quinta-feira, 17 de março de 2016

# al otro lado del río



É absolutamente lamentável  e deprimente este momento da nossa República.

Sinto muito, mesmo.

E, na vida, há situações em que se deve firmar uma posição -- se como dissera Kafka, num dos seus aforismos, que o ponto a se chegar é o ponto a partir do qual não há mais retrocesso, eis que nele chegamos.

E escolher um lado, posto que não se trata de um maniqueísmo qualquer.

E escolhendo um lado, em circunstâncias como as que hoje, de modo (sur)real, atravessa o Brasil, o convívio com o "diferente" -- usarei este eufemismo -- é impossível.

Não há, afinal, diálogo com o golpismo.

Diante dele não há ideias, não há lógica, não há razão, não há coração, não há nada fora da ignorância e da continência.

Nem liberdade, nem direito, nem lei, nem povo, nem justiça, nem amor, nem ordem, nem progresso, nem nada.

Sendo assim, porquanto insustentável o convívio, ao menos enquanto pendente esta maquiada catarse nacional, evitarei os contatos com aqueles que pensam e agem de modo tão diverso e tão estranho diante da realidade brasileira.

Ora, acredito no Estado Social e Democrático de Direito, na Constituição e nas idéias de República e de cidadania.

Acredito no valor da presunção de inocência, cláusula fundamental da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Acredito -- para não dizerem que não falei das flores -- no combate aos crimes econômicos, financeiros e contra a Administração Pública (sonegação e corrupção, por exemplo), com investigação e punição independentemente do partido ou do sobrenome, como uma das medidas para tornar o país melhor e sempre sob a guarda da Legalidade.

E, por isso, acredito que as trevas, o obscurantismo, o autoritarismo, o arbítrio e o fascismo de agora, em nosso quintal e a um palmo dos nossos narizes, precisam ser imediatamente controlados e repugnados, com a mais absoluta veemência.

Afinal, longe de ser papo de poesia, se hoje é com os "petralhas" -- e parece só com eles, monopolistas de todo o mal e da má política nacional --, amanhã será com qualquer um de nós, como exemplarmente revelou a escuridão de 1964 a 1984.

Desse modo, não posso compartilhar e estar na voluntária companhia de quem desacredita a história, de quem apoia ações ao arrepio da Carta Maior, de quem é contra a ordem democrática, de quem faz chiste e graça deste estado de coisas e de quem, apenas por ser "oposição", torce para o caos e para um Brasil em cacos, a vibrar com as ofensivas canalhas de juizecos -- titulares da caneta de uma república paralela que se institucionalizou --, de uma oposição débil e, claro, de uma grande mídia cada vez mais facínora.

A convulsão nacional -- ah, esta insensatez... -- é obra clássica de uma elite infausta que, por meio dos veículos de comunicação, coopta e manobra um bando de alienados incapazes de refletir os fatos e uma tola classe média que, dentre outras coisas, acredita (e jura) ser a corrupção o maior problema do Brasil, num discurso enfadonho e vazio.

E não percebe que, ao cabo, toda esta ardilosa construção se trata de "luta de classes" -- como assim se trata a vida social em todo mundo desde que a Idade Média acabou -- e de um (tímido!) enfrentamento da questão da desigualdade e dos privilégios de castas arraigados no Brasil.

Ocorre que, com a quarta vitória do PT -- inadmissível, esperneiam os derrotados --, tudo se intensificou, produzindo estes episódios que nauseiam e nos apequenam como nação (v. aqui e aqui).

PT esse, gize-se, que divirjo muito e em muitos aspectos.

PT esse, gize-se, que há pelo menos três anos tem merecido as minhas mais severas e pontuais críticas, como sempre escrevi em artigos, colunas e neste blog (aqui, por exemplo), justamente pelo Governo ter se afastado da esquerda e se aproximado de políticas, programas, pautas e preferências da direita -- eis, aqui, uma das provas da esquizofrenia desta horda que tanto critica o que tanto defende.

