quinta-feira, 28 de agosto de 2014

# mundo de oz


Devo fazer uma confissão, doída, mas precisa: a fina massa votante no projeto demo-tucano de sociedade e de país é merecedora dos meus respeitos.

Sim, como se trata de política, os cidadãos que votam no PSDB e no seu candidato, Aécio Neves, acreditam em algo corpóreo, em algo palpável, que existe, que tem forma, que tem cor, que tem gosto, que se pode ver, ouvir e cheirar. 

Independentemente de serem qualificadas sob os piores adjetivos possíveis, votar no PSDB é votar em teses, teorias e ideologia concretas. É votar em algo fisicamente possível, em algo quântico, quantificável, possível de ser selado, registrado e carimbado, por mais que o voo seja restrito só para as primeiras classes.

Sim, no plano da política e da conformação estatal, o PSDB e as suas pautas existem, as suas vontades e ações são propositadas, pertinentes e coerentes com os seus interesses, e os seus interesses, por sua vez, não se escondem e nem se dissimulam na demagogia existencial.

E tudo isso porque se fala de "política", e não de religião, na qual crer no metafísico ou na fé movedora de montanhas não permite discussão sobre razões ou porquês.

E tudo isso porque se fala de "projeto político", e não de projeção de ficção científica, na qual o imaginário, o impossível e o inverossímil seriam naturais e funcionais.

Portanto, votar no PSDB está numa dimensão real e humana, razão pela qual os seus ex-eleitores não precisam ter vergonha e fugir da raia para se esconder na obnubilação alheia.

Ao contrário, votar em Marina Silva, sem partido, sem lógica e sem noção, é votar numa onda espiritual, num mundo de fantasia, num conto de fadas, numa ideia de reino encantado e celestial que só cabe para se discutir e pensar religião e ficção.

E não política, e não o Estado.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

# alegorias e sátiras


Pela sopa de coligações, regimentos, alianças e conchavos que conformam a política de hoje, nunca mais o Brasil verá grandes debates, opondo ideias e propostas individualmente claras com dezenas de grandes partidos e as suas máximas e sérias lideranças.
 
Por isso, doravante os debates sempre serão o que se viu ontem: voláteis, vulgares e vazios.
 
Mas, mesmo assim, alguma análise se pode fazer  e v. aqui um bom resumo.
 
A primeira, é da absoluta necessidade de volte-e-meia se ver esta gente que radicaliza. Mas não radicais preconceituosos, reacionários e bandidos, que usam da posição parlamentar ou cívica para blasfemar contra pobres, negros, homossexuais etc., e nem os "radicais de conveniência", que falam apenas para tentar soarem bem, ficando claro que não acreditam numa só gota do que dizem. 

Falo, pois, dos radicais utópicos, heréticos e malditos que gritam contra o pensamento único político, econômico, cultural e moral, como ontem figuraram Luciana Genro (PSOL) e, ainda que de forma meio histriônica, Eduardo Jorge (PV). Eles, se não servem para nada sob o ponto de vista da praxis política, servem ao menos para lembrar que nestes delírios e nessas mais descabeladas fantasias é que reside o "ser" humano.
 
Depois, mais uma confirmação de que o PSDB acabou (v. aqui). 

É claro que o cansado candidato até tentou – e se esforçou, com uma clara evolução pessoal na arte de (tentar) se comunicar –, o problema é que o discurso e a prática da banda demo-tucana realmente faliu, silenciada e soterrada pela história que a revelou como a última grande vendilhona do templo. 

Agora, portanto, só resta saber se o tal Pastor Everaldo ultrapassará Aécio Neves no dia 5 de outubro.
 
Por fim, sobre as duas candidatas que lideram as intenções de voto, duas conclusões.
 
A primeira é a de que a presidenta Dilma realmente não consegue dizer o que pensa, o que faz e o que fará. É, claro, quase um defeito congênito; logo, não tem como se transformar numa brilhante oradora ou transmutar-se para adquirir a verve dos grandes políticos de palanque. 

Corrigiu muita coisa e evoluiu bem, mas Dilma seria imbatível se conseguisse falar, com clareza e fluidez, tudo o que sabe, tudo o que tem feito e tudo o que continuará a fazer no comando e na gestão pública do Brasil. Uma pena, pois, para a pauta progressista em jogo – e para a campanha, que ainda tenta absorver parte dos brancos e indecisos.
 
