sexta-feira, 20 de abril de 2018

# milhões de palavras



Uma das imagens mais icônicas do golpe e do ambiente tirânico do sistema de justiça que desintegra o estado brasileiro e nos mantém atolados no abismo social.

Uma das imagens definitivas para ilustrar do que toda essa gente que deu corpo e asas ao processo de ruptura democrática é feita: vilania, soberba, desprezo e ignorância.

Trata-se de Leonardo Boff, senhoras e senhores, um dos cinco maiores brasileiros vivos (v. aqui), sentado com sua bengala à portaria da Polícia Federal em Curitiba, enquanto aguardava o aviso de uma beócia togada que iria proibi-lo de visitar seu amigo-irmão.

Que tristeza, minha gente.




sexta-feira, 13 de abril de 2018

# lava de chumbo



Esses dias deparei-me com um texto escrito por Osho, de quem acho nunca ter ouvido falar.

Fala de solidão, de solitude e do singular momento a sós...

Descobri este meu "vazio" vagando pela Europa, no meu particular camino santiagués, em profundos setenta e tal dias a rodar da Ibéria ao Leste, da Escandinávia ao Adriático, com o centro do velho mundo como eixo e a busca do meu novo centro como meta.

Peregrino, senti ultrapassar os limites da "solitude" de Osho; lá, uma solidão sem fim abria espaço para tudo e, perigosa, levava à torrente intensa de ideias, teses, dogmas e sentimentos que faziam aprofundar ainda mais num espaço sem fim.

Tem-se uma verdade: como nunca se pode, são nestas situações que nos pervertermos para abrir os olhos e (se) ver, e (se) enxergar, e (se) reparar. 

E se intocável, vagueava até tatear numa realidade cada vez mais clara, num cheiro cego de quem ali só escutava o buraco meio misantropo de línguas que vinham a toda hora diferentes: o húngaro do diabo, o polonês da wodka, o inglês do pravda, o embrulho do croata, o grito da sicília e o sueco de um mundo que um dia há de vir – e que assim seja (amém...).

Sê!, adverte.

E deixa-me notar algo de muito errado no ar.

Ar rarefeito, sublinhe-se.

E que aspirado por quem não era, traz o arrebatador efeito de compreender que a ordem das nossas coisas merece um novo arranjo.

Merece a desordem para ser reconstruída à imagem e à semelhança de tudo o que é mais justo neste nonsense mar que permanece dividido, diluído, morto.

Antes da solidão, enquanto ainda se está apenas sozinho, embrulha-se num estômago de inquietações que se faz sentir sem mentir, que se sente permitir levar-se adiante como se aquilo tudo não fosse com você, e como se dissimular para todo o exército que se forma diante do espelho fosse a resoluta salvação.

Não, não te resolve.

Não, você não consegue não se ver.

E mais.

As emas que em volta emanam e borbulham aos borbotões, reclusas com suas cabeças mergulhadas em outro planeta, não te podem convencer de que a ótica é outra, de que o-seu-ponto-de-vista-não-tem-a-vista-verídica e de que as viscosas e grossas vistas de quem finge não querer ver compõem o melhor remédio da terra.

E, naquele infindo tempo de isolação, você simplesmente percebe que lá atrás dele e de todas as sete cores daquela turva imensidão está, enfim, o pote de colírio.

Mas, sem calma, não se permita o mínimo resfôlego.

É que a sina solitária finge-se para não se mostrar que ali se está só no começo.

Sempre, sempre no começo, a te levar só para eternos recomeços que te fazem sempre querer voltar ao zero, à vala vazia, àquela avara estaca do status quo ante, ao estado que te mantém no falso estado que te alivia para te alienar na pureza da inércia, do cômodo, do morno engodo vomitado pelas letras cartesianas da lei, da moral e dos bons costumes que por toda a vida te desencaminharam.

Esta é a promessa, esta é a jura da existência.

E por isso o privilégio por encontrar a gota d´água da cola mágica que sempre prometeram jamais existir.

Sim, sozinho e na poética vágada da solidão, se descobre melhor o mundo.

Único, como um álbum de figurinhas que de criança quase desisti: custoso, incerto, demorado e difícil, mas que completei e que para sempre ficará comigo guardado.