Portanto, está muito claro que, agora, já não se trata de PT, Dilma ou Lula, ou de apreço por uma ou outra bandeira de pessoa, partido ou gestão.

Trata-se, eis a verdade, do inabalável respeito à ordem constitucional na República Federativa do Brasil. 


E do desejo, lá na frente do tempo, de ter meu neto no colo, ouvi-lo a perguntar deste 2016 e, com o brilho dos olhos de um velho, responder-lhe que briguei pela democracia e pela legalidade.

Sendo assim, até este negócio todo passar, vou querer apenas a companhia, o afeto, os beijos e os abraços daqueles que partilham desta mesma margem do rio.

Um rio cuja correnteza parece estar levando muita gente para um lado triste e sombrio da nossa História.




quarta-feira, 16 de março de 2016

# aos berros



Estamos em novembro de 1992, na cidade de Curitiba, e se vê um Ginásio Oswaldo Cruz abarrotado para a final do campeonato juvenil de basquete.

Era mais do que um Atletiba; era Colégio Marista Santa Maria vs. Colégio Positivo, a maior rivalidade desportiva da capital, numa noite em que se via o "time dos livros" dar uma surra no "time das apostilas".

Sim, o título estava encaminhado, para frustração do elenco positivista, que lentamente sucumbia aos quase vinte pontos de vantagem do nosso escrete. 

Chega o último quarto, e já no começo o inusitado: com o descuido dos dois (!) policiais que faziam a segurança, das arquibancadas lotadas surge um senhor para invadir o jogo.

Aos gritos e gestos, do meio da quadra logo vejo que era o Sr. Vanderlei Barreto, carismático diretor do Positivo (e pai de um colega adversário): ele entra chutando tudo, indo em direção aos árbitros e, com dedo em riste, os acusando de ladrões, canalhas, vendidos e outros epítetos menos nobres. 

Ninguém conseguia segurar o astuto dirigente na sua inventada ira. E mais tumultos, confusão na mesa, os jogadores avançam na arbitragem, um empurra-empurra generalizado, os treinadores quase se digladiando e, finalmente, depois de quase 10 minutos, os policiais aparecem para intervir. 

E o jogo reinicia; e o resto é história: o Positivo vira, vence e é campeão.

Ano seguinte, vejam só, aceito o convite, recebo uma bolsa e me transfiro para o (ex-)arquirrival, a fim de melhor aliar o esporte com o vestibular. Fui acusado de tudo e por todos, mas assim foi.

E eis que no primeiro dia de aula, logo que adentro ao prédio, quem avisto, ao longe? Vanderlei Barreto.

E ele também me vê. 

E, lá do outro lado, já atravessando o pátio em minha direção, no meio daquele mar de estudantes, ele inicia, aos berros: 

- "Gavaaaaa! Ganhei no grito!! Ganhei no grito!! Ganhei no grito!!...", e assim permaneceu urrando, por longos 5 minutos, para delírio da fanática plateia -- e assim fazia, sempre que me encontrava, durante boa parte daquele ano.

Bem, agora estamos em 2016.

E desse modo, também no "grito", uma porção de calhordas, coxinhas e alienados, a reboque da Rede Globo, insiste na convulsão nacional, por meio da caneta de aluguel de um "caçador de marajá" de toga e de um processo de "impeachment" sem fundamento legal.

Na mão grande, sem democracia, sem voto, sem soberania e sem a autodeterminação do povo, a mesma turma de sempre quer o golpe.

A canalhice  que se tenta criar e mostrar como verdade – tudo fruto do ilimitado poder que os donos da mídia ainda detêm mundo afora – visa, apenas, com a chegada do presidente Lula na chefia da Casa Civil, a por fim na potencial ressureição do governo Dilma.

