sexta-feira, 7 de julho de 2006

# nas entrelinhas de parreira e felipão, a república federativa do brasil

Façamos uma análise comparativa, entre Parreira (o Kiko carioca) e Felipão (o Scolari português) e, para então atingir um buraco mais embaixo.
Parreira, um burocrata, veio com meticulosas análises técnico-táticas, a valorizar esquemas, números, nomes, marketing e, principalmente, a adotar uma política inerte, a seguir tudo, por completo, à risca e com plena e irrestrita submissssão aos ditames da confederação, sem independência e sem nunca arrostar seus dirigentes e seus superiores, assim como tornar intocáveis tantos nomes ultrapassados e deslocados. Ademais, há décadas enxergamos no jogo dele um time chato, igual, sem mudança, sem motivação e à espera de um ou alguns seres supremos para salvar (romário, que fez, ou um quadrado, que nada fez). Assim, o seu comportamento traduz-se à imagem e à semelhança do comportamento da nossa cúpula governamental, ambos como serviçais do capital, com o treinador à mercê dos cartolas e patrocinadores e o presidente ainda subjugado à fisiologia dos congressistas e à estúpida burguesia dos 40 mil da daslu. Isso ocorreu em 94, isso ocorre agora.
Felipão, um líder, buscou na superação e na total entrega individual, no tête-à-tête, na base da força e da harmonia do conjunto, um novo jeito de jogar. Renegou carimbos, nomes e pedidos para abusar de uma sábia autoridade, de uma franca rigidez e de um cabresto inteligente, eficaz e funcional, responsáveis por ótimas conseqüências. Desdenhou fórmulas, revisou concepções impostas e fugiu do famigerado pensamento único, a ceder espaço para um novo caminho, uma nova via. Fez do apelo popular (aqui e em Portugal) o instrumento para conquistar a confiança e do total aproveitamento para alcançar o respeito e a admiração do povo e das nações. Colocou no devido e mal-cheiroso lugar a confederação, seus dirigentes, os caciques nacionais e uma estúpida cartilha de viciadas regras, de relativos bons-costumes e de expressa vassalagem. Buscou reviver e reciclar uma forma de conduzir a cabeça e o espírito dos atletas, em uma exata mistura de competência e profissionalismo com um romântico altruísmo. Isso ocorreu em 2002, isso ocorre agora.
Com nosso país, tal qual, acredito que as regras do jogo também precisam ser revistas, pois há a urgente necessidade por uma transformação do sistema político, econômico e, principalmente, social; devemos tirá-lo da vala comum e não podemos aguardar impassíveis a benção divina para sair do subdesenvolvimento e da corrupção.
Hoje, necessitamos, desejamos e clamamos por um Felipão, como um basta a tantos homens da estirpe de Parreira. Porém, isso nunca ocorreu, mas em outubro temos a chance de fazer isso ocorrer agora.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

# razzies

 
Dentre tantas bobagens que os estadunidenses promovem, há o troféu "Razzies" - ou, na versão tupiniquim, "Framboesas de Ouro" -, que anualmente premia os piores no mundo do cinema.
 
E, assim, como essa Copa traz tantas más impressões e tantas más apresentações, nada tão justo como fazer, de um a onze, a lista dos que mais decepcionaram, prejudicaram ou não apareceram nos jogos de suas seleções. Ei-la:
 
Kahn (deu medo); Cafú (deu ódio), Pujol (deu amarelão), Gamarra (deu pena) e R. Carlos (deu nojo); Émerson (deu cãibra), Lampard (deu sono) e Ronaldinho (deus do marketing e da mídia); Pauleta (deu raiva), Rooney (só deu confusão) e Van Nistelrooy (não deu em nada).
 
Técnico? Parreira, claro.
 