Como ficarão, espero, as lições aprendidas daquela minha silenciosa peregrinação.

Todas bem emaranhadas, apreendidas no labirinto da alma.


quarta-feira, 21 de março de 2018

# vitrines e espelhos: a vertigem hipersocial



A cada dia se nota a constrangedora evolução dos hábitos e do comportamento humano, demasiadamente humano, no universo das relações sociais da internet.

Em cada detalhe, em cada gesto, em cada canto, em cada esquina virtual, mais e mais pessoas parecem insistir em não entender o espírito da coisa – como aqui destacamos sobre uma das ágoras pós-modernas, o twitter, o qual é por muitos usado, infelizmente, ou como palanque de tipos celenterados que antes rastejavam pelos porões urbanos e que agora buscam ali seus 140 caracteres de fama, ou como um divã onde ácaros e anêmonas despejam seus recalques e frustrações.

Ou então, e muito mais perigoso, o tal do facebook, uma máquina de destruição social em massa e o maior big brother orwelliano jamais imaginado do planeta Terra

O que leva a massa a desabrochar seus sentimentos, vidas e vontades, tudo e a todo instante, em rede mundial, na busca de ver e ser visto  eis, então, a princípio, a cultura do grande irmão, trazendo seres que rompem continuamente a sua privacidade, os seus dados, a sua alma.

Só porque você encontrou aquele sujeito que nem se lembrava, lá da quarta série, acha bacana? Ou somente porque você é fã daquele seu amigo superbacana acha interessante derramar algumas palavras ali, na tela, bacana? Ou será que toda essa gente se engana ou então finge que não vê?

Ora, para que me interessa saber o que fulanos, beltranos e cicranos fazem das suas vidas? 

E o que dizer do “perfil” que cada um oferece: gosto de ler nietzsche, sou parda e simpática, tenho aracnofobia e uso pasta dental crest menthol extra-light, como produtos etiquetados postos em vitrine para consumo ou deleite?

As pessoas têm amigos e relacionamentos que permitem e velam por tal abertura, por tais (re)conhecimentos, por tais intimidades recíprocas... agora, fazer desse clubinho uma vitrine humana, que nos fazem reféns diários de novos contatos, de um encarniçado networking e de mais números entre parêntesis é certamente execrável. 

E, então, eis que surge o maior caos, o caos social, que vai sim, rechear-se de demagogia, de hipocrisia, de superficialidade, de mecanização das relações. 

E como piora, se degrada e não tem fim o poço da falta de razão com que se apresentam, à toa, atochadas numa casca de noz que representa um universo da falta de noção.

Ou, pior ainda, da sobra de vaidade, de auto-estima, de "auto-emesia".

Neste terremoto civilizacional das tais redes sociais, como, pior ainda, o instagram, um contingente incrível que se tatua online para tentar tatear a própria realidade – e até estes dias, acreditem, a onda era o selfie after sex.

E assim avoluma, avulta, vaza e entope cada carótida das teias nervosas da rede uma imensa gente com os seus auto-retratos, seus pós-retratos ou os retratos autônomos das suas vidas que vivem de descartes, do que se tem que fazer ou ter e do que está out ou in, conforme as bancas de revista e as coca-colas da vida anunciam e dita a "modernidade líquida" de Bauman.

O "nada" adquire poderes sobrenaturais: o ar respirado, a comida engolida, o visto dos olhos, tudo se motiva para entrar na esfera do público, para o público, pelo público -- e até os pêlos tornam-se públicos.

A exposição é gratuita, é ordinária, é vazia e é cheia de uma futilidade que assombra, em versões digitais e sociais da mais rasteira lenda narcisista. 

Ora, intriga-me saber o quê e como se enxergam estas pessoas, que no mais simples, cotidiano e mesmo íntimo ato da vida fazem máxima questão de, num quase ato de extrema-unção, colocarem-se à mostra para o fim abençoado da plateia.

Uma "vitrine humana", desnecessária e sem sentido, como aqui já falamos, numa época em que a moda era outra passarela.

