quarta-feira, 28 de maio de 2014

# carne e osso


Ainda sou da época em que as famílias se reuniam em torno da mesa para comer e conversar. 

Pequenas, grandes, ainda que apenas aos fins de semana, enfim, havia o hábito desta reunião, da conversa de balanço do dia ou da semana, da divagação de expectativas e frustrações, tudo desmascaradamente pulsante.

Mudaram os tempos, mudaram as famílias e (não só) este costume tem perdido espaço.

A nova dinâmica da relação espaço-tempo – fruto das globalizações – e a reconformação do papel da família – em termos de importância, de nucleação e de eticidade – transformaram aquele e outros tantos hábitos.  

Veio o fenômeno da desfamiliarização.

Sim, novos centros do cotidiano, novas perspectivas relacionais, novas ideias, novas vontades e novas necessidades que foram sendo construídas pela inaptidão do berço familiar em formá-las, supri-las e compreendê-las.

Sair da família, em tese, era sair do reacionário, da vigília, do medo, da punição.

Criar agrupamentos fora do sangue nosso de cada dia seria quase como uma condição de sobrevivência – ou mesmo de existência.

Tem-se outras famílias, outros núcleos, e de modo algum ruim, pois insistente na condição do intercâmbio físico, plural e ressonante do ser humano.

Ademais, fez-se romper a ideia da interação física.

E até se compreende, haja vista a velocidade do cotidiano, a profusão de simultâneos eventos e, mais ainda, o fim das cercas culturais que nos prendiam à mesma terra por toda a vida.

Porém, agora, o que acontece é a "individuação" e a sua metalinguagem do mundo virtual.

Hoje, cada qual pega a sua comida, senta-se na frente da sua preferida tela e come.

E não mais dialoga, apenas vendo passivamente todo o mundo passar à sua frente, sem se complicar, sem se afetar, sem pertencer a nada.

Ou dialoga com si, por meio dos seus vários “eus” e para um mundo virtual de outros tantos personagens pasteurizados, líquidos, liquidificados.

E se a interação na rede não interessa, aperta um botão e dá adeus.

Mas dar adeus ao cotidiano real e se desconectar das relações humanas, e das relações tão intimamente humanas, não é tão (ou nada) fácil.

Não é como um álbum de figurinhas para se colecionar, preencher e largar, tão-pouco produtos de gôndolas que se retiram, se usam, se curtem e se descartam.

O mundo real, vivo, a cores, com pele, tato, osso e sujeira, é um pouco diferente.

E como tudo hoje quer se mostrar mais simples, descartável e descomprometido, aos poucos cada um vai perdendo a capacidade de “ter-e-querer-se-envolver“ nos relacionamentos, de se dedicar e de se apresentar.

E de se fazer presente, vivamente presente.

Ora, buscar viver uma vida sem transformar os conflitos que valem a pena resulta numa vida que não vale a pena – e a vida, além de chata, seria vazia.

Como sem sentido e anoréxica é esta vida oniricamente enraizada num monitor, fantasiosamente criada sob esta retumbante pseudorrealidade social.

E plugada no nada.


domingo, 25 de maio de 2014

# atleticania (xvi)



Minhas lembranças da saga como atleticano iniciam-se por volta de 1982 e 1983.

No primeiro ano, o título paranaense -- ainda numa época em que os torneios regionais tinham alguma importância -- e um time que enchia os olhos, ainda mais para a vista impúbere de alguém que estreava pelos campos de futebol.

Lembro-me bem daquele domingo, lá no Couto Pereira, a comemorar a conquista ao lado do meu jovem pai, numa final em que atropelamos o Colorado por uma goleada cujo placar já não me recordo, mas que tem as suas emoções devidamente guardadas na eterna memória.

Lembro-me de muitos gols, a festa rubro-negra a invadir o gramado e o início de uma relação de amor pelas cores de um clube.

Depois, em 83, a semifinal do Brasileirão contra o global e midiático Flamengo, cuja partida da volta, em Curitiba, nos foi surrupiada pelos múltiplos e históricos interesses em jogo.

