sábado, 15 de novembro de 2014

# guerra e paz



Trata-se de uma situação como a do ovo e da galinha: quem veio primeiro, o corrupto ou o corruptor?

Mas, se porventura não queiramos ter a mesma dúvida criacionista e sobre ela buscar a metafísica da questão -- o que, ao meu ver, passa pela discussão da natureza humana e dos valores desta sociedade, fetichizada na riqueza material, como aqui, aqui, aqui e aqui dissemos --, vê-se que a solução está na artificial existência siamesa de interesses públicos e privados, de Estado e capital, de política e business.

Ora, se a política continua na sombra corruptora do dinheiro, o dinheiro continua à sombra da política, como aqui se disse.

Historicamente, assim se fez boa parcela das maiores fortunas do Brasil adentro; e assim se faz em Brasília, assim se faz na Petrobras, assim se faz no Rio, em Curitiba, em Araucária..., enfim, a grande parte da massa bem-cheirosa que arrota habilidade e desfila competência locupleta-se roubando do Estado.

Mancomuna-se com agentes públicos ou políticos, e se entope de privilegiadas informações e polpudos contratos; ajeita-se com juízes, promotores ou policiais, e se farta de doces e convenientes decisões jurídicas -- aqui, inclusive, lembramos desta entrega total dos pseudocapitalistas à tal farra...

E se chega nesta sexta-feira, e parece que finalmente o Brasil escancara este outro lado da moeda -- v. aqui.

O país parece ter cansado de ser hipócrita e põe na janela o lado antes engomado e poliglota, o lado meritocrático, o lado eficiente, o lado que produzia, o lado sério e imaculado que se obrigava a participar da picaretagem nacional.

Eram vítimas, quando muito, como se insiste em dizer.

Na verdade, eram invisíveis no assunto corrupção, pois sempre muito bem escondidos pelos nossos poderes estatais e, claro, pela grande mídia.

Hoje, escancarado está que ao lado dos canalhas que desdizem o juramento à defesa e à promoção do interesse público, da ética e da legalidade, estão outros bandidos que, embora não jurem nada disso -- "it's business, stupid!", dir-se-ia por aqui --, jamais poderiam agir como a inocente donzela que involuntariamente morde a maçã da bruxa.

Hoje, se alguns políticos e servidores públicos e as cúpulas partidárias que estão ou estiveram no poder afundam-se neste que talvez seja um bom momento da República, levam junto, como um Caronte infernizado, parte dos magnatas brasileiros que jamais honraram as calças do capitalismo que vestiam -- eis, pois, o grande mérito do Governo Dilma.

E atente-se.

Tem muito, muito mais por aí e para além das já tradicionais "empreiteiras" -- lembre-se aqui e aqui de casos recentes envolvendo este bando, sempre a empreender com metodologia similar ao tal "Clube" de agora (v. aqui e, num vaticínio acerca das "donas de um monte de coisas"aqui).

É hora de mexer no vespeiro do transporte público -- das empresas de metrôs, trens e ônibus (v. aqui e aqui)  --, dos serviços regulados e de outras tantas concessões que, nas mãos de síndicos ilegítimos da res publica, são tão nefastas e contrárias ao interesse público.

É hora de encarar de frente, e com a honestidade técnica e intelectual que merece, o modus operandi de agências reguladoras e de parcerias público-privadas tão nocivas à sociedade.

É hora de a Presidenta Dilma aparecer em rede nacional, semanalmente, para mostrar o que faz e o que fará para mudar o país nesta matéria -- que, repitamos, não é a mais crítica do Brasil e nem nos deve merecer as mais profundas ilusões republicanas.
Afinal, meus amigos, ela mais uma vez prova: corrupção não se combate com mera retórica (v. aqui).

E, por isso, doravante teremos uma guerra -- como disse Dilma, "não vou deixar ficar pedra sobre pedra" (v. aqui).

Ora, embora se saiba que qualquer coisa que aspire tornar o mundo e as pessoas menos complexos, menos paradoxais e menos variados esteja a cometer uma pequena calúnia com a realidade, posto que são múltiplas as realidades -- inclusive no mundo das relações público-privadas --, "esta" realidade finalmente  veio ao sol.

E este sol exige obrigações e saídas, pois como disse Kafka em um dos seus aforismos, "de um ponto determinado em diante não há mais retorno; esse é o ponto a ser alcançado".

E sem retrocesso, porquanto inadmissível para um novo Brasil, os interesses a serem enfrentados -- mais ou menos dissimulados, ocultos ou escancarados -- serão muitos e o desafio será hercúleo.

Portanto, se o Judiciário -- se sob uma esperada justa observação do Executivo e do Judiciário -- chegar a algum lugar certo, imparcial e que doa a todos, trata-se de uma empreitada, com o perdão do trocadilho, valiosa.

Por isso, se é a "paz perpétua" que a nossa sociedade deseja, preparemo-nos para a guerra.

Tal qual no ditado latino: si vis pacem, para bellum.

Sem máscaras, sem medo.

E com o coração valente, para lutar contra tudo e todos.