Vê-se espelhos pra cá, poses pra cá, pratos acolá, abraços com micos, emas e estátuas vivas, tudo é visto, selado, registrado, carimbado e explicitamente disposto se quiser voar para a boca e olhos de todos, para consumo mundial, vinte e quatro horas no ar.

É a vida à la carte, a vida em pedaços, a vida fatiada e servida nas suas melhores partes, num banquete enfetichezado.

Eis a máxima: “o que não está postado no mundo da redes sociais não está no mundo”, prega esta gente com os seus luxuriantes frames, quadros e quadrantes, na profunda patologia do barulho e da irrelevância do tudo.

Ou, como diria o filósofo Guy Debord e a sua "sociedade do espetáculo", o hiperreal é onde está a verdade.

E isso tudo aliena, enfastia, engana e finge-se natural, fruto de uma geração que se empanturra com uma curtição alheia, acrítica, aviltada, atabalhoada, sem pé e nem cabeça, sofrida, sôfrega, quase sonâmbula, típica de quem anda está perdido na caverna platônica.

Não sei, talvez ela esteja afundada após mergulhar na entorpecida imagem refletida na lagoa.


Ou, então, no vácuo da psyché pobre e vazia que faz cada um "ser" somente naquele ato ou naquele objeto fotografado e espalhado para o mundo.


Para assim seguirmos, etiquetados e diariamente presos num processo de idiotização que faz corar qualquer iluminista do séc. XVIII.

Até que, enfim, uma maioria perceba do que é feita esta árvore e, mais, que os seus envenenados frutos nunca recompensaram.



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

# fado tropical (a nossa pororoca)




Um amigo coimbrão pede-me as últimas impressões sobre o "estado de coisas" nesta anunciada tragédia brasileira. 

Dei-lhe uma ideia, sobre intervenção e quejandos eleitorais, respondida por e-mail sob uma lisérgica dose de desgostosa futurologia.

Segue-a.

A intervenção? Um blefe, tosco, muito mal dado e que no segundo dia foi desmascarado pela população. Óbvia aldrabice, merchandising eleitoral de quinta categoria.

A real realidade – desculpe-me a redundância – sobre a violência está fotografada em um estudo do IPEA/FBSP: “Atlas da Violência”, de 2017, no qual se mostra a cidade do Rio de Janeiro como a 23ª capital “mais violenta” do Brasil e a 133ª cidade com menos homicídios dentre as cidades com mais de 100 mil habitantes, enquanto o Estado do Rio como o décimo do ranking de violência.

Usam o Rio – palco e tambor eternos do Brasil (e da Rede Globo) – como vitrine nacional (e como "experiência", assim disse um desses fardados em entrevista coletiva), pura busca de holofotes para (tentar) capitalizar eleitoralmente, tendo como pauta o “choque de ordem”, área clássica dos conservadores.

Esse seria o último suspiro da direita, já que “economia/emprego”, “saúde” e “corrupção” (áreas que estão na frente da “violência” como preocupação prioritária do povo brasileiro, como mostram as últimas pesquisas) são temas que não lhe dá suporte, inclusive pela gestão Temer.

Eis que isso virou chacota geral, e parece frustrar a ideia da tal "intervenção" em outros Estados, inclusive Roraima – um pequeno Estado ao Norte que faz sensível fronteira com a Venezuela –, tudo para adoçar o suco de medidas de exceção, doce sabor para um "novo caos" que adiará as eleições previstas para este ano.

Porém, os canalhas (canalhas! canalhas!) ainda devem tentar pelas vias menos escancaradas. E para isso dependem da eterna Globo – que vocês aí da terrinha tanto gostam... – para emplacar um cara (um outsider, claro!) com mínimas chances de derrotar um "Lula". 

Mas o tempo passa, e não conseguem inflar ninguém.

E por isso, como há dois anos tenho arriscado dizer – ou seja, desde quando praticamente se oficializou o golpe –, creio sinceramente que não teremos eleição em 2018 (eu falava muito disso no blog).

Afinal, este consórcio formado (1) pelo grupo do Michel Temer (junto com uma camarilha do PSDB – algo tipo o PSD de vcs), (2) pela Globo e (3) pelo grande capital financeiro não deu um golpe à toa. 