Lembro-me que tínhamos praticamente o mesmo grande time do ano anterior e logo com trinta minutos do primeiro tempo o Atlético já vencia por 2 x 0 -- mas doce ilusão acreditar que nos deixariam avançar, e o jogo acabou com este mesmo escore e a nossa eliminação.

E também me lembro deste outro domingo (e como se fosse hoje), lá na garagem da casa da minha vó, a ver meu ainda jovem pai saindo para ir àquele mesmo Couto Pereira -- naquela tarde, com quase 70 mil pessoas, fez-se o maior público da história do estádio -- e me dizendo: "Hoje você não pode ir, você é muito pequeno, estará tudo muito lotado, muita confusão, mas prometo que será a última vez...". Eu, triste, num abraço de colo, devo ter lhe dito: "Tudo bem, pai... mas eles vão fazer gols, né?".

Chamar por "eles" não tinha nenhum significado subliminar para quem, mesmo sendo um infante atleticano, bem sabia do que nosso time era feito.

É que, para além daquelas lembranças todas, a minha maior recordação era mesmo "deles".

Era uma dupla que conhecia o nosso valor, que incendiava a massa rubro-negra, que nos enchia de um orgulho máximo e que de mim fizeram um grande piá atleticano.

Eram dois negros, bigodes, camisas 8 e 9, ponta-de-lança e centroavante, cérebro e artilheiro, organizador e matador.

Eram como um só, e sempre juntos eram meus nomes e meus titulares absolutos em todos os times de pelada, de botão, de meia e de bolinha.

Eram Assis e Washington.

Washington, ontem, nos deu adeus.

E com ele leva a paixão infantil de um dos meus dois primeiros ídolos no futebol.

Coincidentemente, num dia em que vencemos outro "Atletiba".

De modo convincente e festivo, a nos animar por se ver tentar resgatar a essência do jogo e de um clube  e de recuperar a máxima de que a nossa camisa só se veste por amor.. 

E assim esperamos ver muitas outras vitórias como a de hoje.

Para que também possamos ver muitas outras crianças rubro-negras criando seus novos heróis, comemorando, vibrando e torcendo por eles.

E até chorando.

Obrigado, Washington.

Obrigado, Atlético.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

# favas contadas

 
A chance de Dilma não ser eleita é zero.
 
Seria pelo ótimo governo que faz? É claro que não, pois não faz.
 
Seria pela falta de democracia político-partidária no país? É claro que não, pois não nos falta.
 
É, simplesmente, pelo absoluto caráter jocoso dos outros dois notáveis candidatos.
 
O primeiro, Aécio Neves, neto de um ex-quase-Presidente, é uma piada.
 
É o atraso do atraso do atraso.
 
É da turma neolibelô dos anos 90, daquele mesmo pessoal crente no Deus-mercado, no super-mercado e nas bravatas piratas e baratas das privatizações de tudo e de todos (v. aqui, aquiaqui e aqui).
 
É uma gente démodé, que sempre tentar voltar com aquele discurso cômico do "xoque de jestão" e aquela cantilena thatcherista – "não há alternativa!"  que quebrou parte do globo, para desespero do capital produtivo e de trabalhadores, e que disseminou crises mundo afora, para delírio dos donos do poder e do sistema financeiro. 
 
Ora, Aécio não tem nada além de arroubos perfumados e do ranço dos manuais ortodoxos de Economia, conservadores de Direito e reacionários de Política.

E terá, pois, seus pouco mais de 20%, como há doze anos sói acontecer, ainda que a reboque de todo o poder midiático e seus queridos heróis demo-tucanos.
 
O segundo, Eduardo Campos, outro neto de outra figura histórica, é o nada. 
 
É o avesso do avesso do avesso.
É da turma que não sabe o que quer, que não sabe para onde é mais convenientemente correr e que promove um discurso vão, vazio e repleto de contradições com seus verdes, azuis e vermelhos a tiracolo (v. aqui, aqui e aqui).
 
É uma gente obtusa, ansiosa por se mostrar abraçada a um mundo colorido, de fantasias e unicórnios, ao mesmo tempo em que nas entranhas carrega as mesmas espécies sórdidas, sujas e malvadas que perambulam por qualquer ambiente político-partidário.

Ora, Campos não tem nada além de espasmos requentados, e esse requentado não presta, pois logicamente ininteligível e pragmaticamente estéril em qualquer ciência.