A segunda, é de que a candidata Marina é mesmo um anjo que caiu dos céus nos braços da direita (v. aqui). 
 
E um anjo inclusive no sentido espiritual, afinal, tem o dom da ubiquidade, de reunir em cada gesto e em cada fala a virtude da comunhão plena, de congraçar tudo e todos num mesmo pote sagrado para alçar-se como a divina providência que salvará o povo brasileiro. 
 
Sim, meus caros, Marina, a nossa Ghandi amazônica, é o protótipo da imaculada política, uma espécie de anti-Maquiavel.

Marina é a "princesa" que toda a massa apolítica tanto e sempre ansiava. 

E que os conservadores, ilustrados pela grande e velha mídia, como nunca esperavam.

 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

# enterro


De tudo o que temos visto nestes últimos dias de campanhas eleitorais, a maior das verdades é a seguinte: o PSDB definitivamente acabou.

A turma tucana, as suas ideias e o seu jeito de fazer e pensar a política estão em flagrante processo falimentar.

Exclua-se São Paulo – embora engula a sua capital com Fernando Haddad, o ótimo prefeito recém-eleito do PT , e os restos mortais do PSDB se acumulam sob um contínuo ritmo de decomposição para, em breve, se juntar à UDN, à Arena, ao PFL e ao DEM entre as famosas siglas findas ou decadentes da nossa história político-partidária.

É claro que a pobre Marina se mostra apenas mais uma versão conservadora reloaded e, ao cabo, seguirá a adorada cartilha dos neoliberais, uma vez que não tem voz ativa alguma e já se cerca da pior espécie de economistas, gestores e financiadores (v. aqui e aqui).

Porém, Marina e o PSB, embora já sejam da direita (v. aqui), não são da autêntica cepa demo-tucana.

Por isso, 2014 será enfim o ano de enterro daquele partido e dos seus infames projetos para o Brasil.

Mas, atenção, pois certamente eles ressurgirão das profundezes do apocalipse, quietinhos, rastejando e ronronando para os braços da Marina e a sua suprema e miraculosa divindade. 

É nisso, enfim, que toda a direita passa a depositar as suas esperanças, canonizando-a em praça televisiva como uma Tiradentes de saias, uma Gandhi amazônica – ou, simplesmente, acolhendo-a como uma besta de Troia.

Afinal, a grande mídia já comprou a ideia, descartando de vez a candidatura do oco Aécio.

O funeral do PSDB, meus caros, já começou.



domingo, 24 de agosto de 2014

# rebenquear

 
 
Dizem que se morre de saudades.
 
No meu caso, acho que prefiro morrer a sentir saudade.
 
Provavelmente alguém já disse isso, se não disse, é porque nunca a sentiu.
 
Sentir a saudade dói porque não cura nem com a sua ausência: não existe "não-saudade" como medida terapêutica.
 
Isso porque nunca não se tem saudade, não importa o tempo em que se fique junto.
 
E não se enganem: a convivência é cruel porque ilude, porque fantasia uma eternidade que não dura senão aqueles momentos, sempre breves, sempre intensos.
 
E quando menos se espera, há a separação, há a distância, e tudo volta à normalidade de alguém sempre rebenqueado das saudades.
 
Saudades, pois, que não podem ser medidas, nem repostas.
 
Para o que só há respostas na arte dos finitos reencontros – e, por isso, a saudade pode sim ser tocada, afinal, a cada momento antes das partidas pegamos, abraçamos, beijamos e tateamos quem vai nos deixar.
 
Até que para ela voltamos, e dela somos inescapáveis.
 
É esta a dimensão absurda da saudade.
 
Que açoita, açoita, açoita, açoita.
 
E nunca para.
 
 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

# garganta rasa


La Dolce Vita revela o vazio existencial e a decadência moral da sociedade burguesa italiana nos anos 60. 

Mas também, e muito bem, se aplica às soluções da turma demo-tucana (DEM e PSDB) para o Brasil, uma vez que se mostram absolutamente decadentes e vazias.

As suas ideias insistem em desabar num rotundo vácuo, a flagrar o nada existencial e político desta classe política que está num beco, sem saída e sem volta, só com um precipício à frente.

É esta direita, marcada na burguesia da obra de Fellini, que pretende retomar as rédeas do Brasil.

E nas propostas a comédia é dramática.