# um a onze

Como sempre esperado - e como sempre feito -, formo a minha seleção das seleções, no não tradicional 4-2-3-1. O selecionador seria o luso-brasileiro L.F. Scolari, o qual conseguiu fazer com que seus comandados tirassem leite de pedra.
1- Buffon (ITA)
2- Zambrotta (ITA) 3- Thuram (FRA) 4- Cannavaro (ITA) 6- Lahm (ALE)
5- Vieira (FRA) 7- Maniche (POR)
8- Pirlo (ITA) 10- Zidane (FRA) 11- Zé Roberto (BRA)
9- Klose (ALE)

domingo, 2 de julho de 2006

# as chuteiras apátridas


Formada por uma quase integridade de atletas que vivem já bastante distantes do mundo brasileiro, o escrete verde-e-amarelo já consolidava um significativo (mal) presságio, pois a essa distância da realidade nacional assomava-se o fato de sermos uma nação repleta de “homens cordiais”, em sua maioria pacatos, silenciosos e inertes, dentre os quais aqueles onze homens não poderiam esconder qualquer segredo diferente.

E foi isso mesmo que aconteceu.

Estrelas do show businnes global, astros do merchandising internacional e popstars do faz-de-conta mundial, a preocupação de cada um apenas com a vida própria e de seus familiares justifica-se plenamente, nos mesmos moldes em que é (pretensamente) justificado o individualismo egocêntrico do regime anti-social vigente em quase todo o resto da Terra.

Toda essa maldita realidade – a misturar a “cordialidade” do selecionador com os seus comandados, a “inércia” de quatro futebolistas em linha a olhar o gol adversário e, novamente, de um parvo gestor de talentos (sic) cagado e mumificado perante a realidade campal, o "egocentrismo" de um pseudocapitão na busca de recordes pessoais, e, finalmente, o “espírito do capitalismo” simbolizado em uma faixa na cabeça do mercadológico melhor do mundo (mas, na verdade, uma rara espécie de homem-foca do Cirque de Soleil) –, apenas fora ratificada, talvez em definitivo, naquele estádio alemão.

No estágio e, principalmente, no formato atual de globalização, talvez seja hora de rever a política de destacamento de atletas nacionais para a disputa de competições deste porte, afinal, os pensamentos, as motivações e as necessidades estampadas no cotidiano e nas atitudes de cada um daqueles homens em (quase) nada representava esta terra brasilis, pois a sua maioria era formada por cidadãos que não buscavam mais nada no futebol ou no reconhecimento pela terra-mãe.

Não há nenhum misticismo, nenhuma teoria conspiratória, nenhum pacto diabólico ou mesmo nenhuma enfermidade físico-psíquica coletiva que pretendam justificar o vexame deste final de semana, pois o que houve apenas está a representar o mero produto cartesiano do sistema que rege as relações humanas atuais.

Não se tenham devaneadoras dúvidas: o que está em jogo é muito mais que uma partida que pára o Brasil, e muito menos que uma vil partida que possa macular cabeça, tronco e membros destes atletas-propaganda.

Embora não assente na mente sapiente de poucos milhares de cidadãos instruídos – ainda que a emoção às vezes suplante a razão –, machuca saber que em milhões de pessoas a tristeza e o desespero de ver desonrada as cores da bandeira em um campo de futebol sobressaia à tristeza e ao desespero de ver diuturnamente maculada as cores nacionais no campo da política, com a falta de democracia econômica e a desigualdade humana; porém, tratar com descaso e desídia um jogo que para a maioria de nossa gente é o único momento de retificação social – em cujo quadriênio aponta para um carnaval de trinta dias e para uma temporária unificação nacional –, é o maior e mais epidêmico dos males.

Agora, resta acreditar que aos poucos a nossa civilização desprende-se deste fúteis laços e fita-se de modo mais realista e importante nas verdadeiras questões nacionais, bem diferente da não observada nesta Copa do Mundo.

Enfim, deve-se abrir e roçar os olhos para enxergar o que realmente apareceu neste último sábado, pois o que se viu não foi uma “pátria de chuteiras”.

Viu-se, simplesmente, um amontoado de chuteiras multinacionais, sem pátria, sem corpo e com a alma alugada.