E sabe que no voto perderão para um "Lula", esteja ele solto, preso ou morto.

E perdendo...

Os primeiros verão o fim do túnel na política (ou o sol nascer quadrado).

A segunda (a Rede Globo) será oficialmente desmascarada e sofrerá com a regulação que a esquerda promoverá sobre concessões públicas de rádio/tv. 

E o terceiro será pressionado, com revisão da dívida pública e da política de juros.

Porém, o Lula (sem aspas) é o Lula. 

E não duvido que o dito consórcio, certo de ser derrotado e não querendo ver sangue (ou seja, os militares de volta sob um "Estado Constitucional de Exceção"), chame o Lula para um encontro. 

Costurar-se-ia a paz, num 2º grande acordo nacional, com o STF, com tudo.

Liberarão o Lula para concorrer, sem prisão e sem "ficha suja" (tem uma lei aqui no Brasil que, "em tese", impede a candidatura de pessoas condenadas em 2º grau de jurisdição, caso do ex-presidente). 

E em 1º de janeiro de 2019 ele assume o timão de um navio em cacos e à deriva.

E aquele consórcio? 

Ora, os primeiros verão suas ações penais caminharem para a prescrição, tramitadas e julgadas no ritmo natural de um Poder Judiciário atarefado com outros furtos e descaminhos e zeloso com o devido processo legal; ademais, terão um carguinho ali, uma nomeação aqui, um favor acolá, sobrevivendo como zumbis da República...

A segunda, toda platinada, continuará abastecida com verbas publicitárias e não verá uma "Ley de Medios" que lhe arrebente o monopólio e lhe exponha ao sol. 

E o terceiro... bem, o terceiro ainda terá no Brasil um paraíso, uma espécie de ponto final do arco-íris de onde continuará extraindo seus potes de ouro.

(Bem, restaria saber como se daria isso no plano geopolítico internacional, ou, sendo mais direto, como se comportaria os EUA nisso tudo, vez que parece estar umbilicalmente ligado ao golpe, por interesses diretos e indiretos mui claros sob as lógicas capitalista e imperialista...)

E você me perguntará: por que cargas d´água o Lula aceitaria isso? 

Porque ele sabe que o Brasil não tem saída, porque ele sabe que, agora, institucionalmente, o Brasil não tem saída e está feito ao bife.

Ora, o golpe destruiu todos os alicerces institucionais, republicanos e democráticos do Brasil.

O golpe destruiu o trabalho, destruiu a economia, destruiu as políticas e o pacto sociais, destruiu o pacto federativo, destruiu as relações internacionais do Brasil. 

O golpe deu um nó cego nesta sua ex-colônia, ´tás a ver? 

E esse "acordo" permitiria achar um pedaço em frangalhos do fio da meada. 

E (tentar) pôr fim ao caos.

É mais ou menos isso que enxergo, e se concordo com isso tudo já são, como cá dizemos, outros carnavais...

Um saudoso abraço, na esperança – veja só – desta terra aqui um dia vir a cumprir seu ideal.



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

# o fim de um tabu



Núcleo justificante da picaretagem dessa "intervenção" do bando vampiresco, a violência no Rio tem boa parte das suas amarras no narcotráfico, ainda que hoje ele esteja se especializando em outras áreas, mais lucrativas.

Por isso urge enfrentar a fundo e debater a sério a questão das "drogas", definitivamente uma das pautas estruturantes do nosso presente e futuro social.

Que fique claro: deixá-las às sombras e à escuridão, rotineiramente fabricadas, trazidas e montada pelos esgotos das cidades, habitualmente distribuída e comercializada por ratos, corvos e bandidos e invariavelmente consumida a doses industriais em todas as festas, campings e circos da Oropa, França & Bahia, é de uma insensatez sem tamanho.

Os estudos, as pesquisas, os dados, os dossiês, os astros, as bulas, os espelhos, os evangelhos, os orixás, tudo aponta para a irracionalidade da sua proibição.

Como aquiaqui, aqui e aqui já enfatizamos, há muita base e respaldo científico (interdisciplinar e multinacional) para afirmar que, jamais desprezando os seus múltiplos malefícios, a maconha não pode receber um tratamento diferente daquele dispensado às outras maiores "drogas sociais" (álcool e cigarro), ainda mais prejudiciais e viciogênicas – eis aqui, um documentário definitivo deste tema.