Uma delas, espalhada com insistência constrangedora por Aécio Neves, é aquela de reduzir o número de ministérios pela metade, magnânimo plano para reduzir custos da máquina pública mas que apenas mostra a retórica da velha ideologia do Estado mínimo – a propósito, v. aqui o bravo Ciro Gomes já desmontando esta panaceia, bem diante do ordinário choro do rapagote da Veja.

Ora, ora, qual seria o impacto fiscal? Praticamente nulo, afinal, (i) os servidores de carreira não serão demitidos, só serão incorporados por outros órgãos, e (ii) as políticas públicas não serão abandonadas, só serão repassadas para os orçamentos de outros órgãos. 

Ademais, os cortes serão em ministérios pequenos, com poucas despesas administrativas, parte das quais será incorporada a outros ministérios, sob pena de gerar um déficit de atenção em áreas tão importantes como "igualdade racial", "mulheres" e "pequenos negócios".

Enfim, o corte efetivo restringir-se-á aos salários dos ministros e às eventuais reduções de despesas administrativas, que reduzidas ao papel não chega a uma economia mensal minimamente razoável.

É claro que debater o número de ministérios faz sentido do ponto de vista gerencial, mas nunca sob a ótica financeira.

Mas isso a turma oposicionista passa longe, pois aquela ladainha de "xoque de jestão" dos tucanos já foi desmascarada e hoje não engana mais ninguém.

É claro que debater a contenção de gastos é importante, mas não se pode tratar a medida com este simplismo ou sob a cantilena de que só não se faz porque não se quer (v. aqui).

Mas disso não se fala a sério, tão-pouco com a mínima retidão exigida.


Afinal, Política não é o que se quer discutir.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

# ao ataque submarinho



O objetivo da grande e tradicional mídia não é (e nunca será) fazer jornalismo.

Ela faz política, ela defende interesses privados e visa ao lucro – apenas isso.

O que vira "notícia" é a opinião, e não os fatos; a verdade, a informação e os feitos são substituídos por "versões", "pautas" e "boatos".

Ora servidas à la carte, ora na base do fast-foodora em rodízio, mas sempre à mostra, sempre à disposição do alimentando, irremissível na busca cega de saciar as suas conservadas convicções.

E o que causa estranheza é a a insistência no defensivo discurso de que esta mídia não poderia ser assim, de que isso é errado, de que é inconstitucional, de que há crimes na profusão de mentiras... enfim, causa desgosto tanto chororô chato e chinfrim.

Afinal, esse comportamento e esse ativismo dos grandes (e velhos) grupos de comunicação são da sua essência, são da sua razão de existir e fazem parte do histórico jogo promovido por eles (v. aquiaqui e aqui, e lembrem daquela história do professor de filosofia da rede pública de ensino que desmascarou o que efetivamente interessa à mídia, aqui).

Assim, pois, não se pode clamar por uma relação ou vinculação mais ou menos democrática, mais ou menos legítima, afinal, neste ambiente de embate político-ideológico a democracia é aparente, é uma sombra, é um não-combate, e o que os legitima é a própria liberdade de um país democrático, tudo a soar um tanto quanto contraditório.

Logo, o que o Estado precisa é precaver-se, mostrar-se e, principalmente, instituir um eficiente sistema de comunicação social que, na base das regras deste jogo, use do poder que lhe respalda e que democraticamente lhe afiançou.

Tese e antítese, ponto e contraponto, ataque e contra-ataque, denúncia e apuração, crítica e explicação, lado a lado, minuto a minuto, instantaneamente apresentados e virtuosamente reproduzidos.

E mais: com este sistema implementado, parar de encher os bolsões dos barões da mídia, que historicamente são abastecidos pela publicidade estatal.

Enfim, diante do sistema político e da conjuntura institucional vigente, a Administração Pública não pode se fiar na expectativa de grandes e inovadoras reformas legislativas, pois está à mercê dos historicamente arrendados interesses parlamentares.

Tão-pouco da misericórdia, do bom-senso e do civismo dos donos das vozes.

Tem, pois, que jogar o jogo, o jogo da "comunicação" – como aqui já dissertamos, lembrando do saudoso Chacrinha.

Enfim, um jogo duro no qual as armas já foram escolhidas.

É hora de aprender a usá-las.



 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

# a baba e o espírito



A tese de Adolf Hitler -- ratificada pelas teorias que sempre trataram da psiquê humana -- era muito simples: nada une tanto um grupo díspar de seguidores do que o "ódio".