E assim a oposição vagabunda se articula para agir de modo singularmente sórdido, exatamente do tamanho do ódio que a direita sente pela ordem democrática e social vigente no país desde 2002 e, atenção, principalmente pelo enorme temor que a elite sente no combate aos crimes brancos que, como nunca antes nesse país, se faz. 

Ora, órfãos daquele estado para poucos e com uma estrutura institucional colonial, atuam de modo tresloucado na criação de fantoches, de factoides e de um fanatismo atroz, à revelia da lógica, do bom senso e, em especial, do direito.

É, puramente, tudo um teatro de sombras (v. aqui).

Às claras, a abjeta manipulação dos fatos que a grande imprensa nativa e os endinheirados fazem para deglutição da classe média alienada tenta enfiar goela abaixo o fim de um Governo eleito e das suas políticas em curso.

Para, enfim, que tudo seja resolvido na base do grito.

Faz-se a cavalgada do golpe.




terça-feira, 15 de março de 2016

# pela defesa da democracia



Diante da -- elementar, meu caro Watson -- manifestação pública do Conselho Pleno da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Paraná, favorável à abertura de processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (v. aqui), dezenas de outros tantos advogados paranaenses firmamos e declaramos absoluta contrariedade à bizarra e vexaminosa manifestação pública da OAB/PR, por meio do agravo abaixo.

Ah, aquela minha classe...


Causou-nos indignação a manifestação pública do Conselho Pleno da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) seccional Paraná, favorável à abertura de processo de Impeachment da presidenta Dilma Rousseff, dentre outras, pelas seguintes razões: 

1. A OAB-PR não indicou quais seriam as razões concretas a fundamentar o pedido de Impeachment da Presidenta. Em um Estado de Direito, o impedimento de Presidente da República, democraticamente eleito, somente é possível se comprovado cometimento de crime de responsabilidade, nos termos do artigo 85 da Constituição Federal.

2. A nota da OAB-PR transparece adesão da entidade a grupos que visam à ruptura com a ordem democrática e com a legalidade. Ao, praticamente, convocar a população para a manifestação contra o governo federal no último dia 13, o Conselho da Seccional acabou por se aliar aos setores mais conservadores da sociedade (aos defensores de intervenção militar no país, aos que se opõem às políticas de direitos humanos, entre outros) que envergam bandeiras historicamente combatidas pela OAB.

3. Em meio a recorrentes notícias de "corrupção", "falta de ética", "desvios do patrimônio público" – fatos atribuídos na nota da OAB-PR para apoiar as manifestações contra a Presidenta Dilma – no governo do Estado do Paraná, chama atenção a postura passiva e, em até certa medida, parcimoniosa, adotada pelos representantes da Seccional Paraná em relação ao governador Beto Richa. Na semana em que o Superior Tribunal de Justiça autorizou pedido do Procurador Geral da República para abertura de inquérito contra o governador, para apuração de atos de corrupção, a ausência de qualquer medida ou nota pública da OAB-PR para registrar sua indignação e em defesa da sociedade e do interesse público, demonstra o caráter político-partidário de sua manifestação contrária à Presidenta Dilma.

4. Utilizar os recursos obtidos das anuidades pagas por advogados e advogadas no Estado do Paraná, para contratar horário nobre em rede de televisão, é um verdadeiro acinte. Mostra-se em descompasso com o espírito plural e democrático que a OAB-PR deveria preservar, pois, serviu-se do poder econômico, por intermédio do dinheiro de seus representados, para acirrar ainda mais os ânimos de uma fração da população, em benefício de determinados partidos políticos ou mesmo movimentos autoritários.

Por um Estado Democrático de Direito no Brasil, sem rupturas autoritárias, independentemente de posições ideológicas, preferências partidárias, apoio ou não às políticas do governo federal, nós, advogados e advogadas no Paraná abaixo-assinados, declaramos contrariedade à manifestação pública da OAB-PR.

