segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

# o fim de um tabu



Núcleo justificante da picaretagem dessa "intervenção" do bando vampiresco, a violência no Rio tem boa parte das suas amarras no narcotráfico, ainda que hoje esteja se especializando em outras áreas, mais lucrativas.

Por isso urge enfrentar a fundo e debater a sério a questão das "drogas", porquanto uma das pautas estruturantes do nosso presente e futuro social.

Que fique claro: deixá-las às sombras e à escuridão, rotineiramente fabricadas, trazidas e montada pelos esgotos das cidades, habitualmente distribuída e comercializada por ratos, corvos e bandidos, e invariavelmente consumida a doses industriais em todas as festas, campings e circos da Oropa, França & Bahia, é de uma insensatez sem tamanho.

Os estudos, as pesquisas, os dados, os dossiês, os astros, as bulas, os espelhos, os evangelhos, os orixás, tudo aponta para a irracionalidade da sua proibição.

Como aquiaqui, aqui e aqui já enfatizamos, há muita base e respaldo científico (interdisciplinar e multinacional) para afirmar que, jamais desprezando os seus múltiplos malefícios, a maconha não pode receber um tratamento diferente daquele dispensado às outras maiores "drogas sociais" (álcool e cigarro), ainda mais prejudiciais e viciogênicas – eis aqui, um documentário definitivo deste tema.

Ora, não são poucos os estudos científicos das Ciências Sociais que concluem: a criminalidade nos nossos morros e periferias exsurgem, em sua quase unanimidade, pela cotidiana guerra a envolver "chefões", a "polícia" e a "comunidade", a revelar o fascínio e a submissão que esta tem diante dos primeiros  haja vista as recompensas e a pressão que recebem , eis, pois, a difícil equação e estéril solução para que a segunda (ou, diga-se, o "Estado") não se subjugue à corrupção dos primeiros e não se desfaleça diante do medo da segunda.

Ora, não são poucos os estudos científicos da Economia que concluem: um mercado fechado, com oferta escassa e demanda latente, com o mais absoluto dos entraves mercantis a "proibição" na sua comercialização , traz como consequências lógicas a supervalorização do produto, a superacumulação de lucros, a superestruturação de negócios paralelos (e, claro, ilegais) e a superexploração da mão-de-obra empregada (leia-se, aqui, a disputada empregabilidade em setores ilícitos e imorais).

Ora, não são poucos os estudos científicos da Medicina que concluem: a maconha é muito menos maléfica  porquanto causa menos dependência e afeta com muito menos dano o nosso organismo  do que o cigarro (aquele com nicotina e uma centena de componentes químicos) e o álcool (aquele responsável por um número avassalador de mortes, em especial no trânsito); e mais, atestam o seu uso terapêutico para diversas doenças, maiormente àquelas relacionadas ao sistema nervoso.

Ora, não são poucos os estudos da Psicologia que concluem: não há relação absoluta entre o uso da maconha e o uso subsequente, p. ex., da cocaína ou do crack, vez que uma ínfima parte dos usuários da erva são seduzidos e caminham para a dependência de drogas pesadas  ou seja, é falsa a "lógica" de ser uma droga de passagem; ademais, os estudos mostram que o acesso e a relação do jovem com o "proibido" estimula o contato com o mundo da criminalidade e da perversão, vez que não há meios sociais de obtê-la senão pelos meios obscuros e (mais) perigosos.

Ora, não são poucos os estudos do Direito que concluem: o direito fundamental à intimidade e à privacidade e a autodeterminação do indivíduo são espaços imune à interferência estatal  desde que não ofenda patrimônio jurídico alheio , o qual deve abdicar-se da imposição de padrões e de moralismos que não violam valores sócio-jurídicos; ademais, há flagrante ofensa ao princípio da proporcionalidade (adequação e necessidade) e, ainda, flagrante ilegitimidade na proibição da maconha, nos moldes de hoje, a partir do instante em que a sua ofensividade atine, concretamente, apenas à saúde do próprio indivíduo, não havendo lesividade a bem jurídico de terceiro.

