quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

# anarriê


E junto das festas juninas pelas ruas do Brasil do ano passado, a história do "mensalão" também vem se clareando.

Ontem, os holofotes voltaram à Casa da Justiça brasileira, tornando a desvelar o despreparo, a arrogância, a tirania, o despotismo e a indigência civilizatória do seu Presidente, o Min. Joaquim Barbosa. 

Ora, uma coisa foi a tese meio lisérgica do Min. Roberto Barroso, com a ideia da prescrição baseada em uma "pena hipotética justa" – afinal, data venia, por mais que o cálculo da dosimetria tenha sido perverso, há uma pena dada, legal, e não se poderia mais falar numa "pena em abstrato" para incidência do lapso prescricional –, outra foi a postura do Min. Joaquim em toda a sessão e a confissão acerca das razões que o levaram a decidir pelas penas absolutamente desproporcionais.

O coerente raciocínio algébrico do Min. Barroso, embora inaplicável nesta fase processual, escancarou e pôs luz na real intenção da decisão embargada da ação, surpreendentemente confessada por Joaquim ao estilo Jânio Quadros: "fi-lo porque qui-lo!".

Sim, no embate, ao ouvir a provocação lógico-jurídica contida no voto do Min. Barroso, Joaquim Barbosa não se conteve e disse, literalmente (e com a jugular esbugalhada), que a pena foi exagerada (e fora da curva e dos padrões do Tribunal) para evitar que o "delito" se prescrevesse.

Tresloucado, com tremeliques pelo corpo, beiços cataplécticos, gaguejos aflitos e suando em bicas, o Min. Joaquim Barbosa – potencial candidato nas próximas eleições – não admitia estar perdendo, ser contrariado e ver que a sua blasfemativa tese de que ali se tinha um renovado "bando de Lampião" não passava, pois, de uma fanfarrice judicial que juridicamente se desmancharia no ar, pela flagrante falta do dolo específico (elemento subjetivo do tipo).

E, por maioria da Corte, o crime de quadrilha caiu – afinal, "olha a cobra!" e "olha a chuva!", era uma mentira.

Como cairá por terra, nas democráticas urnas de outubro, toda a mentira deste julgamento medieval, espetaculoso, milimetricamente realizado e transmitido como uma querida novela para a classe média indignada.


Plim-plim.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

# atleticania (x)


Há pouco, o Atlético perdeu em Buenos Aires, para um pesado Vélez Sarsfield, na segunda rodada da Libertadores.
 
Mas não falemos do time; tratemos, apenas, de quatro peças e um artesão: o que esperar de um escrete com Suéliton, Dráusio, João Paulo e Mirabaje, juntos, sob o mando de um Miguel Ángel?
 
Vamos por partes, à la Jack.
 
O impronunciável Suéliton já peca pelo nome. Sim, antes deveria passar pelo crivo seletivo do Deptº de Recursos Humanos a alcunha da criatura; e, só depois, se analisaria a mínima aptidão ao rude esporte bretão. Já barrado na primeira etapa, não se precisaria ver um cabra que corre atabalhoadamente, não marca ninguém e sempre que chega ao ataque, cai. Pois é, meus senhores, vejam só a triste perspectiva deste jovem: ele tenta ser um Wagner Diniz.
 
Depois, sobre o tosco Dráusio, novamente o RH do Atlético vacila e despreza a psique humana. Ora, como contratar alguém com o potencial de se sujeitar a um foto na balada curitibana fazendo pose de rapper alegre (v. aqui)? Em campo, não consigo lembrar de um protótipo de zagueiro tão ruim. Ele, incrivelmente, consegue aliar lentidão, inabilidade, imobilidade e despreparo técnico-intelectual. Em suma, um sujeito com total falta de noção fora e dentro de campo.
 
Ainda, temos de longa data a múmia paralítica chamada João Paulo. Este, se não me falha a memória, disputa a liderança mundial em "passes errados para o lado". É de uma inutilidade imensa, tem o preparo físico de um cágado e submete-se a uma tatuagem gigantesca no pescoço. Sem função tática ou técnica, ainda se altiva por não ir numa dividida, a ficar sempre na expectativa soberana das migalhas. Literalmente, olha o jogo. 
 