Ora, não são poucos os estudos científicos das Ciências Sociais que concluem: a criminalidade nos nossos morros e periferias exsurgem, em sua quase unanimidade, pela cotidiana guerra a envolver "chefões", a "polícia" e a "comunidade", a revelar o fascínio e a submissão que esta tem diante dos primeiros  haja vista as recompensas e a pressão que recebem , eis, pois, a difícil equação e estéril solução para que a segunda (ou, diga-se, o "Estado") não se subjugue à corrupção dos primeiros e não se desfaleça diante do medo da segunda.

Ora, não são poucos os estudos científicos da Economia que concluem: um mercado fechado, com oferta escassa e demanda latente, com o mais absoluto dos entraves mercantis a "proibição" na sua comercialização , traz como consequências lógicas a supervalorização do produto, a superacumulação de lucros, a superestruturação de negócios paralelos (e, claro, ilegais) e a superexploração da mão-de-obra empregada (leia-se, aqui, a disputada empregabilidade em setores ilícitos e imorais).

Ora, não são poucos os estudos científicos da Medicina que concluem: a maconha é muito menos maléfica  porquanto causa menos dependência e afeta com muito menos dano o nosso organismo  do que o cigarro (aquele com nicotina e uma centena de componentes químicos) e o álcool (aquele responsável por um número avassalador de mortes, em especial no trânsito); e mais, atestam o seu uso terapêutico para diversas doenças, maiormente àquelas relacionadas ao sistema nervoso.

Ora, não são poucos os estudos da Psicologia que concluem: não há relação absoluta entre o uso da maconha e o uso subsequente, p. ex., da cocaína ou do crack, vez que uma ínfima parte dos usuários da erva são seduzidos e caminham para a dependência de drogas pesadas  ou seja, é falsa a "lógica" de ser uma droga de passagem; ademais, os estudos mostram que o acesso e a relação do jovem com o "proibido" estimula o contato com o mundo da criminalidade e da perversão, vez que não há meios sociais de obtê-la senão pelos meios obscuros e (mais) perigosos.

Ora, não são poucos os estudos do Direito que concluem: o direito fundamental à intimidade e à privacidade e a autodeterminação do indivíduo são espaços imune à interferência estatal  desde que não ofenda patrimônio jurídico alheio , o qual deve abdicar-se da imposição de padrões e de moralismos que não violam valores sócio-jurídicos; ademais, há flagrante ofensa ao princípio da proporcionalidade (adequação e necessidade) e, ainda, flagrante ilegitimidade na proibição da maconha, nos moldes de hoje, a partir do instante em que a sua ofensividade atine, concretamente, apenas à saúde do próprio indivíduo, não havendo lesividade a bem jurídico de terceiro.

Ora, não são poucos os estudos da Ciência Política que concluem: a questão não é de segurança pública, mas, sim, matéria de políticas sociais ligadas à saúde e à educação. Combater a droga, na forma de guerra civil, canabalizada  e malfadada, é não-política, inútil e, pior, contraproducente, que não mitiga um claro poder paralelo havido nas periferias, desestabilizando o Estado.

Ora, a História mostra que não apenas os padrões comportamentais da sociedade levam para o reconhecimento de costumes morais ou não, legais ou não, mas, principalmente, os interesses das classes dominantes do Estado, que veem ser mais ou menos interessante admitir ou não certas condutas e certos fatos; logo, e por isso, as bebidas alcóolicas e o cigarro (aquele com nicotina, benzeno, fósforo, naftalina, amônia etc.) são  e quase sempre foram  permitidas em boa parte do mundo, enquanto a maconha é criminalizada e vista como algo satânico.

A questão, pois, parece se sustentar em contas mal feitas acerca dos custos públicos da medida – e de um erro crasso na solução desta public choice, que trata o problema da maconha como questão de polícia e segurança pública, e não de saúde pública; ou, então, em aspectos metafísicos, meio dogmáticos, meio carola, tese reducionista de uma turma puritana que acha o baseado simplesmente uma coisa do capeta.