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

# aspas (xlv)



No final de outubro, no Vaticano, ocorreu o "Encontro Mundial dos Movimentos Populares", presidido pelo Papa Francisco e com a presença dos representantes dos maiores movimentos sociais do planeta.


Do Sumo Sacerdote já falamos muito -- aqui, aqui, aqui e aqui, por exemplo --, mas nunca será demais.

A cada ato, a cada discurso, a cada gesto, a cada manifestação e a cada decisão como representante máximo da Igreja Católica ou como Chefe de Estado, Papa Francisco diviniza a nossa espécie, orgulhando-nos.

No seu discurso neste Encontro, centrou-se em três palavras: "terra, teto e trabalho".

E não titubeou em criticar o capitalismo, o neoliberalismo e a sociedade de consumo, bem como não se furtou a defender a economia solidária, as políticas públicas, populares e populistas e a reforma agrária (como inclusive aqui já o fizera, ano passado, novamente na presença do líder do MST).

Enfim, Papa Francisco não quer dourar a pílula, não quer manter aparências, não quer ser peça decorativa de uma civilização e não quer figurar como nota de rodapé da história -- afinal, quer seguir à risca o conselho que deixou aos jovens na última Jornada Mundial da Juventude: "Sejam revolucionários!".

Abaixo, trechos do que disse o magnífico Francisco.

Palavras, pois, a serem talhadas em muros mundo afora (aqui, na íntegra).


"(...) Eu estou contente por estar no meio de vocês.
Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo. Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas.
Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão.
Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada.
Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!
Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos.
Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar.
Isso é meio perigoso.
Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer. (...)
Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram... têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta!
Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco.
Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.
Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. (...)
Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho.
É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é "comunista".
Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. (...)
Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.
terra. (...) A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. (...)
Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral (CDSI, 300). (...)
Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.
Em segundo lugar, teto. (...) Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! (...).
Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos.
Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana.
Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.
Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, "sobrantes".
Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.
Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas.
Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. (...)
Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais.
Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos.
É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.
Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.
Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. (...)
Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.
Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal.
A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.
Eu os acompanho de coração nesse caminho.
Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.
Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós.
É como uma bênção de humanidade."

Os papas e um grande Fiel

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

# semi y árido


 
E asso, canso.
 
Lanço-me torto na espera lânguida do destino sem eco.
 
Deformado nos três nacos que me somem.
 
 
E faço, tenso.
 
Penso trôpego no cangaço do meu deserto sem sol.
 
Na forma dos trastes cacos que me carcomem.
 
 
E sofro, inço.
 
Danço soturno no silêncio lento do desespero sem dó.
 
Conformado nos tristes trapos que me espremem.
 
 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

# caiu o muro, não a alternativa





A viuvez que costuma tomar conta da maioria da esquerda mundial quando se fala na queda do Muro do Berlim precisa ser reavaliada e, especialmente, transformada.

Afinal, desde sempre as sociedades indignaram-se, revoltaram-se e insistiram numa alternativa de regime estatal que, antes de tudo, se caracterizasse pela "justiça" – que num sentido aristotélico e cristão representa a igualdade, mas que se contempla na realização equânime dos direitos humanose pela "liberdade" – no seu sentido kantiano, ou seja, assente na própria igualdade.


Há 25 anos – embora, sob o estrito ponto de vista político-econômico, há mais tempo – cessavam-se os efeitos mais imediatos da Revolução Soviética de 1917, a qual, dentre as mais importantes de toda a história universal, definitivamente colocou um tipo de socialismo – a etapa para o comunismo – como efetiva via para o desenvolvimento e para a construção sócio-político-econômica do Estado.


A sair do plano ideológico para assumir-se como fato histórico, o socialismo coloca em cheque pseudodogmas da ideologia liberal vigente, fazendo nascer um novo Estado que passa a objetar e contestar o (sacrossanto) mercado, a (falsa) democracia ocidental, a (desumana) concentração de renda e o (soberano) capital, entre outros temas que, não expurgados, ainda hoje mostram-se, crescentemente, reexaminados e reprovados.

Portanto, as consequências históricas daquele novembro de 1989 não podem ser entendidas como, já há muito propalado, um final da história, de forma que todas as sociedades fiquem à mercê das nefastas e infaustas (e já lutuosas) dinâmicas do sistema que veio querer brutalmente consolidar o capitalismo, na forma onipresente, onisciente e onipresente do “neoliberalismo”.
Por quê?

Ora, além das infindáveis crises que o sistema naturalmente provoca, algumas de gravidade ímpar, como a dos últimos anos, este capitalismo aumenta exponencialmente a desigualdade sócio-econômica mundo afora – v. aqui, em ótimo documentário que mostra os EUA ("Inequality for All") –  e restringe continuamente a liberdade dos povos ou classes mais pobres, negando-lhes o humano acesso à saúde, à moradia, à educação e à alimentação.

Não se pode acreditar – inclusive pelos próprios resultados que a todo o tempo se apresentam – que um sistema apolítico, sem Estado e encrostado na tese da soberania dos mercados possa ter um fim humano, minimamente humano, como se disse aqui, aqui, aqui e aqui.

E mais.