E agora o tal do Mirabaje. Um horror. E o mandatário do Atlético me faz lembrar aqueles índios da época do nosso descobrimento que se iludiam por tudo que brilhava e fazia barulho, caindo no conto dos vigários portugueses. Hoje, Petraglia facilmente se engana por tudo que habla español. Desconfio ser algum trauma, algo meio freudiano, ou talvez mera conveniência, não sei. Mas este arremedo de jogador é, com muito esforço comparativo, um pouco pior que Lobatón, aquele folclórico peruano que apareceu na Baixada no fim dos anos 90. 

Por fim, meus poucos mas fiéis leitores, o que falar da mais nova invenção petragliana, o Sr. Miguel Ángel? Será que vale a pena comentar a absoluta falta de sistema de jogo, de padrão de jogo e de organização tática do Atlético? Será que vale a pena falar sobre a sua completa falta de comando, de liderança e de empatia com o time rubro-negro? Será que vale dizer algo sobre o caos, sobre os buracos-negros e sobre o bumba-meu-boi do jogo atleticano? Não, não, não... Na verdade, depois daquela linha-burra no 1º tempo do jogo de estréia na Libertadores e da insistência em manter os seus cabelos num estilo "Calma, Cocada!", devolvê-lo imediatamente à Bolívia é a mais urgente solução.

Ou melhor, num pacotão com ele e a trupe indicada, frete-se um Lapeana com destino à Cordilheira do Himalaia. 


E sem retorno, é claro. 


# um flautista de hamelin

 
Há milênios, sou das vozes que ecoam contra uma Copa do Mundo no Brasil.
 
E, desde o início, não era por preconceito, partidarismo, ideologia ou coisas do gênero; era, pois, pela "economia" (e pelas public choices), com sede inclusive em inúmeros estudos recentes que demonstram a falácia (ou imprecisão) dos argumentos a favor destes megaeventos (v. aqui, aqui, aqui e aqui).
 
"Entusiasmo político", "orgulho patriótico", "felicidade do povo", enfim, todas ideias metafísicas nas quais (ainda) não podemos nos sustentar para admitir o patrocínio de eventos desta natureza; e, claro, chutes do tipo enxurrada de investimentos privados, chuva de dinheiro internacional, superaquecimento das relações comerciais internas e avalanche de turistas estrangeiros são mentiras, ou no mínimo meia-verdades que a realidade e a história põem à mostra.
 
Agora, entre isso e o boicote ao evento que o nosso país sediará há um abismo, um cenário que em hipótese alguma pode permitir a mínima proximidade.
 
Ora, esta gente toda que chia e guincha, a carregar o tosco mote "não vai ter Copa", soa mal, soa infantil.
 
Quer o quê? Imagina o quê? 
 
Onde esteve há 11 anos, quando o Brasil se articulava para preparar a sua candidatura? Onde esteve quando fomos anunciados como país-sede? Onde esteve, ano a ano, desde o início dos preparativos?
 
Num oba-oba funesto, parecia ser empurrada pelos rompantes político-eleitorais que queriam a luxúria do negócio, era deslumbrada pelos discursos da raça empresária nativa que sonhava com os negócios da coisa e era lobotomizada pela mídia que sempre se empolgou com a ideia.
 
Mas, agora, na ultraiminência do evento, nota-se uma galera que surge para se indignar, ressuscitada pelo novo som hipnotizante da grande imprensa que, vejam só, brada os tantos (e naturais) erros envolvidos na organização, que supervaloriza a centenária falta de investimentos em lugares-chave e que sonha pela catástrofe, afinal, é ano eleitoral e um show de horrores seria a maior chance para, enfim, destruir este Governo. 
 
Lamentável.
 