E assim o líder nazista construiu uma grande máquina na qual essa emoção negativa para tratar das subclasses funcionava com rara eficácia.

Por aqui, a negação do outro lado -- cujo teor fez surgiu, pós-Holocausto, a ideia da "banalização do mal" (v. aqui) -- também é alimentada, diuturnamente, por tvs, jornais, revistas, sites, rádios e para-choques de caminhão que mostram o pobre e o nordestino como seres inferiores, incapazes de terem seus próprios juízos.

A negação, partida de uma gente incapaz de pensar pelo lado esquerdo do peito e de sentir pelo lado humano do cérebro, funda-se no fetiche da meritocracia, digna daqueles bem-nascidos, ou na cantilena de que a sua consciência é a única ciente, a única com a ciência de avaliar o bem e o mal e de decidir os destinos do país.

Veem, pelos olhos platinados da tv, que o destino é ser "contra-tudo-isso-que-está aí".

Só esquecem de ver, com os olhos que a terra há de comer, que o destino deles não é o destino de outras dezenas de milhões de brasileiros mal classificados e que sempre foram -- e ainda são -- ultrajados pelas classes usurpadoras do Estado.

Os lancinantes discursos do Führer estimularam a paixão do ódio, tal qual os editoriais da grande mídia perante seu público-alvo.

E grande parte da nossa classe média -- medusicamente cooptada pelas teses reacionárias da elite -- comprou esta ideia, sorvendo o veneno produzido amiúde por todos os cantos midiáticos.

E o produto é o ódio, ódio babado e ruminado pela face pó-de-arroz nativa (v. aqui e aqui, nas palavras de Veríssimo e Bresser-Pereira).

Ora, o que sempre se percebeu no Brasil é a vontade de um Estado que tenha um só lado, que estanque a massa na miséria analfabeta e que pare de tentar ser de todos e para todos.

Essa é a nossa vontade secular, o desejo felino da nossa elite empedernida, tão desgostosa da ações populares e populistas e que na nossa história recente levou a matar Getúlio e a derrubar Jango para dar o Golpe.

Desta vez, quem escancara a divisão do país, o recalque social e a falta de espírito cívico, nacional e democrático das nossas elites são os governos Lula e Dilma.

E não ao contrário, como bem ilustrou Leonardo Boff (v. aqui e aqui).

Afinal, é o contrário da democracia, da soberania e da desigualdade que sustenta  as bases programáticas dos governos de direita e que dá asas à imaginação golpista de um udenismo ressuscitado.

Não à toa, a inveterada aversão por trás da contínua depreciação de um grupo político (e da incessante desconstrução da Política) tem por fim a retomada do status quo, a despolitização da vida pública, a apolitização do cidadão e o recrudescimento das "mãos visíveis" que algemam o Estado social.

É raiva de uma classe que jamais enxergou a realidade da "luta de classes", afinal, ora, ela sempre foi tutelada por governos que eram da sua classe, ao contrário da clara preferência que Lula e Dilma, do PT, fizeram nas suas campanhas, eleições e mandatos.

É o rancor pelo potencial fim de um exército de mão-de-obra barata, explorada e fruto dos processos de colonização escravocrata, de urbanização favelizada e, claro, de  educação talhada, retalhada e destroçada.

É, pois, o espírito da casa-grande, do patrimonialismo, da nobiliarquia e da sociedade estamental em estado bruto. 

Na contramão do mundo, a oportuna cegueira faz uma grande parte do Brasil ser conduzida pelos cabrestos interesses de quem na história sempre fez desta "terra" uma terra de poucos, agora sob os auspícios de um neoliberalismo que sabe à naftalina.

Mas, como se disse, é uma "cegueira branca", aquela da alegoria de Saramago (v. aqui e aqui).

Afinal, porque incapaz de querer ver (e poder reparar), não se faz a crítica honesta, coerente, técnica e politizada dos erros que este governo comete.

Não.

Hoje, a fúria que baba do canto da fala é patológica e, porque ilógica, ensaia o retrocesso, o regresso e o resgate de programas econômicos funestos e de políticas públicas nauseabundas.

A nau que pode voltar a nos conduzir, não sejamos tolos, tem um porto certo.

E neste norte a bússola é o ódio.

De um ódio que pode mover montanhas.