E que o Conselho Federal da OAB seja um real defensor da República e da Democracia e não aceite atuações autoritárias de quaisquer dos Poderes, com o intuito de preservar o interesse público, os direitos fundamentais e as conquistas democráticas. Que não se repita o apoio da OAB ao golpe militar de 1964, mas sim sua atuação decisiva na redemocratização nos anos 1980.

Conclamamos a todos que acreditam na democracia, na justiça social, na redução das desigualdades sociais e regionais e contra preconceitos e discriminações, a fazerem o mesmo.

Estado do Paraná, Brasil, março de 2016.




domingo, 13 de março de 2016

# o branco que a sua família merece



Podemos trocar "família" por Brasil, se achar melhor.

E entender o "branco" não apenas pela alma ariana da pele, mas por uma ideia que abrange os bem-cheirosos, os bem-nascidos e, bem, toda a fina flor conservadora que ilustra as sessões fotogênicas (e fotoeugênicas) das colunas da nossa sociedade.

Sobre "merecer", ora, todos nós, claro, não apenas máximas espécies da moralidade e do fazer-o-bem, mas quem tanto suamos e trabalhamos para chegar onde chegamos -- isso, claro, é o que melhor traduz a meritocracia (v. aqui).

Eis o resumo do show de horrores que se viu pela telinha da Globo e, no meu caso, in loco pelas ruas do Posto 5 da tresloucada Copacabana.

Já relatei aqui da estranha sensação de medo que bate toda vez que, por outros motivos, saio à rua nestes momentos bizarros da nossa história: sinto-me naqueles filmes de terror B, no nosso caso, zumbis marchando trajados em verde e amarelo e com a baba escorrendo, lobotomizados em suas falas, gestos, poses e trejeitos.

O alimento desta gente? Um coquetel em que se destaca o ódio homeopaticamente dosado pela grande mídia e engolido pelo umbigo (v. aqui).

Entretanto, ali, como se numa onda paralela que surge das profundezas e desemboca noutra dimensão, não há ficção; é a realidade promovida por uma reduzida parcela do país que deseja o caos (v. aqui).

É, trata-se de uma pequena fração de um mesmo eleitorado: tome-se por verdade os números arbitrados pelos "organizadores" da micareta cínica, exageremos na medida e, ao cabo, houve uns três milhões de mais ou menos chacretes pelas ruas do Brasil.

Ora, três milhões, ainda que alguns tratem como um número expressivo, não representa 7% dos votos que a direita teve nas eleições de outubro.

E perdeu.

E perderá sempre que se mostrar impotente para apontar caminhos e para apresentar candidatos à altura, por meio de um programa de governo (e um projeto de país) coerente com a demanda e a necessidade nacionais, e não mero fetiche fotocopiado da cartilha (neo)liberal que ainda destrói nações mundo afora, soturnas marionetes do grande capital.

Portanto, fora do golpe -- e querer tirar, no grito, alguém eleita e sobre a qual não se aponta qualquer ilícito, é golpe (como aqui) -- não haverá salvação, anuncia sob vestes quase bíblicas os teólogos deste bem-aventurado segmento da população.

Afinal, essa massa, mais ou menos à direita, ciente de que o ideário e os personagens tucanos são incapazes de representá-los, não vê saída democrática para retomar o poder e, assim, conseguir acabar com quaisquer vestígios de progresso civilizacional.

Sim, o que está em jogo é o progresso civilizacional do Brasil, de transformar os quinhentos anos de periferia e de miséria (para muitos) em soberania e cidadania (para todos).

Trata-se de uma visão de Estado e de sociedade que avance na ruptura das suas algemas históricas responsáveis por uma estrutura de desigualdade inigualável no planeta.

E isso pode ser feito de diversas maneiras -- muitas delas bem distantes do que hoje, com tibieza, propõe o Governo (v. aqui e aqui) -- e por diversos espectros políticos.

Mas, nunca, pela narrativa que emana destas "ruas", cujo norte é o ódio irracional, canalha, reacionário e antidemocrático.