Afinal, era antes que se tinha que discutir, era antes que se devia cobrar, era antes que se precisava desmascarar, era antes que se necessitava destruir, era antes que se tinha que abrir os olhos para o mau gasto e para a má escolha pública, era antes que se tinha que ir às ruas para dizer não.

Era tudo antes do agora.
 
Por isso, neste momento em que o maior evento do planeta chegou, é claro que torço a favor, é claro que quero ver o nosso país bem falado mundo afora, é claro que quero ver a minha nação bem na foto e nas manchetes, é claro que quero ver uma mínima infraestrutura funcionando, é claro que quero ver tudo quase-pronto, é claro que quero ver seleções, torcedores, autoridades e imprensa bem recepcionados, bem à vontade e vendo o meu Brasil campeão.
 
E, assim, com a minha flauta sairei pelas ruas a anunciar: "vai ter Copa"!


Em dó maior

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

# atleticania (ix)

 
Vejo as fotos da Baixada, praticamente pronta, e está um espetáculo.

Mas também vejo que em mais um ato da ópera bufa de desprezo ao futebol, à sua história e à sua torcida, o recheio do estádio, na cor de cada uma das cadeiras, é... cinza.

Sim, ordens do mandatário da Casa.

Que parece, pois, não conhecer o nosso valor.

E como se perpetrasse transfundir o sangue de cada um dos atleticanos, aquilo ali nos empalidece, nos deslustra e nos abafa.

E tira o vigor, e jaça e usurpa parte do tom da alma rubro-negra.

Subtrai-se a cor da paixão, a cor apaixonada do clube, a cor da vida de um clube de cuja paixão sabemos de cor: o vermelho.

Esfria-se, mortifica-se, enluta-se no cinza o vivo que se tinha no nosso caro vermelho, que esquentava, que enfogava e que sempre tornou aquilo ali um fervoroso caldeirão.

Quer-se, agora, as cinzas de uma quarta-feira qualquer, desprezando todos os santos dias em que o nosso futebol foi eternizado sob o manto das nossas sagradas cores.

Quer-se um cinza mercantil, um cinza frio e calculista, um cinza à moda dos negócios, um cinza à la carte, um cinza que nos fatia, que nos apunhala pelas costas e que nos debulha.

Um cinza gelado, neutro, nulo, duro, inodoro, insípido.

E um cinza sem cor, sem grito e sem vida.

Roubaram-nos o vermelho, meus amigos.


Em construção, cadeira com cadeira num desenho ilógico



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

# disk-pizza


- Alô!?

- Alô?! É da Associação Médica Brasileira?

- Sim, bom dia! Em que podemos ajudar?

- É sobre o “Programa de Apoio ao Médico Estrangeiro”...

- Sim, um minuto, passarei a tua ligação. Lembro que esta chamada é gratuita. Obrigada.

Em menos de 3 segundos uma gravação vem ao telefone: “Si usted es un médico extranjero y está en situación de riesgo en Brasil, pida ayuda y...”.

E tão rápido quanto, atende uma plácida e animada voz:

- Hola! Buenos dias! Muchas gracias por...

- Oi, não precisa tentar falar em espanhol não, eu já entendo o português.

- Ok. Em que podemos ajudar?

- Olha, sou cubano, estou no Tocantins, na fronteira com o Piauí, e um médico brasileiro veio aqui ontem e ficou o dia inteiro me falando deste 0800, e resolvi ligar, pois ele não me respondeu uma coisa. E por isso preciso do apoio. Eu queria saber se...

- Ah, fez muito bem! Me fale, hein!? ´Tá muito ruim este negócio, né? Um absurdo!

- Hã?! Como assim? Eu só...

- Uma vergonha! Uma vergonha este governo mandar a nossa classe pra um lugar desses, onde não tem aparelho de ultra-radio-tomografia, não tem super-power-doppler, não tem medical center de diagnóstico computadorizado... E, pior, em cada cidadezinha viu... não tem shopping, não tem clube, não tem cinema megavip plus thunder-3D, não tem nada! É um tal de meio de floresta aqui, um sertão ali, uma beira de rio acolá! Não dá! O que pensam que nós de branco somos!?! E vocês então?!?! Ah, receberem este valor pra ser médico! O que é isso!?!