E terá, pois, seus pouco mais de vinte minutos de fama, salvo seja  soerguido pela grande e desesperada mídia como o mais novo mutante.
Enfim, é como o mantra que há tempos um grande amigo carioca professa: "Vai ter Copa! Vai ter Belo Monte! E não vai ter 2º Turno!" (v. aqui)

Só esperamos que para o próximo quadriênio Dilma e o PT mudem, para que reguiem o leme à esquerda.

E parem, definitivamente, de dançar com o diabo (v. aqui).


 

terça-feira, 20 de maio de 2014

# guilherme tell


A vida, e mais especificamente o futebol, provoca situações comoventes.

Incita incomparável emoção, faz o coração pulsar atabalhoadamente e vê correr sangue, suor e lágrimas.

Nele se veem surgir epopeias homéricas, nascer herois fabulares, criar lendas e multiplicar mitos.

Dele se fazem estátuas, dele se montam nações e dele se constroem impérios.

Hoje, terça-feira, quase meia-noite, o Vasco da Gama seguia jogando pela segunda divisão do campeonato brasileiro.

E jogava em Teresina, capital do Piauí, tudo muito árido e num clima meio de neblina, meio de guardamento.

E jogava contra o Sampaio Correa, time tradicional do Maranhão, cujo fardamento é daquelas mais excêntricas coisas que se vê no velho e rude esporte bretão.

E, não satisfeito, perdia o jogo até os 48 minutos do segundo tempo.

E levava sufoco, e agonizava, e sofria, e parecia ainda incapaz de expurgar os efeitos daquela barbárie do final do ano passado (v. aqui).

Aí, vindo do ocaso, eis que na grande área adversária raia o intrépido Guilherme Biteco, uma nova e reluzente estrela de São Januário.

E empata o jogo.

Para sair vibrando, ensandecido, despindo-se da gloriosa camisa cruz-maltina e jogando-a para o alto, em êxtase.

Atrás dele, numa euforia invejável, um time inteiro na busca impávida pelos braços do deificado artilheiro.

Ao cabo, se lançam para se amontoar no gramado, a formar uma pilha única de aliviados guerreiros.

E tudo parecia Iniesta e seus agradecidos compañeros na comemoração daquele solitário gol na final da última Copa.

O futebol é mágico, meus amigos.


domingo, 18 de maio de 2014

# atleticania (xv)


Iludem-se os atleticanos por pensar que, após outro empate -- agora contra os reservas do último colocado --, o problema esteja (apenas) com o arremedo de treinador, um paraguayo que especula no nosso comando técnico.

A máxima culpa é, como se faz notório, do mandatário do clube, o tal Petraglia.

Aquiaqui e aqui já muito falamos disso, e agora prometemos ser a última vez que perderemos tempo com o assunto.

Petraglia é um câncer, um facínora, um ególatra, um destemperado, um cão raivoso que detesta o Atlético, o futebol do Atlético e a torcida do Atlético -- mas que gosta, e muito, dos negócios do Atlético, razão pela qual não larga o osso, e não o divide com ninguém, há décadas.

Com base na meia-verdade de que foi o cavaleiro solitário na recriação do Atlético no fim dos anos 90 -- embora jamais se negue a sua importância como líder daquela histórica geração administrativa --, o fanfarrão manda-chuva hoje julga-se onipotente, onisciente e o ovo de Colombo.

Ele odeia tudo e todos, só enxerga o umbigo e só voltou ao Atlético -- como causa do rebaixamento e da péssima gestão do seu antecessor e ex-aliado -- para buscar os cifrões desta nova Baixada e a audiência desta Copa.

Ele escala o time, desmonta o time, desagrega o sistema, espanta colaboradores....

Ele quer destruir um clube de futebol e criar uma S.A, para depois tergiversar seu "fim", como fez com a empresa da qual era sócio (v. aqui), e sair-se bem. E podem apostar: por razões óbvias, a Baixada ficará pronta e Petraglia sumirá do Atlético.

Ele não suporta futebol, não suporta quem adora futebol e não suporta quem suporta quem adora futebol.