E o fim a escuridão.



quinta-feira, 10 de março de 2016

# o ovo da serpente


E destes nossos últimos e tristes acontecimentos, que nos parecem revelar uma republiquetazinha de quinta categoria -- e não, entre outras coisas, a sexta economia do planeta --, lembro do vaticínio que fizemos ainda naquele famoso junho de 2013, abaixo reproduzido.

Eis, agora, que a casca do ovo já está a trincar...


# o ovo da serpente

Não, você não está na Europa dos anos 40; nem nas trevas da América Latina dos anos 70.

Também não está no mundo das arábias com seus ditadores mafiosos de turbantes e diamantes; tampouco no Sudão, na Islândia ou na Grécia pós-modernas e pouco olímpicas.

Você provavelmente esteja no Brasil, país hoje pulsando na roda-viva do planeta Terra.

Localizado no tempo e no espaço, pergunte-se: qual o real sentido desta onda que enche ruas, praças, orlas, emails e redes sociais?

Disformes e esquisitos, esses protestos, com passeatas e manifestações, parecem os testes de Rorschach: cada um vê neles o que quer e, assim, se revela no que vê – isso até soa meio complexo, mas não é, garanto.

Antes de tudo, porém, não desprezemos por total as vozes que ecoam em cada esquina do país, afinal, se tem uma coisa que há milênios provoca nojo e náuseas é o modus operandi das empresas de transporte coletivo país afora: estas empresas de ônibus são mafiosas, são bandidas, são canalhas de um "setor" que se caracteriza pelo que de mais asqueroso existe neste arremedo de capitalismo (amanhã falamos disso...)

Depois, claro, até se compreende também um outro viés da ideia, como se assim pensasse aquela gente: "veja, não sabemos o que seja, não entendemos o que possa ser, mas, na boa, tem algo nos incomodando..."

Ou seja, incapazes de pretenderem uma utopia ou um sonho revolucionário, traduzem o incômodo assim, numa sopa difusa de gritos e cartazes sem sentido, talvez decifráveis em divãs de psicanalista ou rodas de haxixe, mas que querem mostrar um descontentamento, uma tristeza, uma melancolia por uma broxada astral só reerguida por pílulas azuis de pseudocivismo.

Mas, à margem disso, agora já parece – verdadeiramente!  trazer evidências transformadoras que se sustenta no seguinte clamor pseudo-popular: "tudo contra a política!” e “tudo contra o Estado!” – inclusive o âncora matutino da rádio BandNews assim denomina a coisa, com aplausos gerais...

Ora, por favor, não me venham transformar um protesto legítimo – revisão dos preços e das concessões dos serviços de transporte público e, até, a frustração quase metafísica por um estado de coisas – em uma ação despolitizante contra tudo e todos, afinal, bem se conhece a famosa frase da obra "Il Gattopardo" (Tomasi di Lampedusa): “mude-se tudo, para que tudo permaneça como está”.

Ora, não se vê ninguém a pedir a Reforma Política, a Reforma Agrária, a Reforma Fiscal, a Reforma da Previdência e a Reforma dos Meios de Comunicação, por exemplo, cruciais para o avanço do país.

Por quê? Ora, porque se trata, na maioria, de uma turma apolítica, despolitizada e que se cria em chatsnets e quejandos virtuais de discussão, reflexão e estudos, tudo muito volúvel, muito superficial e muito “líquido”, como diria o filósofo Zygmunt Bauman.

Afora o mesmo pessoal de sempre – aquele que tem horror às mudanças sociais e econômicas efetivamente construídas no país e que representam os eternos 25% da população –, (não) surpreende a profusão de pseudo-esquerdinhas a ajudar a chocar este ovo ou a embalar este cavalo troiano.

Sim, bandeiras, lenços, plumas e paetês "contra a corrupção", "pela paz" e "em favor da vida" são inatingíveis e fisicamente inúteis.