- Sei...

- Por isso, para o caso da turma de vocês, uns deputados ´tão aí pra ajudar, né! Sabe, gente do bem, gente que entende de democracia... E até firmamos uma parceria com a "Cuban Medical Professional Parole", uma ONG dos States, e prometemos que em 3 dias arranjamos um visto humanitário. 

- Como assim? É que eu só...

- É! Você não precisa ficar mais nenhum dia neste fim de mundo aí, ficando de escravo daquela gente! Tanta coisa diferente pra se fazer por aí, tanta coisa bacana, descolada...

- Hã?!

- Veja, a Associação está com um programa muito legal: a gente te busca, te hospeda no melhor hotel da região, te oferece um jantar de gala de cortesia e, em dois dias, você pode escolher para onde quer fugir. Afinal, você deve querer, né! (risos)

- Desculpe, é que eu...

- Ah! E não é só isso! Confirmando a-go-ra a gente te coloca num desses congressos que os laboratórios fazem pra gente, num fim de semana... É um luxo só, tudo free, você vai ver!

- Não, não, é que eu só queria saber se aqui no Brasil é normal isso de...

- E me diga, você conhece Miami?

Tuu-tuu-tuu-tuu-tuu-tuu-tuu....

(o diálogo é mera ficção; a realidade está aqui, aquiaqui)

O retrato-falado de um dos atendentes do disk-pizza da AMB


sábado, 15 de fevereiro de 2014

# gato e espadas


Uma das mais interessantes teses que li no meu tempo de estudos em Coimbra foi uma que tratava dos impostos do pecado, ou seja, analisava a receita estatal da tributação do "álcool", do "tabaco" e do "jogo" sob o ponto de vista da ética e da filosofia política em um Estado laico.

E, nestes dias, ao discutir com um amigo esta questão, nomeadamente a dos casinos e a do jogo no Brasil  lembrando, claro, que o Rio é a terra do "bicho"... , ative-me na necessidade de tentar não apenas despejar críticas intransitivas, mas de qualificá-las, adequá-las aos fatos e dados e de apontar mínimas propostas.

Embora mereça ser aprofundada em outro momento, a questão do jogo talvez devesse ser efetivamente discutida no Brasil, sem preconceitos, sem falso moralismo e sem o ranço religioso que lhe acometem, como já se sucede com outra matéria (v. aqui).

Claro que a funesta lição dos bingos e de toda a bandidagem que caracterizou este péssimo negócio para o Estado e para os cidadãos brasileiros inibem a discussão e, desde já, apontam para a impossibilidade do jogo ser conduzido sob a mesmas ideias, as mesmas regras e os mesmos princípios; logo, não seria este o caso.

A questão proposta, portanto, é que seja permitido o jogo no Brasil, obedecendo-se algumas condições.

Primeira, deverá ocorrer sob a tutela do Estado. Sim, a coisa seria pública, com natureza de direito privado, com o controle e o fomento estatal, e as firmes espadas da lei. Hoje, a própria Caixa detém certa expertise nisso  basta ver a infinidade de jogos (loterias) patrocinados por esse ente público , e não seria de outro planeta pensar numa pessoa jurídica assim habilitada e com tal fim construída. Em termos de fiscalização e mitigação da corrupção, com as modorrentas máquinas caça-níquel o negócio seria mais fácil, pois seria tudo interligado com a alta tecnologia disponível, diferentemente das roletas, dos bingos e das cartas, absolutamente sedutoras à fraudes. Mas, como em todas as relações público-privadas, haverá de se tentar separar o joio do trigo – não dá pra esquecer que, hoje, até em luz, telefone e água os gatos ainda acontecem... E como o dinheiro público não dá em árvore, e como "ganhar" nestes casinos não pode significar perda para o erário, o retorno sairá diretamente do volume de apostas, como  hoje funciona com os jogos lotéricos – a "banca", portanto, não poderá quebrar, pois haverá limites e regras para apostas de mesa, conforme o dinheiro que circula. Depois, não tendo por dinâmica a concorrência, os casinos merecerão um aspecto padrão e nacional, no máximo distinguido pelas vicissitudes regionais, sem a ostentação ridicularmente tosca do que se vê por aí, naquele estilo Las Vegas, mas também sem desprezar a aparência lúdica que as casas de jogos mereçam ter, bem como todo o sistema de segurança necessário ao seu melhor funcionamento. 