Mas não suficientemente contente com as éticas do mercado e da política, mediante o seu isolacionismo individualista acredita que no futebol a sua ética -- nem tão-pouco a ética do futebol -- deve prevalecer.

E para isso desmonta um time, degenera uma torcida e deflagra o ódio.

Petraglia representa o que há de mais retrógrado no futebol, é da cepa de Dualib, Braga, Perrela, Mustafá, Eurico e Caixa D’Água, legitimado por uma legião órfã de quem fez o clube protagonista em cenário nacional após um estágio pré-falimentar, ainda que isso tenha sido feito por meios bastante duvidosos, e que hoje caminha para um estágio pós-futebol.

Ele quer nos enterrar, bem longe da Lapinha, sob a lápide cinza de quem está inumado em rubro-negro.

Petraglia, se lá nos anos 90 foi uma luz no fim do túnel, hoje é o nosso fundo do poço.




quarta-feira, 14 de maio de 2014

# a mentira e a justificativa do medo


Por que o medo do fim da gestão do PT  estampado em vídeo da pré-campanha deste ano  é diferente do medo do fim daquela gestão do PSDB, encampado nas eleições de 2002?

Bem, primeiro uma observação: este governo do PT está longe de ser um "Governo do PT", das suas bases, das suas raízes e da sua gente centro-esquerda  razão pela qual diversas críticas são feitas e absolutamente merecedoras à atual gestão –, o que, todavia, não significa que seja minimamente cogitável admitir o regresso demo-tucano ao Palácio do Planalto.

Retome-se a pergunta acima: por que em um há medo e no outro havia um pseudo-medo?

E já de pronto se responde: porque, hoje, o medo é de algo que já conhecemos, enquanto que, antes, se tinha medo de algo ficcional e subjetivo.

A ideia de 2002, que tentava amedrontar o povo brasileiro acerca da possível vitória de Lula e do PT  lembrem daquela atriz, com aquela burlesca cara de pavor, dizendo bobagens sem tamanho, com lábios trêmulos e olhar aterrorizado... –, parecia exemplo perfeito da "retórica da intransigência", ideia da famosa obra de Albert Hirschman.

A tese do cientista político alemão muito bem explica o desejo felino dos conservadores em ser contra a mudança e o progresso, a se assentar em três argumentos: a ameaça (ora, nas teses progressistas oculta-se um brutal desejo de mudança que traz perigosos custos para as preciosas realizações anteriores), a perversidade (ora, com as teses progressistas gera-se uma cadeia de consequências imprevisíveis que provocam o oposto do que se deseja alcançar, exacerbando-se a situação que se deseja remediar) e a futilidade (ora, as teses progressistas rigorosamente não servem para nada, a provocar meras mudanças ilusórias).

Ou seja, tucanos e cia insistiam nos meios de comunicação  e eram incentivados pelos próprios meios de comunicação, como de praxe  que o fim da era PSDB e a vitória de Lula/PT resultaria no caos ("ameaça"), no caminho a um buraco negro ("perversidade") e no nada ("futilidade"): "Socorro!", gritava a madame no salão do clube com seus bóbis e luzes no cabelo..."Vou fugir!", bradava de dentro do seu conversível o sujeito de cebolão platinado no pulso.

Ora, como disse Maquiavel: os homens ofendem por medo ou por ódio  e aquela gente ofendia por ambas as formas.

Porém, nada daquilo poderia se sustentar, pois o Estado brasileiro jamais teve um governo de centro-esquerda eleito e não se fazia possível realizar qualquer comparação, a restar inútil, injusta e indecente a propaganda terrorista e do medo.

O que é muito diferente de hoje: conhece-se o inimigo, de tantos outros carnavais, e por isso o medo real e objetivo.

O medo é a retomada do poder pelos prosélitos do neoliberalismo, pelos adoradores do Deus-mercado, pelos filhos do mainstream e pelos capachos da ditadura financeira global (v. aqui e aqui).

O medo é a rechegada no comando político de um partido que não acredita no Estado, que despreza o país, que detesta a democracia e que não suporta uma nova configuração social do país.

O medo é a reexecução de teses político-econômicas falidas, a execração do serviço público e a consagração do interesse privado.

O medo é a precarização da nossa cultura, a idolatria do estrangeiro, a flexibilização da ordem e o travamento do progresso.