Ora, não são poucos os estudos da Ciência Política que concluem: a questão não é de segurança pública, mas, sim, matéria de políticas sociais ligadas à saúde e à educação. Combater a droga, na forma de guerra civil, canabalizada  e malfadada, é não-política, inútil e, pior, contraproducente, que não mitiga um claro poder paralelo havido nas periferias, desestabilizando o Estado.

Ora, a História mostra que não apenas os padrões comportamentais da sociedade levam para o reconhecimento de costumes morais ou não, legais ou não, mas, principalmente, os interesses das classes dominantes do Estado, que veem ser mais ou menos interessante admitir ou não certas condutas e certos fatos; logo, e por isso, as bebidas alcóolicas e o cigarro (aquele com nicotina, benzeno, fósforo, naftalina, amônia etc.) são  e quase sempre foram  permitidas em boa parte do mundo, enquanto a maconha é criminalizada e vista como algo satânico.

A questão, pois, parece se sustentar em contas mal feitas acerca dos custos públicos da medida – e de um erro crasso na solução desta public choice, que trata o problema da maconha como questão de polícia e segurança pública, e não de saúde pública; ou, então, em aspectos metafísicos, meio dogmáticos, meio carola, tese reducionista de uma turma puritana que acha o baseado simplesmente uma coisa do capeta.

E é, se continuar a ser monopólio do crime organizado, a causar milhares de mortes todos os anos e a custar milhões em aparato e corrupção policialescos.

Mas acredito no bom senso e no progresso da Política e do Direito, com a revisão e a transformação de ideias e ideais.


Como, por exemplo, a liberação controlada, selada, carimbada, registrada e fiscalizada do cultivo e distribuição da maconha – e de modo ainda mais rigoroso do que acontece com fármacos, álcool e tabaco.

Afinal, a guerra contra o narcotráfico é uma estupidez, uma cretinice monumental.



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

# voy remando



Na vida, há situações em que devemos tomar firme partido.

Assim, como naquele aforismo kafkaniano, se o ponto a se chegar é o ponto a partir do qual não há mais retrocesso, eis que nele chegamos.

E então escolhemos um lado, posto que não se trata de um maniqueísmo qualquer.

Ora, acredito no Estado Social e Democrático de Direito, na Constituição e nas idéias em construção de República e de cidadania.

Acredito nos valores da presunção de inocência, do contraditório, da ampla defesa e de uma justiça independente e imparcial, cláusulas fundamentais da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

E acredito -- para não dizerem que não falei das flores -- no sério e justo combate aos crimes contra a ordem econômico-financeira e contra a Administração Pública (os "crimes de colarinho branco"), com investigação, ação e decisão lastreadas no nosso estrito ordenamento jurídico.

E, por isso, acredito que o obscurantismo, o autoritarismo e o arbítrio de agora, em nosso quintal e a um palmo dos nossos narizes, precisam ser imediatamente controlados e repugnados, com a mais absoluta veemência.

Afinal, se hoje é contra os "petralhas" -- e parece só com eles, monopolistas de todo o mal e da má política nacional --, amanhã será contra qualquer um de nós, ao bel-prazer dos senhores celestiais de toga ou dos meninotes concurseiros metidos a Rambo, tal qual foi ontem, naquela escuridão dos anos 60 e 70 com toda aquela sua besta gente fardada.

Mas hoje, infelizmente, uma maioria ainda não percebe isso, porque é incapaz de refletir os fatos para além dos plim-plins platinados e das notas de whatsappcooptada e manobrada pela narrativa fácil que fantasia uma realidade cuja retórica rocambolesca dissemina-se em tons de ódio, fúria e frases-feitas sem sentido.

Uma maioria incapaz de perceber o seu real "lugar de fala" e o seu "campo social", afinal, toda esta trama se trata, sim, de luta de classes no plano nacional -- como assim é a vida em sociedade desde que a Idade Média acabou -- e de geopolítica no cenário global.

E, principalmente, uma maioria incapaz de perceber que esse julgamento não é o dia final de um juízo que persegue simplesmente um homem, sob o ardil de um processo que, nascido das mãos bem enluvadas de uma piazada de prédio e de um justiceiro de ocasiãomistura Kafka e Camus para produzir um conto do vigário.