E é, se continuar a ser monopólio do crime organizado, a causar milhares de mortes todos os anos e a custar milhões em aparato e corrupção policialescos.

Mas acredito no bom senso e no progresso da Política e do Direito, com a revisão e a transformação de ideias e ideais.


Como, por exemplo, a liberação controlada, selada, carimbada, registrada e fiscalizada do cultivo e distribuição da maconha – e de modo ainda mais rigoroso do que acontece com fármacos, álcool e tabaco.

Afinal, a guerra contra o narcotráfico é uma estupidez, uma cretinice monumental.



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

# voy remando



Na vida, há situações em que devemos tomar firme partido.

Assim, como naquele aforismo kafkaniano, se o ponto a se chegar é o ponto a partir do qual não há mais retrocesso, eis que nele chegamos.

E então escolhemos um lado, posto que não se trata de um maniqueísmo qualquer.

Ora, acredito no Estado Social e Democrático de Direito, na Constituição e nas idéias em construção de República e de cidadania.

Acredito nos valores da presunção de inocência, do contraditório, da ampla defesa e de uma justiça independente e imparcial, cláusulas fundamentais da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

E acredito -- para não dizerem que não falei das flores -- no sério e justo combate aos crimes contra a ordem econômico-financeira e contra a Administração Pública (os "crimes de colarinho branco"), com investigação, ação e decisão lastreadas no nosso estrito ordenamento jurídico.

E, por isso, acredito que o obscurantismo, o autoritarismo e o arbítrio de agora, em nosso quintal e a um palmo dos nossos narizes, precisam ser imediatamente controlados e repugnados, com a mais absoluta veemência.

Afinal, se hoje é contra os "petralhas" -- e parece só com eles, monopolistas de todo o mal e da má política nacional --, amanhã será contra qualquer um de nós, ao bel-prazer dos senhores celestiais de toga ou dos meninotes concurseiros metidos a Rambo, tal qual foi ontem, naquela escuridão dos anos 60 e 70 com toda aquela sua besta gente fardada.

Mas hoje, infelizmente, uma maioria ainda não percebe isso, porque é incapaz de refletir os fatos para além dos plim-plins platinados e das notas de whatsappcooptada e manobrada pela narrativa fácil que fantasia uma realidade cuja retórica rocambolesca dissemina-se em tons de ódio, fúria e frases-feitas sem sentido.

Uma maioria incapaz de perceber o seu real "lugar de fala" e o seu "campo social", afinal, toda esta trama se trata, sim, de luta de classes no plano nacional -- como assim é a vida em sociedade desde que a Idade Média acabou -- e de geopolítica no cenário global.

E, principalmente, uma maioria incapaz de perceber que esse julgamento não é o dia final de um juízo que persegue simplesmente um homem, sob o ardil de um processo que, nascido das mãos bem enluvadas de uma piazada de prédio e de um justiceiro de ocasiãomistura Kafka e Camus para produzir um conto do vigário.

É, sim, o julgamento que condenará aquela promessa de democracia que tentamos construir, "aos trancos e barrancos" -- assim escreveu Darcy Ribeiro --, há trocentos anos.

É, sim, o julgamento que condenará aquela ideia de um país para todos, capaz de extirpar a miséria, a fome e as vidas secas de milhões de escravos sociais que invisíveis sempre perambularam por toda a nossa macunaímica Oropa, França e Bahia, uma terra única, praticamente intocada em matéria de desigualdade e de privilégios.

É, sim, o julgamento que condenará aquelas esperançosas políticas públicas que, a fim de alcançar pretos, pobres e putas, buscavam quase quixotescamente transformar a nossa sociedade de castas para então fazer rodar o moinho, o pião, a roda-gigante historicamente travados pela nossa "elite do atraso", como dissecou Jessé Souza.

Está muito claro, pois, que não se trata de fulanizar a defesa em uma pessoa ou a luta por um grupo político.

Trata-se de admitir, à luz do ordenamento jurídico brasileiro, que não houve crime, que não houve provas e que não houve um devido processo legal: o caso é uma fraude penal e se prestará como fraude eleitoral. 