O medo é o novo desembarque na nossa Normandia daquela gente que vendeu o país por trinta moedas, que entregou nossas riquezas a preços vis e que arrendou a alma produtiva brasileira.

O medo, pois, é conhecido e imediato, não era o medo retórico e intransigente da cambulha do PSDB, a reboque da mídia e do mercado.

Mas, por outro lado, este atual governo do PT  repleto de coalizações, de coligações, de alianças e de apadrinhamentos sem limites  não deve se iludir.

Pelo contrário, deve exigir-se uma urgente e transformadora reflexão, sob pena do medo vir de dentro.

E aí será sério e verdadeiro.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

# bar, baco e babacas


Assombra, inclusive o mundo mineral, a babaquização geral, enfestada de um consumo voyeur idiota e nonsense.

E se trata de uma mixoscopia reflexa, em sentido oposto, daquelas que do ato próprio só se realiza no que o outro vê (v. aqui).

De uns tempos pra cá a onda cai e a pomba gira em torno de espaços private, lojas boutique, salas vip, áreas soho, produtos gourmet e tudo o que se quiser associar de francofonias ou expressões inglesas a fim de oferecer status aos envolvidos.

Recria-se uma coisa ou hábito qualquer e se oferece ao mercado com a assinatura de chefs, bem recomendada por celebridades, se acresce um ou outro ingrediente importado ou de incompreensível pertinência e pronto: a fetichização do consumo irá levá-lo às alturas e o fará sublimar num mundo cheio de ilhas da fantasia.

Para piorar, a verve é oferecer status para tudo e para as trivialidades do dia a dia: alimentos, roupas, acessórios... tome-se, agora, dois exemplos: beber vinho e cerveja.

Vocês já notaram o que virou isso?

Começou com o vinho, e de modo um tanto quanto, pois o estereótipo criado para ele e para o seu consumo não coaduna com a sua rica história.

Mas, convenhamos, a própria aura colocada pela gente que trabalha com ele é a grande causa disso tudo, que faz questão de agregar uma simbologia atroz para o seu comércio e consumo, que vai do elitismo aos grandes lucros.

Na Europa, por exemplo, não existe nada disso que se alarda em torno da bebida. Nas regiões produtoras tradicionais como Portugal, França e Itália, essa bebida sempre foi e continua sendo popular. Nesses lugares, o vinho é considerado um alimento e é indispensável nas refeições, tanto à mesa do rico quanto à mesa do pobre. Lá, todos consomem, como por aqui qualquer brasileiro simplesmente bebe  bebia?  sua cerveja.

Logo, a elitização  e o pseudo-privilégio  é coisa notória do novo mundo vinífero.

Em nosso caso, talvez porque índios e negros, raízes da brasilidade, não tiveram no vinho um elemento cultural. Talvez porque aqui o vinho era importado, caro e restrito a poucos  lembro-me, pois, da pequena fortuna que um certo senhor de Curitiba fez, nos anos 80, ao importar as primeiras cargas daquele vinho branco alemão da garrafa azul ("Liebfraumilch"), sucesso absoluto em todos os grandes eventos da capital, que era comprado nas gôndolas alemãs por dois dólares e por aqui vendido às madames a preços nababescos, para entornadura delirante da massa fina e cheirosa nativa.

Mas, fora isso, há também uma razão contemporânea: a nossa atual moda enófila veio acompanhada de toda uma babaquice empolada que distingue e afasta as pessoas da bebida. 

Um linguajar supostamente técnico, comparações esdrúxulas com aromas de outro planeta, rituais esotéricos para se beber, regime de pontuações bizarros que os não-iniciados sentem que só aprenderiam com décadas de estudo... enfim, houve a transformação dessa bebida em algo esnobe, doutoral e quase mediúnico. 

Usa-se a analogia com frutas e alimentos que não fazem parte do nosso dia a dia, que não explicam nada e que, regize-se, apenas buscam embustear o negócio.

E agora veio a cerveja, sim, a sacrossanta cerveja e os seus botequins. 

Para a qual se dispensa quaisquer comentários, bastando ler isso aqui.

Como se diz, meus amigos, o fim está próximo.