coisas chamadas "agências reguladoras", o futuro deste presente é sinistro.

Afinal, componente da mais moderna fantasia do capitalismo, a máscara da "regulação" é uma ideia quase divina que, a enebriar como sopro de sereia e a paralisar como um olhar medúsico, não parece querer cair numa quarta-feira qualquer.

Fruto nada proibido do neoliberalismo – e cá no Brasil de cepa demo-tucana –, tem-se esta tese de que a função de regulação deve ser prosseguida não propriamente pelo Estado, mas por agências reguladoras independentes, saindo do controle direto e se assentando numa pseudo-equidistância de interesses públicos e privados... 

E agora você dorme ou gargalha.

Ora, esta solução só tenta se justificar porque a velha cantilena liberal entende – e assim age para manipular a consciência popular – que o Estado, declarado por puro preconceito ideológico como incapaz de administrar o setor público da economia – ou se acredita que os setores de telefonia, de energia, de água etc. estão em melhor estado hoje sem o Estado? –, é  também considerado incapaz de exercer bem esta função reguladora, razão pela qual terceiriza para as ditas "agências".

Ao substituírem o Estado no exercício desta função reguladora, as agências concretizam uma poção mágica que contém os ingredientes do dogma liberal, da separação entre Estado e Economia: aquele deve manter-se afastado dessa, porque essa é a esfera privativa dos privados e aquele é uma pura instância política – é, como querem, o “conteúdo mínimo” do “estado mínimo”, na lição do Professor António Avelãs Nunes.

Com o argumento de que as funções das entidades reguladoras são funções meramente  técnicas e não-políticas, o que se pretende é subtrair à esfera da política – ou seja, à competência dos órgãos políticos democraticamente legitimados – a ação destas entidades ditas independentes, alegando-se que só assim se consegue a sua neutralidade.

Só assim – invocam os mais afoitos – o Estado pode ser,  como  regulador, um  "árbitro  imparcial" (ou "neutro", como um sabonete).

E mais: nesta subtração, pressupõe a Política como uma coisa indecorosa, feia, diabólica, uma chaga, uma perigosa praga egípcia reloaded e merecedora do isolamento e confinamento.

Ademais, quer-se trazer a substituição do "Estado democrático" por um "Estado tecnocrático", novamente neutro, governado por pessoas que não pensam em outra coisa que não seja o interesse público, sob os primados da suprema eficiência e retidão... zzzzz...

Parece óbvio que não se pode esperar de um Estado "neutro" – que age segundo critérios técnicos e que rejeita as opções políticas – a definição e execução de políticas públicas, que visam, é claro, a promover interesses públicos e coletivos e escolhas políticas assim comprometidas.

Ora o chamado Estado regulador revela-se, afinal, um estado pseudo-regulador – ou um "pseudo-estado regulador", como sempre sublinhou o Professor Avelãs, inclusive aqui, no seu último livro , um Estado  que renuncia ao exercício desta sua função, a qual é transferida para sacrossantas entidades e agências “independentes”, “politicamente puras”, atuando apenas em função de critérios “técnicos” e com ímpar "eficiência", a sublinhar que o seu ethos radica na "imparcialidade" da atuação sobre o mercado.

Seria, pois, outro ser apolítico, como os amarelinhos que até recentemente desfilavam pelas orlas brasileiras.

Trata-se de um esforço inglório, por ser por demais evidente que essas agências exercem  funções políticas e tomam decisões políticas com importantes repercussões econômicas e sociais.

Na verdade, as autoridades reguladoras independentes vêm chamando (e recebendo) para si parcelas importantes da soberania, flertando com a sobrevivência do próprio Estado de Democrático de Direito, que se vê substituído por essa espécie de estado oligárquico-tecnocrático para atuar sob a chancela de “técnicos especialistas independentes” que “governam” este tipo de “estado”, mas que não é politicamente (e legitimamente) responsável perante ninguém, embora tome decisões que afetam a vida, o bem-estar e os interesses de milhões de pessoas.

E assim, a imitar o caos cívico de hoje, provoca o caos institucional, numa república democrática esquizofrênica em suas partes e funções.

Vários  argumentos  têm  sido  invocados  para  justificar  a regulação  “amiga  do mercado” e a sua entrega a entidades independentes, mas há raros espaços para se debater as múltiplas reservas que vêm sendo levantadas a esta concepção da função reguladora e ao modo como é exercida.

Por quê? Ora, são negócios da China nas mãos de poucos, poucos que controlam toda a mídia, e toda uma grande mídia que não dá lugar a nada que rediscuta o modelo – e o Estado brasileiro enxerga subserviente e calado este estado de coisas. 

Mais do que isso, este Estado (Estado regulador, ou garantidor, ou ativador, ou incentivador, ou contratualizador... são inúmeros os eufemismos) conforma-se como um "super-Estado feudal" – consoante, de novo, acepção do professor coimbrão –, a assegurar aos novos senhores feudais (os parceiros privados das PPPs, as concessionárias...) verdadeiras rendas feudais: em vez de terras, concede-lhes direitos de exploração de bens e serviços públicos ou patrocínios, comprometendo-se, inclusive, a pagar-lhes (com o dinheiro dos tributos cobrados dos “súditos”) o que faltar para complementar as “rendas” contratadas.

É o capitalismo sem falências, fruto deste modelo intervencionista pós-moderno e desenvolvido para aqueles que são “too big to fail” (v. aqui), consoante o mote adotado para livrar da bancorrata parte do sistema financeiro estadunindese pós-crise – esse negócio todo é também mostrado e desenhado nos premiados documentários "Trabalho Interno" (v. aqui) e e "Capitalismo - a Love Story" (v. aqui).

E assim, enfim, neste grande espetáculo, assistimos os seus produtores na incessante busca de tentar disfarçar o estado capitalista com as suas tantas e sempre renovadas vestes, e que agora vem sob o adorno de "estado-regulador" e as suas "agências reguladoras".

Porém, estes mesmos senhores são incapazes de esconder o seu maior propósito: por a nu o Estado, paralisarem-no e asfixiarem-no, provocando a morte da Política e exaltando a ubiquidade onisciente do "Mercado", para aplausos delirantes da galera.

Pois é, nem Rá era tão louvado.

E nem Ary Toledo contaria uma piada melhor.