Trata-se, eis a verdade, de resguardar um mínimo de dignidade às já tão combalidas regras do jogo democrático vigentes em um Estado que quer se reputar de direito. 

Trata-se, de novo, de reconhecer que nunca antes uma orquestração jurídico-política que condenará um inocente restou tão evidente e por razões tão óbvias: Luiz Inácio Lula da Silva, pelo (pouco) que fez, pelo (muito) que deverá fazer, pelo que representa e por quem é, tornou-se absolutamente imbatível nas urnas.

E se trata, enfim, ao se promover esta defesa e esta luta, de poder, lá na frente do tempo, com os netos ao colo e o brilho cansado dos olhos de um velho, afiançar-lhes de que lado estivemos nesta nossa História.


Rema, rema, rema...



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

# sueño



Não durmo mais,
  na verdade, desdurmo todos os dias desvividos.

 Não sonho mais,
 na realidade, desisti de sonhar
para continuar sonâmbulo de uma rotina nauseante.

E no meu calabouço calo a boca e ouço o grito que alhures agoniza.
  
Não, não escuto mais 
  e agora engulo o choro intranquilo que sempre fora meu.

Ora, já não me sinto,
 apenas afundo plúmbico em baldes de absintho,
torrando a pele que doura anestesiada e enferrujada à beira-mar.

Enquanto borbulho o ar rarefeito de naftalina que me impregna.

Não respiro,
 mas transpiro a dor da saudade da idade antiga desabitada.

 E fujo, 
 sujo na teia matreira do destino que algema a liberdade de barro
num sopro envenenado que tira a última costela.

E a vida.
  
Não acordo mais  
 e desacordo.

 Enforco-me nas tripas desembuchadas
 de um corpo cansado
que descaminha trôpego sobre o cadafalso da existência.
  
Do sangue embutido que vendo, 
o vermelho é das minhas lágrimas.



# despenhadeiro



Não ando devagar, nem ando.

Como um calango rastejo-me na milonga do tango que me enfada na melancolia.

E paro, e rolo, e caio.

descambo ao fundo do colo a gemer em cólicas toda a dor do mundo.

E chego, e de olhos esbugalhados para o nada resto inerte pela estaca que afunda em meu peito.

E choro, e grito as cordas de uma voz mocha em vão.

Sem ar, clamo às brânquias mutantes que surgem.

Ingratas, em núpcias com meu fim fingem inexistir.

Já não faço bolhas, nem faço nada.

De graça, rogo a fotossíntese do verde que nunca quero ver.

Não há sol, nem chuva.

E nas brumas sobre as espumas que me cobrem noto que emboloro.

No corpo cansado, suspiro.


# gregoriano


Baratas brancas atracam
pelas frestas largas
da sanca aberta em meu siso.

Em sibemol insisto
na ópera em que enceno degluti-las
a erguer ao cabo um corcovado em gesso glacê.

Apenas sonho.

Agora as mantenho na estufa
onde assam e acabam feito pó da solidão
atônitas na dança bamba pela arcada de cáries vivas
que brotam e sugam a carne mofa da pele.

Não, apenas sonho.

Resisto.

E bochecho o chorume da peste.

Engulo.

E cá em mim gotas da metamorfose já presa do destino
 como uma desgraça canina amorfa no celeiro cruel
sobre o qual gravitam as lantejoulas pueris do passado
vesgas artífices da construção movediça da minha realidade.

Estava acordado.



# aperreado



Não há mais espaço.

Onde deves saltar deste voo cego que tripulaste?

 Ah, cosmonauta querido, 
por que tomaste o desrrumo da estrela-guia perdida?

 Toma, lambuza-se do colírio que pinga e vinga o olhar que tudo enubla.

Vê, reflete aquele martírio que ginga sobre a caatinga do semiárido que te perturba.

 E expurga, xinga a mandinga barata ofertada no terreiro fementido da esquina.

 Como mártir da restinga gringa que míngua sob a tua vida arlequínea.

  Ora, não há mais horizonte.

 Onde deves largar-te do bote à deriva que embarcaste?

 Ah, náufrago infausto, 
por que insististe no mergulho nas longes latitudes deste triângulo cáustico?