Em termos de regime de governo, a "democracia" que insiste em perdurar mundo afora centra-se num faz-de-conta que, a reboque dos donos do poder, mostra-se refém destes grandes grupos econômicos que abastecem a grande mídia para, livre, leve & solta, ao cabo tentar eleger mandatários dos Estados cujas políticas e ações públicas sirvam-lhes – portanto, não seria uma democracia do povo e para o povo, mas, apenas eleita pelo povo.

E a busca pela confirmação ou construção de um outro caminho é real e urgente – afinal, “there is alternative!”, ao contrário do que pregava a matriarca do neoliberalismo, Margaret Thatcher.

Assim, se Cuba, China e Vietnan, com seus muitos erros e acertos, despontam como os mais antigos países constitucionalmente socialistas do mundo – não obstante a abertura patrocinada pelos dois países asiáticos possa ensejar dúvidas existenciais por parte da esquerda mais apaixonada –, veredas menos traumáticas de alternativas institucionais devem ser imaginadas e implementadas, escapulindo das "necessidades falsas" que Mangabeira Unger ensina.

Logo, ainda que já tenhamos nos modelos de alguns países um consolidado rechaço ao capitalismo democrático (ou da democracia capitalista) ocidental como única via possível para o desenvolvimento e engrandecimento, é na América Latina onde parece tentar se conformar um contra-ponto àquela visão de planificação absoluta e, principalmente, uma alternativa ao capitalismo pós-moderno que raquitiza  a democracia, deifica o mercado e mercantiliza a vida.

Sem a sombra da derrota do leste europeu, essa nova América Latina que desponta – com Venezuela, Bolívia, Equador, Brasil, Argentina, Uruguai, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica..., embora ainda com sensíveis diferenças de progressismo em seu interior – faz revigorar as certezas de uma esquerda que parecia desmotivada com o isolacionismo retrô cubano ou enganada pela enviesada propaganda midiática que esconde um dos lados do híbrido sistema político-econômico chinês.

Mais do que isso, faz materializar o eco de uma esquerda que luta pelo irretornável caminho progressista, cujas ideias fazem sobrepor a solidariedade social ao "darwinismo social", o Estado protetor ao "Estado predador" e o interesse público ao "interesse privado".

Hoje, a grande comemoração que o capitalismo, as democracias ocidentais e, maiormente, a direita promovem, deve, sim, servir à esquerda de lição histórica, a fim de evitar que os mesmos erros, as mesmas teimosias e as mesmas alianças se repitam; contudo, jamais pode significar a impossibilidade de se construir um novo e admirável mundo.

Sem o muro?
Sim, mas, principalmente, sem o grande muro social que, a fim de isolar a minoria encastelada, amontoa nas periferias e nos grotões das cidades a grande maioria da população que, continuamente, vê negada os seus direitos humanos fundamentais e distante a esfinge da justiça, ainda soterrada pela parte de cima da pirâmide social.



Trailer do thriller em que vive a sociedade americana





domingo, 9 de novembro de 2014

# e assim caminha a humanidade (xxii)



Enquanto isso, num festivo e agradável churrasco, o anfitrião inoportunamente fuça num dos gadgets à mão e saca a piada que virtualmente recebe:

- "Se não passar no ENEM, faz um neném que Bolsa Família você tem...".

Alguns poucos deram uma risada meio amarela, outros não ouviram, e ele insistia em repetir o dichote.

E insiste de novo.

E, pela quarta e última vez, insiste.

Não percebe, portanto, que o chiste, além de sem-vergonha, padece de absoluto preconceito, ignorância e, claro, ódio.

"Sem-vergonha" porque monta rima pobre de marré, marré, marré, inapta para qualquer ambiente com cidadãos absolutamente capazes e com trinta e dois dentes.

"Preconceito" que advém da "ignorância" sobre a existência, as razões, o funcionamento, os condicionantes e os reflexos da brava ação (ENEM) e do excelente programa (Bolsa Família) do Governo Federal, ambos já discutidos aqui e aqui.

E "ódio" porque este sentimento, afinal, costuma escorrer no canto da verborragia da elite nativa, como típico instinto da luta de castas -- v. aqui.

Mas tudo isso, claro, pode ser encarado como exagero ou falta de esportividade de minha parte ao não entender ou desgostar do gracejo social.

Sim, aquelas convenientes reticências ou a útil conotação que residualmente os piadistas se socorrem são capazes de fingir levar o caso na mera, doce e cândida brincadeira.

Para ao cabo inverter o lado criticável e sem graça da mesa.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

# foscoeterno

 
 
Sufoco-me na secura ardente do outono deste outubro perene
 
 
 
-- x --
 
 
 
Da janela vejo a baía / estou mergulhado nela / uma columbina chega / para, me vê / e voa / vou com ela / da baía vejo a janela.
 
 
 
-- x --
 
 
 
Se mascasse uma livro seria feliz.
 
Não amam muito isso.
 
Em fim de um nada.
 
Mas mordo a orelha que trago na lancheira.
 
Não me escuto nesta faina motriz.
 
Sem tudo enfim.