Segunda, deverá estar apenas em determinados locais do país, com vistas a promover o desenvolvimento regional, por meio do turismo e da arrecadação fiscal. Embora com certo questionamento acerca da sua constitucionalidade, acredito na sua validade jurídica, por justificativas que a própria Carta admite e que à frente podem ser esclarecidas. Logo, o jogo seria liberado apenas nos Estados do Norte, no Piauí e no Maranhão, não coincidentemente aqueles com menor visibilidade, com menor trânsito, com menor índice de desenvolvimento humano e com menores condições de acompanhar o ciclo evolutivo do país. Na forma de "polos regionais", não se terá casas de jogo em cada esquina ou em cada município, mas em locais estrategicamente planejados. Por ser em locais distantes e de acesso limitado, a logística de transporte, com incremento nas malhas aérea, viária e hidroviária deverá merecer atenção especial. 

Terceira, deverá ter as suas receitas incondicionalmente vinculadas à aplicação em educação e saúde dos locais em que o governo federal autorizar a instalação. Hoje, dentre tantos outros jogos administrados pela CEF, destrinche-se os valores das apostas da "mega-sena": 32% é o prêmio, 20% vai para custeio e manutenção dos serviços (administração e lotéricas) e quase 50% fica para o Estado (Esportes, FIES, Fundo Penitenciário, Fundo Nacional de Cultura e IR). Ora, esta fonte de recursos, com a consequente transferência federal aos locais visados e necessitados, será bastante importante para as fazendas estaduais.

Quarta, deverá contar com maciça propaganda estatal com vistas a orientar os jogadores e a minimizar os efeitos de potencias vícios, como hoje se faz em larga escala com o tabaco. Parte da receita, inclusive, seria para financiar esta contra-cultura e os futuros tratamentos médicos-psicológicos que surjam.

Bem, não se sabe ainda os custos para criar e manter isso tudo, tão-pouco se haverá mercado para isso, mas, como mundo afora o negócio tem êxito  sem a minha contribuição, pois não é minha praia , por aqui seria conveniente testar, com um ou dois projetos-pilotos. 

E talvez nestes termos dê certo – ou não, como diria um amigo em tom insofismável.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

# sobre virtudes e impaciência


Confesso já não ser alguém com grande paciência.

E se há um negócio que me consome em cólera e náuseas é o sujeito que cospe frases sem ideia e ideias sem conteúdo, ou, ainda pior, "frases feitas", decoradas de manuais ou meramente repetidas de comentaristas televisivos, aqueles que falam e escrevem à la carte.

É lamentável ler, ver e ouvir aquela gente que regurgita palavras pré-moldadas, palavras que cabem num quadrado semi-racional, palavras que se entopem de pré-conceitos, palavras incapazes de sair do lugar-comum e que facilmente desabam num teto de zinco quente.

Sem profundidade, sem fidelidade e sem proposições, estes tipos são contumazes fazedores da crítica pela crítica, que se torna acrítica.

E dia desses recebi por email um vídeo – v. aqui, é espetacular – que exemplifica isso tudo de modo absolutamente didático: trata-se de uma surra dada por um dos grandes "intelectuais orgânicos" deste país, o deputado federal Ciro Gomes, em um pequeno economista neoliberal alçado a ídolo nacional pelas páginas da Veja e do Globo

Bem, a discussão não dá nem pra saída, em típico caso de absoluta vergonha alheia, com cenas de espancamento intelectual explícito. 