É, sim, o julgamento que condenará aquela promessa de democracia que tentamos construir, "aos trancos e barrancos" -- assim escreveu Darcy Ribeiro --, há trocentos anos.

É, sim, o julgamento que condenará aquela ideia de um país para todos, capaz de extirpar a miséria, a fome e as vidas secas de milhões de escravos sociais que invisíveis sempre perambularam por toda a nossa macunaímica Oropa, França e Bahia, uma terra única, praticamente intocada em matéria de desigualdade e de privilégios.

É, sim, o julgamento que condenará aquelas esperançosas políticas públicas que, a fim de alcançar pretos, pobres e putas, buscavam quase quixotescamente transformar a nossa sociedade de castas para então fazer rodar o moinho, o pião, a roda-gigante historicamente travados pela nossa "elite do atraso", como dissecou Jessé Souza.

Está muito claro, pois, que não se trata de fulanizar a defesa em uma pessoa ou a luta por um grupo político.

Trata-se de admitir, à luz do ordenamento jurídico brasileiro, que não houve crime, que não houve provas e que não houve um devido processo legal: o caso é uma fraude penal e se prestará como fraude eleitoral. 

Trata-se, eis a verdade, de resguardar um mínimo de dignidade às já tão combalidas regras do jogo democrático vigentes em um Estado que quer se reputar de direito. 

Trata-se, de novo, de reconhecer que nunca antes uma orquestração jurídico-política que condenará um inocente restou tão evidente e por razões tão óbvias: Luiz Inácio Lula da Silva, pelo (pouco) que fez, pelo (muito) que deverá fazer, pelo que representa e por quem é, tornou-se absolutamente imbatível nas urnas.

E se trata, enfim, ao se promover esta defesa e esta luta, de poder, lá na frente do tempo, com os netos ao colo e o brilho cansado dos olhos de um velho, afiançar-lhes de que lado estivemos nesta nossa História.


Rema, rema, rema...



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

# aspas (xlviii)


“Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”
José Saramago, em "Ensaio sobre a cegueira".


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

# gregoriano


Baratas brancas atracam

pelas frestas largas

da sanca aberta em meu siso.


Em sibemol insisto

na ópera em que enceno degluti-las

a erguer ao cabo um corcovado em gesso glacê.


Apenas sonho.


Agora as mantenho na estufa

onde assam e acabam feito pó da solidão

atônitas na dança bamba pela arcada de cáries vivas

que brotam e sugam a carne mofa da pele.


Não, apenas sonho.


Resisto.


E bochecho o chorume da peste.


Engulo.


E cá em mim gotas da metamorfose já presa do destino

 como uma desgraça canina amorfa no celeiro cruel

sobre o qual gravitam as lantejoulas pueris do passado

vesgas artífices da construção movediça da minha realidade.


Estava acordado.



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

# encaixotado


Não caibo
no meu desgosto
que sabe a fel.

Desabo
no meu agosto
em que chove sal.

Não trago
no meu posto
o que chamam sol.

Enfado
no meu encosto
que afunda a nau.

Não agrado
meu rosto
que queima em cal.

Atônito,
monossílabo-me.



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

# passado



Não possuo nada,
nada posso.

E no fundo do poço a desgraça me enlaça, 
e emputrefaço.

Diante do amanhã que me esquece,
o silencio reticente da minha sombra
padece na agonia de quem jaz.

Suplico em vão,
para sucumbir sob um blues macambúzio
na catacumba que outrora projetei.

Antes mumificado,
sou apenas o faro avaro do que seria.

Um odor, olor,
a dor e o horror transparentes.

E na marreta dos meus sonhos cromáticos
desconcerto perspectivas para guardá-las em potes refratários da realidade.

Eis, pois, o meu norte,
magnetizado com as sete mil cores da ilusão.

A assim ando,
em arcos que no finito se cruzam e se fecham,
até toda a sorte de liberdade frustrar.

E assim não gravito,
preso ao peso da existência que na corcova nascente carrego.

Não, não há horizonte no que faço,
nem promessa naquilo que crio.