 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

# a aranha e a tábua de salvação


Dantes uma mera eco-fundamentalista neandertal, eis que a grande mídia (e a classe média) redescobre Marina Silva e faz dela a evolução da espécie política para recarimbá-la como a “queridinha do Brasil”.

Mas, convenhamos, não há nenhuma surpresa nesse fato: há quatro anos a estratégia foi a mesma e, há oito, até em Heloísa Helena a onda midiática depositou certas esperanças de conter Dilma e Lula.

O que não se esperava, porém, é a mesma tática com a mesma pessoa (v. aqui).

Hoje, com a morte da plataforma Eduardo Campos e seus pífios 8%, a coisa transmuda e novamente vem esverdeada, com um sorriso franciscano e com ares de mico-leão-dourado.

Se antes Marina saiu do PT (e do Governo) para não entrar na história, agora os ventos parecem soprar com mais força e carregá-la junto sabe-se bem para onde.

Ainda raivosa pelo fato de Lula ter preterido-a em relação à Dilma como candidata presidencial de 2010, Marina entregou-se ao ardiloso e insistente assédio do afoito Campos, pois nele enxergou a oportunidade de ressurgir do nada, ressair do ostracismo e resplandecer para os holofotes platinados e midiáticos globais. 

Sabe-se, claro, que no Brasil os verdes nunca federam e nem cheiraram o orgânico sabor de um partido ideológico e independente. 

Aproveitando-se disso, Marina debandou para tentar ficar mais moderninha e livre para criar um novo partido, uma tal de REDE que até hoje não saiu do papel e não enredou ninguém.

Logo, o real foco, agora, é outro, e nada sócio-filosófico-ideológico-antropológico-ecológico... 

E ela passou a ser bastante (e convenientemente) pragmática, com a sua filiação à uma ensopada legenda (PSB) e com um discurso ubíquo e umbilicalmente ligado a tudo e a todos. 

Em suma, se na lente da Globo a candidata Marina condena o pragmatismo do PT, fora dela faz o mesmo, travestido de "alternativa".

Ora, nestes nossos tempos, os ex-verdes olorizam-se pelo aroma prosecco das cheias taças que desfilam sobre as mesas enfeitadas da malta pequeno-burguesa, sob o arrepio de se fazer um "nova política"  é, segundo eles, a lógica da darwinização.

E desta cepa, como indefectível fruto, brota Marina Silva.

Marina, a reboque da grande mídia, que por sua vez é porta-voz dos grandes interesses econômico-financeiros e da ignorância da classe média, tem uma meta: matar a gestão Lula e Dilma, usando como arma a comoção geral em face do episódio trágico, a atmosfera de pena e de velas transmitida a toda hora sob um ar de "recado divino". 

Marina, coitada, antes defensora de índios, boitatá e pirarucus e da política evangelista – e não da evangelização na política –, torna-se agora a última esperança de um 2º turno e a última bala de prata da oposição retrógrada. E, assim, torna-se a heroína defensora das políticas mais atrasadas e mais reacionárias do mundo político.

Marina, com o mote de sair-se bem aos olhos do povo, nega o desenvolvimento e nega a política, pretendendo que se despolitize a Política (v. aqui). E, assim, cai no gosto populesco com as teses do mundo privado, privatista e não-governamental.

Marina não tem senso administrativo, não tem noção de gestão pública e não tem governança alguma, e por isso - sim, por isso! - foi catapultada como a grande herdeira de um espólio ainda bastante raso. E, assim, acalanta os interesses de quem quer ver uma marionete no comando do Estado.

Marina, ainda, com esta cantilena da "terceira via", veste um capuz mágico para iludir que há outro caminho além da direita ou da esquerda

Ora, ora... se não vou para lá e nem para cá – ainda que mais ou menos próximo das extremas e do centro –, fico no meio e, então, passo a ser um conservador. E é desse jogo que as famiglias nacionais gostam, e dos seus resultados são dependentes. E é este clima que os revoltosos nacionais curtem, e do seu chorume é que se fartam (v. aqui).

Marina, meus caros, embora com um passado que não o faça ser de direita e com algumas convicções do presente que não a façam estar à direita, é apenas mais uma destas figuras que se tornaram da direita (v. aqui).

Diante da atual conjuntura nacional que não engole mais o papo da turma demo-tucana e que já prepara o seu funeral – salvo, ainda, no Estado de São Paulo –, Marina traveste-se como a exótica musa capaz de convencer alienados e descolados de que o projeto petista não pode mais seguir em frente.