São cenas de um massacre em que Ciro Gomes come com farinha e maxixe o blá-blá-blá de frases feitas e vazias do caricato economista carioca, colocando-o no seu devido lugar, para desespero e incômodo de toda a mesa-redonda que, calculem o cenário, era ainda formada por aquele folclórico Henry Maksoud – um misto de Mestre dos Magos com Mr. Magoo , por um âncora gaúcho, possivelmente ex-militante da Arena ou daquele finado movimento "Tradição, Família e Propriedade", e por um ambientalista meio hippie

Cheio dos típicos sorrisinhos de quem não sabe por que sorri – até que leva um pito do deputado e resolve parar , o tal protótipo de pensador constrange a mesa e visivelmente provoca os mais primitivos instintos de Ciro – e como bufava o político cearense, não acreditando que aquilo tudo que ouvia era de verdade... –, tamanha a quantidade de bobagens e, repita-se, de ideias (mal) feitas e (bem) ocas despejadas por alguém que parece não saber o que diz e que parou no tempo. 

Sim, a cria neoliberal parece não cansar (e não se envergonhar) de propalar um discurso démodé, disforme da realidade e sem se ater minimante aos fatos e aos dados. E, ainda pior, sem quaisquer propostas, pois "todas" se resumem no vazio genérico do Estado mau (!), da Administração inchada (?) e do paraíso estadunidense (!?).

Ao cabo, mesmo sem peixeira, vê-se Ciro só usar das palavras (e dos fatos, e das ciências sociais, jurídicas e econômicas) para desbagoar o aprendiz de escoteiro-mirim, expondo-lhes as vísceras e o bucho, sem sarcasmo e sem cinismo.

Afinal, na verdade, o pequeno infante é só mais um destes sujeitos que dá pena, que criados e alimentados com toddynho pela grande mídia apenas fomentam ainda mais a nossa impaciência.

Já Ciro Gomes, por sua vez, é um desses político-intelectuais cujas virtudes fazem muita falta no cenário nacional.

Inclusive a de não ter paciência com este tipo de gente.


Proibidas para menores, as cenas a seguir contêm sangue, violência e forte conteúdo apelativo


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

# libertador


Quando o Clube Atlético Paranaense entrar em campo hoje, no crepúsculo do dia, na nova velha Baixada da Vila Capanema, contra os mais fortes bolivianos, começará o maior campeonato de futebol do planeta.

Sim, meus amigos, as batalhas da Taça Libertadores da América juntam-se para formar a maior de todas as guerras, soerguida como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.
 
É aqui, pela nuestra América, onde o futebol é jogado na sua essência, na sua pureza, onde maestros, cavalos, deuses e hinchas desfilam juntos em epopéias dantescas.
 
Aqui é o "Inferno", meus senhores.

Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras latino-americanas. 

Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas; são, sim, jogadores, são heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do Céu.
Ora, não me venham com as lantejoulas das arenas alemãs climatizadas, as pompas dos gramados de pastagem de vacas holandesas, as purpurinas dos uniformes demi-sec franceses, a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas, o brilho comportamental da perfumada massa torcedora austríaca e seus canecos de vidro encervejados ou toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonista.
 
Não, meus amigos, não. 
 
Este nosso jogo é incapaz de ter a beleza pornográfica de todos aqueles espetáculos europeus, de ter a fleuma civilizatória do bom selvagem do velho mundo e de ter o bolo bilionário de tantos euros.
 
Ela tem, diria Vinícius e batucaria Baden, "qualquer coisa" além da beleza. 

Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa, afinal, na Copa Libertadores tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta. 

E mais.

Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor machucado, transborda em uma alegria sublime, sui generis, incompatível a qualquer outra de padrão europeu. 

Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelos mais depauperados amores, pelo mais irraciocinado dos amores – e se chora, e se grita, e se late, e se morre, e se arrebenta a veia para que tudo acabe em um deleite inentupitivo, inexplicável.
 