Eis q´na infertilidade do meu grito,
estou prenho na roda-gigante do passado.



# levedo


Oh, úmida alma

Sinto-me velho

Alquebrado dos pés à cabeça,
ouço os suspiros agonizantes da mitocôndria que grelho

Moo-me reprimido

Alimentado das vísceras,
tenho o gosto final da vida que liquidifico

Já não me mereço

Afugentado da alma,
sou eunuco da fé cambaleante que terço

Mas avisto a terra

E arrendatário do coração,
socorro-me na miragem míope das bolhas de luz que a esperança descerram

Oh, úmida alma

Eis que no apodrecimento tem-se a fermentação,
assim sossegou o ajudante de guarda-livros lisboeta



terça-feira, 17 de outubro de 2017

# desfloreio


Apequenado no jardim das minhas memórias 
insisto em cavar meus sonhos. 

À pá, 
cavouco e cavouco a terra do passado 
como um fiel jardineiro a catar as raízes do que ali outrora crescia. 

Em vão,
em seco 
lágrimas agora umedecem
a vida pálida deste mudo fruto
reduzido ao quadrado de uma natureza morta. 

Rasa,
e como destino, 
sepulto no chão batido deste meu mundo 
as ilusões que pintara em garranchos a óleo e fel. 

Resta-me o buraco. 
Resta-me a realidade, sem cores e sem porvir.



# crepúsculo


O assoalho tem um branco
meio mórbido como se
num cadavérico cinza
que precede o preto.

O teto à testa
atesta a laje
do precipício sem parapeito.

O brilho oleoso
abafa os natimortos caracóis
que por fora já emboloram
sob o casco pesado
do fardo carregado.

Rugas e verrugas
camuflam a serra
torta e talhada
que no espelho do leito
do rio são desveladas.

Na imagem tento decifrar
o feio que sem culpa
me devora
ao bel-sabor do tempo
ou do unguento béchamel.

E nesse insosso reflexo
desencesto da memória
a glória escondida
da altiva existência passada.

Eis soçobrar pedaços,
lascas puídas
do desfecho doído
e sem cor.

À sombra de mim,
hoje tento juntar
os cacos que somem no breu.



sábado, 14 de outubro de 2017

# valete


pastiche triste de uma obra,
prisma enviesado sob um trapézio quadrúpede tingido em piche de priscas eras


primavera ao longe,
de bandeira em fungo enrola-se sob um sol tardio


penumbra,
a te fazer tumba num alvorecer que sabe a anis defumado


a nau deriva,
mergulha no pélago da ilusão


passageiro,
de um destino mal calculado


das minhas múltiplas divisões,
não há mais réstia do homem que me fizera


sombra apagada,
anátema em tilte agudo


sinal da voz fanha da barganha que apostei,
e perdi



# talho


broca puída
a perfurar intestinos delgados
por onde pasto e rumino os sonhos del hombre
muerto, na câmara fria de um destino sem luz
inação pela cauda que chicota em estilingues homicidas


vida abatida
sob mochos doloridos como suspiros mal acabados de um ente en vitro
sou despejado na esteira rolante de onde nunca saí
vem, baixa o cutelo que mira o córtex
sinapses somem pelo sangue jorrado como chuva de serpentinas entrudas


corpo moído
em pedaços dependuro-me à vitrine do meu açougue
em ganchos onde a realidade é de uma carne pálida
às moscas, já não valho o que peso
e no silêncio sou descartado como matéria vencida