E, assim, nela se vê a única (e última) esperança de derrotar Dilma que, de chapeuzinho do MST e vestida de vermelho, finalmente dançará a sua dança para, neste seu próximo mandato, propor um governo sem o diabo (v. aqui).

Sim, apenas a ex-chapeuzinho verde será agora capaz de levar os interesses conservadores para um 2º turno, momento em que se tentará, a todo custo, promover a reviravolta eleitoral e insistir com a "ordem" em um país que precisa retomar o progresso (v. aqui).

E, por isso, desconfia-se até que a tosca candidatura de Aécio Neves seja abandonada e que a banda tucana e todo o turbilhão da grande mídia pule de cabeça na débil teia da "Viúva Branca", uma espécie rara, inapta para atacar e incapaz de armar e sustentar a sua própria estrutura, agindo apenas por meio de um blá-blá-blá turvo, volúvel e vazio, bem a gosto das co-espécies verdadeiramente venenosas

O jogo, assim, está com essa gente toda que, não tendo a mínima coragem de votar no ideal retrógrado e vendilhão do PSDB – e de admitir, pelas vias diretas, a volta do mercado na condução do Estado – e tendo máximo hor-ror aos acertos e erros do PT – e de reconhecer, nas urnas, os progressistas governos que Lula e Dilma fizeram –, preferirá sair do “nulo”, do “branco” ou da “abstenção” para cair no conto da vigária.

Enfim, nesta fúnebre alquimia que está a criar uma candidata sobre-humana, finalmente há um certo risco de Dilma não ser eleita, para júbilo da oposição.

E para agonia do Brasil.


domingo, 17 de agosto de 2014

# a foice que ceifa



A tragédia da morte é sempre trágica porque é uma tragédia.

Cristão e católico – talvez fajuto –, não consigo imaginar uma morte sequer que não se qualifique como trágica.

Não consigo deixar de encarar o fato como um ato de foice a ceifar a vida.

E nele, no fatídico fato, foi-se a seiva elaborada da vida.

É lógico que o inesperado, o acaso, o infortúnio, o funesto da morte abrupta espanta e tonteia.

Mas como admitir uma hierarquia entre o desespero do acidente fatal, a angústia da contínua e crescente perda e a extrema dor da última despedida, como assim pungiam dois grandes amigos cujo pai velavam nesta terça-feira?

Logo, a mim o que enlouquece é a loucura de que aquela pessoa – "de repente, não mais que de repente", como poetizaria Vinícius – não estará mais contigo, não estará mais ali, ao lado, ao longe, ao muito longe, podendo ser abraçada, tocada, beijada, vista e ouvida a qualquer momento.

Custa-me muito querer entender tudo isso – e olha que não faltam conversas, reflexões, aulas e exemplos dos mais variados tipos, formas e gostos acerca desta ideia, como aqui  aqui já explanamos.

Já pensei que o ideal seria já nascermos com esta certeza: prazo de validade tatuado na bochecha.

E assim, como velas, íamos aos poucos apagando e com todos bem cientes de que estávamos acabando.

Mas, depois, fui pensando no caos prático que isto tudo traria e achei melhor não... afora, claro, toda a filosofia religiosa que se propõe a garantir um sentido disso tudo aqui e que, então, passaria a não ter significado e valor algum.

Confesso, portanto, ainda não aceitar o fato de ser "a única certeza da vida"; nem a desculpa sobre a tal "ordem natural das coisas" é capaz de sensibilizar-me, quando o caso envolve os nossos velhos; tão-pouco a tese do "destino divino" me conforta para as excepcionais situações.

É que insisto em ser pragmático num assunto que nada tem de pragmatismo.

É, portanto, um problema de estrutura e método, e ao mesmo tempo de especulação do ser, cuja associação não consigo compreender, tal qual nas cartesianas "meditações metafísicas".

Ou, então, ideia assente nos pontos de vista da "vontade" e da "representação", nos quais Schopenhauer pretendia defender a tese da indestrutibilidade da nossa essência. Para o filósofo alemão, a preocupação com tão breve espaço de tempo – com este "intermezzo momentâneo", com esta “mediação de um sonho efêmero de vida” –  e com este apego à vida é irracional e cega.