E não tentem convencer um argentino, um chileno ou um uruguaio do contrário: todos, todos sabem que as suas cores representam uma paixão, paixão que cada um sabe de cor, feitas apenas para serem amadas, e para ao final sofrerem de um eterno amor. 

Como aqui, com o azul, o branco, o preto e o rubro-negro de cada coração que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infintos noventa minutos. 
 
Senhores, a Copa Libertadores é assim: feita de paixão, feita de sangue, suor, cuspes e lágrimas, como em nenhum outro canto desportivo da Terra se vê e nem se tem.
 
De hoje até o seu fim, nada mais importa neste reino de Bolívar, Artigas y San Martín.

E nada mais nos restará, até sabermos qual abençoado clube será libertado desta vez. 

Saravá!


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

# racio símio



Como sempre, o fundo do poço é ainda mais embaixo  e neste momento lembro dos Titãs, na fase "Õ Blesq Blom" da minha adolescência e daquele raciocínio simiesco musicado (o que, já por ora, me faz sentir ofender a inteligência dos primatas não-humanos...).

É que num destes pormenores que recheiam a vida, de novo me deparo com este "big brother brasil", um dos maiores shows de horror televisivo da história do planeta, e que noto sempre se superar.

A cada edição do troço, inclusive, ouso imaginar que o (nosso) fim esteja perto.

Bem, nestes prolegômenos devo antes admitir que, muito pior do que os animais  sim, "zoológico humano" é a expressão usada por gente da própria mídia global quando se refere ao evento e seus participantes – que se expõem naquilo tudo, as piores espécies são mesmo as que assistem, fomentam e sustentam o degradante espetáculo.

Degradante e mendaz, na medida em que, para aquilo tudo que pretende, o programa global é muito mais (hipocritamente) obsceno que toda a programação daqueles canais para "adultos", pois age com dissimulação, desfaçatez e desonestidade.

Finge, pois, ser algo que não é.

Fomenta aquele oba-oba sem sentido como se natural, como se cotidiano, como se o mundo realmente fosse feito daqueles dias e dias de orgia platinada, daquelas noites e noites de venustas festas. 

É, o tempo inteiro, a todo instante, um desfile de carnes sem sentido, à exaustão, para todos os tipos, para todos os gostos; é, num tempo triste, a escatologia na tela aberta brasileira e na voz infausta de um locutor poente.

E como nunca antes, a busca frenética pela grana da audiência abusa de qualquer mínimo sentido e açoita os mais básicos princípios que deveriam orientar um meio de comunicação cuja natureza é de utilidade pública.

Ah, mas o interesse público está justamente no interesse do público em acompanhar o reino animal em estado bruto, puro, selvagem...

Não, não.

Para isso tem-se os canais adequados para se promover e ostentar um ambiente dionísico e de luxúria o quanto quiser e como se queira  afora, claro, os canais da Discovery

Agora, para devassar e arrombar a retina de quem vê TV às dez da noite, isso não é legal. 

É imoral e engorda  pode soar piegas ou carola, mas não vejo como razoável o maior veículo de comunicação do país invadir os lares, em uma hora dessas, para despejar um rio pútrido de frases e imagens com ares de imaculada naturalidade e de inocente diversão.

Se, afinal, é este entretenimento que o distinto público curte, use-se dos canais da "TV a cabo", com suas regras e características próprias, abuse-se dos meios minimamente pertinentes às categorias de sinal, de ambiente, de programação e de horário para expor aquilo tudo  e os urubus e abutres, ávidos pela fortuna do patrocínio publicitário, continuarão saciados.

Mas o que não se pode admitir é a candidez de se promover, à exaustão, mensagens mais ou menos (ou nada) subliminares da vida sem sentido, da contracultura social, da idiotização plena, como se tudo não passasse de uma grande festa sem raiz (e crise) existencial.

Nesta TV, as pedras que rolam são cabeças vazias, para indiscreto delírio dos telespectadores enjaulados em si.

Sim, a jaula está do lado de cá da tela.