Na verdade, o que políticos e endinheirados filhos da puta (e corruptos) mais desejam são, justamente, manifestações “contra tudo o que está aí”, “contra a política”, "contra os partidos", “contra as instituições” etc.

A história recente é sempre farta em exemplos e em nos ensinar, para não nos deixar esquecer: nos anos 60, pré-Golpe, as “filhas de Maria” também queriam um estado democrático e um país melhor – mas sem o Jango (e o povo).

Sim, ironia pura, os reacionários daquela época entupiam as ruas de Rio e São Paulo clamando e marchando por Deus, “pela Tradição, pela Família, pela Liberdade” e, claro, pela Democracia e pelo Brasil-sil-sil.

Em 64, portanto, os clamores também eram belos e justos na sua formosura, com um blá-blá-bla bonitinho (e sempre ordinário).

Porém, a “democracia” deles só servia sem um presidente da República legitimamente eleito, popular e de centro-esquerda, no caso Jango – e o golpe, a reboque da grande mídia, foi questão de minutos.

Logo, qual o efeito político desta marcha, desta onda e destas cartazes atuais? A quem interessa? Quem banca e está por trás disso? Qual o sentido desestabilizador disso tudo (v. aqui)?

Não sejamos tolos, pois basta ver a redireção tomada pela grande mídia diante dos movimentos, as edições de texto e imagem, as manchetes associativas e as mensagens subliminares de culpa que promovem.

Ora, os "donos do país" já se apropriaram dos caras-pintadas 2.0, a versão hi-tech de uma turma que nos anos 90 gozava nas ruas o impacto dos “Anos Rebeldes” da tv e que pedia a excomunhão de Fernando Collor por motivos que interessavam muito mais à grande e velha indústria multinacional aqui instalada e a outros frustrados pelos rompantes monarquistas de um arrogante Presidente, do que à população em geral. 

A história, inclusive, hoje explica muito bem isso.

Que insatisfação seria essa, justamente num momento em que o Brasil (já?) acordou, resgatando a dívida secular com a dignidade de dezenas de milhões de brasileiros e inserindo-se definitivamente como co-protagonista no cenário político e econômico mundial? 

E, mais, num momento em que, mesmo com o insano e diário bombardeio midiático, o atual governo continua a gozar de alta popularidade (ótimo/bom/regular com mais de 70%, segundo as últimas pesquisas) e cujo partido passa a governar a maior cidade da América Latina (São Paulo)?

É óbvio que há muitas e muitas coisas a melhorarem; são, sim, notórias as nossas deficiências, os nossos problemas, as nossas carências estruturais e institucionais e a nossa decepção com o freio centrista do governo federal em várias áreas.

Há, sim, uma crise de representatividade, que parece redimensionar a via direta do exercício do poder.

Contudo, mesmo que se vá às ruas na busca deste caminho – ação por vezes e condicionalmente legítima –, é absolutamente obrigatório o zelo e o respeito pela instituições e pelos governos democraticamente eleitos, aspectos esquecidos pelos bandos que invadem as nossas ruas e Casas, com suas cabeças vazias ou já bem programadas. 

Atenção: o Brasil está mudando, e isso precisa ficar claro, e isso precisa ser visto – e não enxergado pelas lentes turvas de quem não tem interesses populares, coletivos, cívicos e republicanos.

E isso precisa ser feito por vias efetivamente democráticas, assentadas no voto e nos desejos de governo de cada um de nós.

Portanto, minha gente, de duas, uma: o que se vê agora (i) não dará em nada, pela inconsistência das posições ideológicas, sociais e políticas e a ausência de efetivas propostas e objetivos pleitos, ou (ii) será o começo do fim do governo Lula & Dilma, na marra, com as consequências mais desgraçadas para a República  o caos.

E, neste último caso, nada surpreendente ou sem querer, exatamente como naquele Golpe de outrora.

(publicado originalmente em junho de 2013)