Eu, porém, insisto em não admitir porque não me imagino aceitando, como num passe de lógica, nunca mais viver com as pessoas que tanto amamos, as quais, num qualquer segundo seguinte, se vão como um "sopro", diria Oscar.

Calma, lá nos céus da vida eterna haverá o definitivo (re)encontro... não, não, a minha fé, ainda que hesitante, assegura a vida eterna – a Vida –, mas não que vou ter com as pessoas amadas, viventes comigo aqui na efemeridade deste plano.

Até, talvez, realmente se trate de ser mais ou menos espiritualizado, mais ou menos católico, teológico e cristão.

Mas, para além, também se trata de não aguentar não se acabar em prantos para o fato de que todas essas pessoas que tão íntima e intensamente convivemos passarão a não mais existir.

Ora, ora, por que então amamos tanto e tanto estes seres que nasceram e viveram conosco?

É por isso que às vezes gostaria mesmo de ter nascido filho de chocadeira.

Para depois viver num eterno celibato como um monge ermitão.





sexta-feira, 15 de agosto de 2014

# lava de chumbo

 
No virtual espaço sideral de uma amiga (v. aqui), deparei-me com um texto bacana, escrito por Osho, de quem acho nunca ter ouvido falar.
 
Fala de solidão, de solitude e do singular momento a sós...
 
Descobri este meu "vazio" vagando pela Europa, no meu particular camino santiagués, em profundos setenta e tal dias a rodar da Ibéria ao Leste, da Escandinávia ao Adriático, com o centro do velho mundo como eixo e a busca do meu novo centro como meta.
 
Peregrino, senti ultrapassar os limites da "solitude" do tal Osho; lá, uma solidão sem fim abria espaço para tudo e, perigosa, levava à torrente intensa de ideias, teses, dogmas e sentimentos que faziam aprofundar ainda mais num espaço sem fim.
 
Tem-se uma verdade: como nunca se pode, são nestas situações que nos pervertermos para abrir os olhos e (se) ver, e (se) enxergar, e (se) reparar. E se intocável, vagueava até tatear numa realidade cada vez mais clara, num cheiro cego de quem ali só escutava o buraco meio misantropo de línguas que vinham a toda hora diferentes: o húngaro do diabo, o polonês da wodka, o português do pravda, o coaxar do croata e o sueco de um mundo que um dia há de vir – e que assim seja (amém...).
 
Sê!, adverte.
 
E deixa-me notar algo de muito errado no ar.
 
Ar rarefeito, sublinhe-se.
 
E que aspirado por quem não era, traz o arrebatador efeito de compreender que a ordem das nossas coisas merece um novo arranjo, merece a desordem para ser reconstruída à imagem e à semelhança de tudo o que é mais justo neste nonsense mar que permanece dividido, diluído, morto.
 
Antes da solidão, enquanto ainda se está apenas sozinho, embrulha-se num estômago de inquietações que se faz sentir sem mentir, que se sente permitir levar-se adiante como se aquilo tudo não fosse com você, e como se dissimular para todo o exército que se forma diante do espelho fosse a resoluta salvação.
 
Não, não te resolve.
 
Não, você não consegue não se ver.
 
E mais.
 
As emas que em volta emanam e borbulham aos borbotões, reclusas com suas cabeças mergulhadas em outro planeta, não te podem convencer de que a ótica é outra, de que o-seu-ponto-de-vista-não-tem-a-vista-verídica e de que as viscosas e grossas vistas de quem finge não querer ver compõem o melhor remédio da terra – e, naquele infindo tempo de isolação, você simplesmente percebe que lá atrás dele e de todas as sete cores daquela turva imensidão está, enfim, o pote de colírio.
 
Mas, sem calma, não se permita o mínimo resfôlego.
 
É que a sina solitária finge-se para não se mostrar que ali se está só no começo.
 
Sempre, sempre no começo, a te levar só para eternos recomeços que te fazem sempre querer voltar ao zero, à vala vazia, àquela avara estaca do status quo ante, ao estado que te mantém no falso estado que te alivia para te alienar na pureza da inércia, do cômodo, do morno engodo vomitado pelas letras cartesianas da lei, da moral e dos bons costumes que por toda a vida te desencaminharam.
 
Esta é a promessa, esta é a jura da existência.
 
E por isso o privilégio por encontrar a gota d´água da cola mágica que sempre prometeram jamais existir.
 
Sim, sozinho, e na poética vágada da solidão, se descobre melhor o mundo.
 