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

# a arara e o pau-de-arara


Demorou para, num universo de 7 mil médicos cubanos que vieram para acudir os rincões deste Brasil, aparecer alguém a tentar desestabilizar o sistema, o qual expõe às vísceras a relação entre demandas do mercado (e particulares), de um lado, e necessidades das pessoas (e coletivas), de outro (v. aqui).

Tem, claro, todo direito do mundo ao chororô e ao nhe-nhe-nhém, mas, no fundo, no fundo, além de querer aparecer e lançar bravatas, o que pretende esta médica que sai nas capas da grande mídia chorando as suas pitangas contra o programa?

É a Política, estúpido (v. aqui).

------- x -------


E não demorou para, como volta-e-meia ocorre, voltar a turma de "justiceiros" país afora.

Eis, o art. 345 do Código Penal Brasileiro:
"Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite.
Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência".

Portanto, o que aquele bando carioca fez é crime (v. aqui), cujo liame com a conduta própria do agente (lesão corporal, homicídio, sequestro etc), inclusive, é deveras estreito.

E, pelo simples fato de ser crime, a premissa já seria não admitir a sua apologia – mais um crime – e, pois, ser contra qualquer pretenso fazimento privado de justiça, típico protótipo de milícia – e já também outro crime.

Terrível, tenebroso, para um Estado Democrático de Direito, em pleno séc. XXI.

E vamos além. 

Se o Poder Judiciário, o sistema penal e a segurança pública são falhos, lentos ou pífios, a questão não é de contorcionismo ideológico para validar a vingança social ou para legitimar o exercício arbitrário das próprias razões.

Tão-pouco de se dar eco à infantil tese que sugere a adoção de marginais por defensores da lei e dos direitos humanos.

De novo, a questão é de Política, estúpido.

E não de apoiar rolezinhos da tropa de zona sul carioca.



# atleticania (viii)


Se já ninguém discutia sobre ser o maior esporte do planeta, vou além para dizer que não restam dúvidas de que seja o maior espetáculo da Terra.
 
O que mal pude ver desta majestosa noite em Curitiba, aqui neste distante e pequeno Rio de Janeiro, direto das arranhadas imagens da tela quase ao vivo do computador e dos grunhidos gagos e ecoados do rádio-amador, foi mais uma vez antológico.
 
Um Atlético sofrido, todo desmantelado pelo descaso e pelos devaneios inconsequentes do seu mandatário (v. aqui), contra um ultraviolento time peruano, no jogo decisivo da Primeira Fase da Copa Libertadores da América, levado aos pênaltis depois de um gol, de pênalti, aos 50´ do segundo tempo.
 
Um Atlético capenga, desarmado, sem comando fora (um vazio rotundo no banco), sem liderança dentro (um buraco negro no meio) e padecendo da ausência do bom grupo de jogadores da temporada passada (v. aqui), contra um time peruano que em 35´ já levara 5 cartões e cometera centenas de faltas, no jogo em que o primeiro tempo mostrava ir para o ralo todo o ano de 2013.
 
Um Atlético revigorado, retornando do intervalo na dinâmica atômica de Marcelo e com a capa toureira de Fran Méridacontra um time peruano que num único lampejo de ataque marcara o impedido gol, no jogo em que a obrigação de vencer era muito maior que a esperança.
 
Um Atlético guerreiro, que tem no comedor de gilete Éderson e no fião de Bacabal Manoel os mais legítimos espartanos destas terras médias, contra um time peruano que embromava, encerava e retardava ao máximo qualquer reinício de partida, no jogo em que a eliminação seria internacionalmente humilhante.
 
Um Atlético heróico, ressurgido das cinzas pelos pés de dois piás gigantes (Nathan e Mosquito) e pelas mãos salvadoras de Wéverton, contra um time peruano recuado, cevado e com nove, no jogo em que o nosso fim já dava lampejos de não estar tão próximo.

Um Atlético empurrado pelo amor de uma grande torcida e iluminado pelas bençãos dos deuses do futebol, no jogo em que por três vezes superou o impossível.

Um Atlético que, por conhecer o seu valor, avança América adentro para buscar o título.