quinta-feira, 12 de outubro de 2017

# abismo


Não choro mais a agonia da despedida


Estranho

peixe levado em pinhas da memória

sou tragado desde as escamas

por um sentimento triste

de quem parece não crer no passado



Destino fajuto

de semente carregada pelo vento

ao longe arremessado em dor

que cata ventos em livre queda

para desabar ao mar de ontem



Leva-me, leva-me onda

lava a alma que houvera

desta coisa que hoje resta

sem mais o direito à saudade

como um domingo isolado do tempo



No abismo voraz do abraço em vão



#alfeire


Perco-me no bordel das letras

Finjo virgem na construção vadia a que submeto as minhas parábolas

Vis, vãs e as veias abertas a uma realidade explícita

Indigna, indecente e as ideias cobertas por um véu irrealista


Cerco-me no meretrício das palavras

Tinjo a mijo na realização baldia a que prometo as minhas bulas

Anis, anãs e as teias repletas de uma crueldade desdita

Ágona, inclemente e as memórias insertas sob o fel narcisista


Emporcalho-me no lupanar das minhas agruras



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

# náufrago



Atiro-me pedras
porque teimo tanto errar


Engulo-as


E na rede do meu luar
as vomito com os sapos que também não cansam de me judiar


Agora concentrado nesta verve velha
vejo as válvulas já vacilarem num comovente descanso


E a dinâmica do espantalho inveja-me
em face ao corcovado que me prende ao tapete borrado desta sala 
amarrado alado aos ácaros que me sufocam na eterna meia-noite de uma rotina em vão


Eis que por detrás daquela janela
do alto deste arranha-céu
flerto com o cheiro da liberdade que não tenho


Asas fritas em óleo ranço,
apenas roo o osso ao sebo das minhas sobras


E num balde gasto
guardo a carcaça fria para o mesmo dia de amanhã





terça-feira, 10 de outubro de 2017

# cacos


se dentro em seu coração faz dor

ao som do vento fúnebre pariu

entre as cordas da ânsia ao fastio

o medo de uma trilha em bolor


se insiste no pigarro assombrado o clamor

a angústia das sobras de uma noite em cio

flerta a miragem em nuvem de um silêncio hostil

com o ópio desse rio o embalou






Ousei querer tudo do que não sou.

Estou entregue, nos cascos a vagar sem criar um passado, sem lembrar do futuro.

Juro o brio ausente para virar a esquina: não terei saída

Caindo, andante lento tropeço na vertigem narcisa da ilustração refletida.

Traída caricatura, que sem luz do bueiro socorro grito em vão.

Ao chão de súbito rabisco a fuga movediça, ilusão de liberdade.

Alcaide preso no subterrâneo da existência, a boiar aguardo o despejo.

E o desejo pelo ralo que me parta






frio
acalanto cinza de abraços distantes


saudade
branco vazio à fôrma vazante


solidão
quebranto amargo na morada imigrante


suplício
lamento oco como tragédia errante


fim
encanto tardio de vida diletante






Pouco a pouco na finitude definho

E na vida espalhada ao acaso, ocaso


Louco, na rinha ingrata caminho

E nas feridas baratas em casa, o sarcasmo


Oco, no vazio asfalto minha alma

E em cinza rumino o afeto das memórias, em mora


Rouco em rouco engasgo no silêncio das palmas

E nas ruinas o incerto esplendor da história






Rebaixo a nuca ao beijo frio da morte

Cangaceiro eunuco, queixo teso em mata seca sob o assobio da navalha

Tempo brusco, me escondo e em concha vislumbro o fio do destino ao longe

E embrulho o nunca como pavio e dádiva do amanhã

Pois se na bainha funda empunho a vertigem que pariu meus pesadelos

É do suspiro de adeus que escuto a miragem de um cantil de vida






minha semente plantei no quinta onde nasci e à varanda despetalar via o tempo e as folhas caíam e pelo alto a esperança flutuava em vermelho tijolo como se fosse o chão firme pleno terreno de ilusões e de cipó à lua me atirava como mímico primata a debater ossos à procura de som e de luz e de alguém para me tirar da selva árida de uma nostalgia sem fim






Fui uma vida de quases.

Ou quase.

Vida intransitiva para um complemento ácido.

Hoje caído.

Corroído pela finitude da existência.

Tornei-me reticências de causas e ideias.

Chego no buraco onde busco respostas.

E encontro no gancho da interrogação a saída à força do garrancho que me tornei.






Se contente a ranhura do tempo apaga

Agrura clemente em campo que amarga

Vê prudente a cura num santo à descarga

Juras ausentes que o vento afaga



Se inerte à queda no descaminho padece

Resta o flerte desatino tivesse

E na fresta que antecede o vaticínio da prece

Perde e versa o destino como quem adoece