Único, como um álbum de figurinhas que de criança quase desisti: custoso, curvo, demorado e difícil, mas que completei e que para sempre ficará comigo guardado.
 
Como ficarão, espero, as lições aprendidas daquela minha silenciosa peregrinação.
 
Todas bem emaranhadas, apreendidas no labirinto da alma.
 


terça-feira, 5 de agosto de 2014

# toga & beluga


O estranho caso do juiz de direito que expressou em recente decisão a pífia verve ideológica que o sustenta (v. aqui e aqui) parece ser apenas mais uma prova a corroborar a tese de que o Poder Judiciário é o mais crítico e sórdido dos poderes da República.
 
Formado por uma casta que, de quando em vez, aceita um ou outro alienígena como membro, o Judiciário alcatifa-se sob os mais convenientes mantos para driblar a justiça.
 
Para soar seus atos como imparciais, aplica a letra fria da lei, sob uma exegese pobre e baldia, aplicada aos borbotões nos casos que envolvem a massa, aqui sempre num ritmo de produção em série e pouca séria.
 
Entretanto, para atender aos interesses das figuras secularmente reinantes nestes tristes trópicos, costuma tergiversar, inventar e carcomer o espírito da lei, fatiando-a e servindo à la carte, com esteio em tudo que é doutrina, jurisprudência ou mandinga disponível. 

São merecidos, claro, parênteses para sublinhar as admiráveis exceções, pois se conhece Brasil adentro vários magistrados que não apenas legitimam o cargo público, como também honram a nossa gente e a nossa nação, orgulhando-nos pela independência, competência e excelência.
 
Mas eis que na tal decisão judicial em comento, o juiz, de modo bastante tosco, parece gostar do maniqueísta discurso que reduz as pessoas de esquerda – sim, isso existe, para desespero dos apóstolos do fim da história e dos crentes da geleia geral – de modo a catalogá-las no reino da "hipocrisia", no caso de não serem pobres, ou da "inveja", nos fartos casos em que são (v. aqui breve digressão sobre essa lógica infame).
 
Não fosse pela raciocínio débil e infantil em si – o que porém não deve ser proibido, pois se trata do pleno gozo da "liberdade de expressão" e de "manifestação de pensamento" constitucionalmente previstas , o divino magistrado ultrapassa qualquer limite do legal e do razoável ao expressar a sua volúpia patrulheira em uma peça judicial que, técnica por excelência, jamais poderia admitir elucubrações de cunho tão pernóstico e burlesco.
 
Se há ou não razões para se sustentar a prisão dos jovens, que se debruce sobre o contexto fático-probatório e, com base na lei, se decida, independentemente dos holofotes e dos infaustos interesses em jogo, porquanto respeitantes do ordenamento nacional – a propósito, v. aqui e aqui aquela mui afamada peripécia magistrática.

E já igualmente gize-se: não há qualquer mínima chance de se apoiar manifestações vazias e bandidas – sejam de esquerda, de direita, de cima, de fora, do meio, meigas, doces, roxas, rosas, acres, ocres ou de que lado, tipo ou gosto forem – cujos fins exijam meios inconciliáveis com um Estado Republicano, Democrático e de Direito, como inclusive aquiaquiaqui colocamos.  
 
Porém, é inconcebível tratar a matéria com tamanha jocosidade e pequenez, com se fosse o magistrado partícipe de alguma rixa juvenil, em ambiente colegial, tudo sob os apupos das histéricas meninas em suas marias-chiquinhas.
 
Ou de sermão paterno, típico dos velhacos de outrora ou dos reaças de hoje, leitores contumazes da velha mídia e de seus "especialistas" – por sinal, um desses "especialistas", dono da versão brasileira da frase usada pelo juiz na sentença ("esquerda caviar"), recentemente tomou aqui uma sonora tosquiadela em rede nacional.
 
Ou, quem sabe ainda, de enfadonha ladainha eclesiástica que inundava os templos pré-Francisco, defensora dos fortes e opressores e promotora do status quo.
 
Este juiz, sob o cadafalso do Estado, pensa que a toga outorga-lhe o direito de não fazer e de não pensar o Direito.

Razão pela qual julga suficiente derramar sobre o papel timbrado do Judiciário todo o seu fanatismo, apunhando uma pena amotinada, amulética e amolecada.

E jurando tudo ser apolítico.